2005-07-04

O Exorcista


O filme O Exorcista (1973), de William Friedkin, possui uma complexidade que o faz assemelhar-se a um enorme labirinto. Trata-se de uma obra atravessada por inúmeras relações e referências interiores: uma impressão ou um acontecimento correlacionam-se de um extremo ao outro do filme; cada figura só adquire sentido quando contraposta a todas as outras figuras; e cada plano só pode ser compreendido e iluminado pela totalidade do conjunto. Toda esta arquitectura complicada é animada por uma questão eterna, que é também um dos temas predilectos do cinema de terror: o conflito entre religião e ciência. As possessões pelo diabo sempre foram, aliás, uma dessas zonas fronteiriças em que ciência médica e religião se cruzam com desconfiança mútua e propõem soluções próprias.

A primeira parte do filme dá a palavra à medicina. A jovem protagonista Regan Teresa MacNeil, tomada por um mal desconhecido, é submetida pela sua mãe a uma longa via sacra de exames médicos: radiografias, um electroencefalograma e uma biopsia à coluna, ao que se segue uma análise psiquiátrica e um período de observação na Clínica Barringer, em Dayton. A estes exames, que mais parecem rituais de magia negra, o filme acrescentou o arrepiante arteriograma, que provocou na altura inúmeros enjoos e desmaios entre os espectadores. A ciência médica será, todavia, impotente para descortinar a origem do mal da protagonista.

A segunda parte é protagonizada pela religião. Os dois médicos de Regan são substituídos por dois exorcistas da Igreja Católica. Um desses sacerdotes, Damien Karras, é como que um cruzamento exótico dos domínios da religião e da medicina, pois é um padre que exerce simultaneamente as funções de conselheiro psiquiátrico. Karras cursou medicina em escolas tão respeitáveis como Harvard, Bellevue ou Johns Hopkins e, se não fosse padre, seria já «um famoso psiquiatra da Park Avenue». Mais: ele é um jesuíta. A Companhia de Jesus desempenhou um papel considerável no desenvolvimento científico e o peso da ciência nos seus colégios foi sempre mantido contra tudo e contra todos. Karras, como os seus colegas jesuítas, é um religioso que procura servir a ciência sem trair a sua fé.

As duas partes do filme são intervaladas por uma sequência memorável: a conferência dos médicos na Clínica Barringer. O director da clínica desdobra-se em pretextos e explicações inconsequentes, mas Chris MacNeil já não ouve nada, perdida que está no mundo do seu desespero. De súbito, o médico remete-se a um silêncio longo e agoirento. Segue-se a afirmação mais surpreendente de todo o filme: «Alguma vez ouviu falar em exorcismos?». A sugestão cai como uma bomba. Chris, que nunca foi uma mulher religiosa, está incrédula: «Estão a dizer-me que leve a minha filha a um feiticeiro?». Claro que o médico procura amenizar o insólito das suas palavras, ao dizer que é um tratamento de choque e que assenta puramente no poder de sugestão, mas não deixa de assinar a capitulação da ciência.

A admissibilidade dos exorcismos pressupõe que o diabo seja uma entidade concreta e actuante no mundo dos homens. Há, porém, uma teologia racionalista e reducionista que relega o demónio e o mundo dos espíritos para a condição de simples etiqueta que cobre tudo aquilo que ameaça o homem na sua subjectividade. Estas concepções foram condenadas pelo famoso discurso do Papa Paulo VI de 15 de Novembro de 1972, que fala de um «espírito sombrio e perturbador que realmente existe e actua com argúcia traiçoeira; ele é o inimigo secreto que semeia erros e desgraças na história humana».

Um vilão destes assenta como uma luva a um filme como O Exorcista. Teria sido possível que a protagonista estivesse a ser atormentada apenas pela alma de um defunto. Mas não. Regan diz claramente que é prisioneira do próprio diabo, o grande algoz da humanidade. Aliás, na iconografia cristã, o diabo é geralmente associado a um labirinto – figura central em todo o filme, desde as ruínas do Iraque até às ruas tortuosas de Washington – no qual os homens são aprisionados. Mas será possível a libertação de um antagonista como este, que se confunde com o próprio Mal? Talvez. O diabo não é invencível: ele na realidade tem medo, porque a vida é uma invenção divina e o homem o seu produto mais acabado.

A este imenso vilão opõe-se um herói fraco e hesitante. Karras, que aconselha profissionalmente padres com crises de vocação, é um sacerdote atormentado: o falecimento recente da mãe num asilo miserável deixou-o sem fé e dilacerado por um sentimento de culpa atroz. Todos os seus medos são representados simbolicamente na celebérrima sequência onírica: os motivos do relógio de pêndulo, dos cães do deserto ou da medalha de São José que servirá como uma espécie de fio de Ariadne ressurgirão ciclicamente ao longo de todo o filme. A sucessão de imagens, que mais parece saída de um daqueles antigos filmes surrealistas que Friedkin tanto aprecia, é inquietante e sugere que os destinos dos três protagonistas estão de algum modo ligados. Outra sequência admirável pelo seu poder de síntese é a da visita à Mãe Karras: a entrada do padre provoca grande agitação junto das doentes mentais (estarão também possessas?) e o comportamento da idosa acamada prenuncia os malefícios que mais tarde afligirão a pobre Regan.

