2005-03-21

Elipses

A elipse é o processo narrativo que se caracteriza pela supressão de elementos da acção para realçar outros e tem no cinema, meio que se rege pela economia e necessidade de síntese, um campo de aplicação privilegiado. A montagem, dividindo o tempo e o espaço narrativos em diversas partes (planos), veio facilitar essa operação e quanto mais elíptico for um filme, mais longe estará de uma estética literária ou teatral. O cinema está repleto de exemplos memoráveis de elipses. O que há de tão apetecível e sedutor nelas é a sua implicação do espectador: as elipses são lacunas, espaços vazios, pequenas ilhotas de liberdade semiótica que solicitam uma pluralidade de leituras. O realizador já não afirma, apenas sugere; não mostra a totalidade das coisas, mas apenas a sua parte mais significativa; e, finalmente, cria espaços de indeterminação, ambiguidade e criatividade que o seu público poderá explorar.

Um exemplo famoso (e fumoso…) de elipse é a que encontramos na sequência de abertura de Vertigo (1958), de Alfred Hitchcock. Tudo começa, coerentemente, muito acima do chão. Um criminoso foge para um telhado que domina uma altura imensa. Dois polícias estão no seu encalço e um deles é James Stewart. Ouvem-se tiros. Quando Stewart escorrega e se agarra por um triz a uma calha, o colega tenta auxiliá-lo mas cai para a sua morte. Tudo indica que Stewart vai seguir o mesmo destino: a chapa metálica que o segura dá sinais de ceder, mas um corte súbito transporta-o logo de seguida para o conforto da casa de Midge. A elipse é das mais enigmáticas, porque nunca nos é mostrado como é que o protagonista se salvou da morte. De certo modo, ele é o primeiro a voltar «d’entre les morts» (título do livro de Boileau e Narcejac que inspirou o filme) e a sua sobrevivência pertence à ordem do onírico. Tudo se passa como num sonho, como no despertar daqueles pesadelos frequentes em que sonhamos que vamos a cair. No final do filme, Stewart voltará a estar suspenso sobre o abismo, sem sabermos se irá cair ou novamente mergulhar na loucura.

Uma das razões que fez de Cães Danados (1992), de Quentin Tarantino, um heist movie tão surpreendente é a grandiosa elipse que está ao centro desta história sobre lealdade e um assalto gorado. Em nenhum momento nos é mostrado o roubo dos diamantes, mas unicamente aquilo que se passa antes e depois: o recrutamento dos gatunos, a fuga para o armazém ou a dramática execução de Mister Orange. Tarantino explica porquê: «alguns realizadores gostam de mostrar tudo. Eles não querem que o público especule sobre o que quer que seja; está tudo lá. Eu não penso assim. Eu já vi tantos filmes que me dá um gozo enorme manipulá-los. Cerca de nove em cada dez filmes que vemos, dão logo a entender nos seus primeiros dez minutos que tipo de filme é que são e o público apercebe-se no seu subconsciente disso e começa a virar para a esquerda quando o filme ainda se está a preparar para virar à esquerda; eles prevêem aquilo que vai acontecer a seguir. E o que eu gosto de fazer é utilizar essa informação contra eles.»

O grande David Mamet sempre gostou de fazer filmes sobre filmes e em Manobras na Casa Branca (1997) escolheu falar sobre os produtores. Tradicionalmente, eles eram meros assalariados aos quais se atribuíam projectos, orçamentos, elencos e equipas técnicas, mas o moderno Dustin Hoffman destas Manobras é muito mais do que isso: uma mistura de empresário astuto, contabilista prudente, diplomata flexível e criador artístico visionário. Em suma, um filho da mãe esperto. No final, ele consegue salvar a candidatura do Presidente dos Estados Unidos, mas ainda não está satisfeito: «Acha que eu fiz isto tudo pelo dinheiro? Eu fiz isto pelo reconhecimento! […] Eu sou o produtor, se não fosse por mim não se teria conseguido nada. Eu é que fiz tudo e num tempo recorde. Veja isto. Isto é uma porra de uma fraude e parece 100 % verdade. É o meu melhor trabalho de sempre, porque é tão honesto. Pela primeira vez na minha vida, eu não vou ser intrujado. Eu quero o meu crédito!» Claro que Hoffman nunca chegará a obter o crédito e a cena seguinte conduz-nos de um salto às suas exéquias fúnebres. A morte do protagonista deverá ter sido tudo menos tranquila, mas, felizmente para nós, Mamet não quis sujar as mãos e a sua elipse final poupar-nos-á a esse espectáculo penoso.

5 comentários:

dermot disse...

Um texto formidável.

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Carola disse...

gostei muito do seu texto sobre elipses. foi de grande ajuda pra mim, pois ilustra muito bem o conceito do artefato cinematográfico.
obrigada!
=)

Anónimo disse...

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