2005-05-25

João de Deus


«Vieram os moscovitas, então denominados bavarois, as mousses, os parfaits, os soufflés frios, as bombas... Até que os americanos, com os seus sorvetes à base de nata, por vezes com adições de maizena e gelatina, inventaram o ice cream, actualmente popularizado por toda a parte. É imenso o império do ice cream.»

«Sabes que sou uma mulher de muitos caralhos. Tudo o que tenho saiu-me do pelo. Posso ter sido puta, mas doida é que nunca fui. Ó filho, queres papar um broche? Paga. É tanto. Sempre a facturar. Coração ao largo!»

«Pensa-se muito quando, para onde quer que nos viremos, encontramos sempre quatro intermináveis, monótonas paredes. Tem-te, não caias, digo de mim para mim. E se caires, nunca te esqueças que também se aprende a cair. A carne é fraca, mas o vento paira livremente sobre as águas.»

«Lavai-vos raparigas! Passai-vos todos os dias por água e sabão. Afugentai os factores patogénicos, vulgo micróbios. E Rosarinho, minha filha, ao servires um gelado, nunca te esqueças que também um dia serás mãe.»

«A humidade vinda do rio encharcava-me os ossos. Deixei de ouvir as badaladas da Sé. Acabou-se-me o tabaco, o que ainda assim foi o pior de tudo. A comichão já não me incomodava muito, a não ser nas costas das mãos. O ardor nos tomates só começou mais tarde, pela manhã, se não estou em erro. Rabiei durante não sei quanto tempo. Não se via vivalma, nem um ladrão de carros para dar dois dedos e cravar um cigarro. Por fim, lá topei uma padaria aberta. As carcaças cairam-me na fraqueza. Costume. Tenho um pacote de manteiga escondido no meu quarto. Aposto que a puta da velha não o encontra nem que vire tudo do avesso. Já não caio noutra.»

8 comentários:

jorge disse...

excelente colecção de excertos a lembrar um dos nossos mais autênticos cineastas/poetas!
um abraço.

Anónimo disse...

A condição humana numa das suas vertentes, aqui bem descrita ao mesmo tempo que é analisada...
Confesso a minha ignorancia.Não conhecia este João de Deus-o unico homonimo que conheço é o João de Deus da cartilha...
Assim vou aprendendo...
Valéria mendez

S0LO disse...

Gostei. Parece filosofia :)!

Cumprimentos cinéfilos

BlueShell disse...

Sim, gostei!

Um dia destes vou publicar uma rosa só para a tua mãe. Vou escolher a mais bonita que tenho andado a tirar, prometo.
Grata pelo teu sorriso :))
BEIJO IMENSO,
BShell

nils disse...

João César Monteiro era um dos mais geniais (um dos menos de meia dúzia)cineastas que Portugal conheceu...mas não reconheceu. Acerca do «Branca de Neve» e os subsídios lembro de o ouvir afirmar: 80 mil contos? Mais que isso custou a banda sonora... Lembro também do Paulo Branco ter dito que quando leu o guião ter falado numa espécie de Greenway pornográfico...
João César Monteiro era um Génio... Sabêmo-lo porque só com a morte terá tido descanso...Costuma acontecer com os génios...

BlueShell disse...

Flávio...leva a tua mãe eo Blueshell: tenho algo para ela!
Jinho, BShell

musqueteira disse...

Viva Flávio,
No dia da inauguração da minha exposição no Palácio da Ajuda, disse a uns amigos que finalmente entendi o motivo de César
-o Monteiro -, em fazer um filme sem imagens e cor!... ;)

Flávio disse...

Obrigado a todos pelos comentários. Sê re-bem-vinda a esta Casa, Musqueteira! Quanto a esse filme do nosso César Monteiro, houve alguém que sugeriu um novo filme, desta vez sem imagem e também sem som! E Querida Valéria, a sua intuição está totalmente correcta, como sempre: o César inspirou-se no João de Deus da Cartilha, que ele considerava um autor esquecido e injustiçado pelos portugueses.