17 comentários:

S0LO disse...

Um grande clássico :)!

Cumprimentos cinéfilos

nils disse...

Só para dizer que acho o director's cut inferior à primeira versão. Inferior porque melhor se veste o Diabo do subentendido do que do evidente. Nunca tinha pensado no labirinto, sendo ou não o Diabo, como parte do filme, mas acho que posso dizer que o tinha sentido...

Milan disse...

Totalmente em sintonia com a tua (sempre boa) crítica. Gostei também do Exorcista nr. 2, e o último é agradável para quem gosta de emoções fortes. Nenhum se compara com o primeiro ou tem o inedetismo deste, tarefa difícil de igualar nos dias que correm.

jorge disse...

excelente texto!
um abraço.

Anónimo disse...

Vi o filme trÊs vezes.
Aborda um assunto que estudei um pouco, chegando à conclusão de que, efeitos fantasticos à parte, tem um fundo de realidade.A Ciencia ainda não conseguiu explicar porque razão, por exemplo (Eu Conheço este caso!), uma criança que nunca foi à Grécia, nem nunca ouviu uma palavra de Grego, de repente, como que em transe, começa a falar em Grego. Alguém um dia gravou e mostrou a cassette a um professor desse iddioma-Era Grego perfeito!
Fantastico isto, não é?

(Aconteceu com a filha dum meu professor de faculdade)
Valeria Mendez

Turat Bartoli disse...

Tenho o director's cut, foi o que vi. Grande filme e a análise não fica nada atrás.

Cumps

Isabel Fernandes disse...

Apesar de ter passado na televisão, só vi o "Director's Cut" de "O Exorcista" no cinema. Sempre tinha ouvido falar do filme e queria saber por que motivo se tinha tornado um filme mítico dentro do género de filmes de terror. Confesso que não me assustou,não gostei muito, mas não o detestei e observei com curiosidade. Antes de mais, parabéns pela forma como fizeste a crítica, que como eu sempre digo, deve ser construtiva. Hoje em dia "O Exorcista" foi ridicularizado por filmes cómicos, adaptações e outros filmes do mesmo tema, porém na época em que foi exibido obteve sucesso. O filme toca num ponto importante na vida humana: religião - a crença em alguém ou algo que nos transcende, as interpretações feitas sobre esse tema através dos filmes ficam sempre na memória das pessoas. Almas que vagueiam, espíritos bons ou maus, bruxas, pessoas possuídas por demónios, vida para além da morte, há quem não acredite, mas há sempre aquela afirmação de um ilustre desconhecido espanhol: "Yo no credo en las bruxas pero qué las hay, hay" (perdão se tiver muitos erros). Quanto a pessoas possuídas por espíritos maus, muitos padres não acreditam, porém os que acreditam praticam ocultos o ritual de exorcismo, com muitos e muitos anos de existência, que formalmente tem de ser aprovado pelo Vaticano. O que nos transcende é será sempre uma coisa que cativa a nossa curiosidade e sede de conhecimento.

maria disse...

Já há muito tempo que vi esse filme. É um clássico e gostei de ler a crítica. O filme é sobre um tema que não aprecio embora goste de filmes de terror. Acredito que há muitos fenómenos que não são ainda explicados pela ciência mas espero que o venham a ser um dia, até lá a nossa imaginação pode expandir-se.

Stephen King disse...

Sendo o único filme que realmente me perturbou até hoje pela forma como mexe com aquele desconforto escondido que cada um tem, recordo igualmente a imagem que William Friedkin foi "roubar" ao fantástico "Império das Luzes" do Magritte, quando Merrin chega á casa e se detém debaixo do candeeiro de rua.
Aconselho igualmente a ler o romance de William Peter Blatty, um tour de force duro mas estranhamente terno e comovente.
Este filme é para mim um marco, e a mais intensa jornada que experimentei no plano do cinema de horror, mas que é muito mais que somente essa faceta.

Flávio, para quando a tua coluna na Premiére?
Vá, manda para lá o curriculo ou o endereço do blog :)

Abraço!

Flávio disse...

O Magritte, exactamente! Achei magnífica, é a cena mais emblemática de todo o filme: o mal envolto em luz e o bem nas trevas. Fantástico!

Anónimo disse...

That's a great story. Waiting for more. » » »

gayzinho disse...

carak to com medo

gayzinho disse...

a uma bricadeirinha e eu adoro o exorcista

Anónimo disse...

muitos parabens!!! vi este filme e achei espetacular!! deviam publicar mais u filme... adorei como tavam as cenas do filme e como fizeram as caras da menina!!! os meus comprimentos.. fatima

gabriele disse...

muito bom esse filme mas ta muito ruim,pois, tenho q fazer um trabalho sobre ele. So tenho 12 dias pra saber tudo sobre ele.......
QUE CHATO MEU!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!

Anónimo disse...

Eu particulamente gostei muito pois sou vidrada em filmes que retrata o sobrenatural,este filme é o classico pra mim até hoje,meus parabéns,pois pra mim ñ é apenas um filme mais sim fala que realmente existe o bem e o mau.Zinnha

Flavia Richard Heigel disse...

Clássico dos clássicos, um filme que nunca vai perder sua majestade.