2004-07-01

O Acossado


Todo o bom cinéfilo conhece e aprecia a história de O Acossado (1960), de Jean-Luc Godard. O argumento foi em boa medida improvisado à última da hora e era livremente inspirado numa história de gangsters da autoria de François Truffaut. Michel Poiccard (Jean-Paul Belmondo) é um jovem rebelde procurado pela Justiça devido ao assassinato de um agente policial. Sem dinheiro, sozinho, liga-se amorosamente a Patricia Franchini (Jean Seberg), uma bela estudante universitária americana que aspira a ser jornalista. Michel rouba então um carro para conseguir obter o dinheiro que permita custear a fuga dos dois para Roma. Acaba todavia por ser denunciado por Patricia e morto a tiro pela polícia.

Um dos motivos mais recorrentes e apetecíveis deste argumento é o da incomunicabilidade dos dois protagonistas. Michel e Patricia pura e simplesmente não se entendem e são constantemente arreliados por dificuldades de comunicação. Ambos falham em compreender as atitudes do outro, que aliás quase nunca parecem ter motivação: por exemplo, nunca são verdadeiramente explicadas as razões da morte do agente policial por Michel – muito à semelhança do crime de Meursault em L’Etranger, de Albert Camus – ou da traição final de Patricia.

A incomunicabilidade entre os dois, em boa parte devida às suas diferentes proveniências sociais e culturais e ao calão cerrado do protagonista, mantém-se até à última cena. Não é certo o significado das derradeiras palavras de Michel («c’est vraiment dégueulasse!»), pois ficamos sem saber se a afirmação se reporta ou não a Patricia. Seja como for, Patricia não compreende o significado da frase: «Qu’est-ce que c’est dégueulasse?», limita-se a perguntar, olhando a câmara de frente e pressionando os lábios com o polegar, copiando o gesto que Michel por sua vez havia copiado de Bogart. O extraordinário desenlace de O Acossado permanece assim como um testemunho eloquente da apetência de Godard pelas palavras, do seu gosto pela ambiguidade e da elegância da sua cinécriture.