2004-09-08

The Matrix

O século XXI é um tempo de mudança e de abertura crescente da humanidade aos valores espirituais. O século XX aprendeu muito sobre muitas coisas, mas perdeu o sentido da unidade: foi a época do separatismo, do materialismo desenfreado e do grande mito da razão. Agora, estamos a entrar na Idade de Aquarius, o carregador de água, cujos ideais afirmam que o Homem aprenderá a verdade e será capaz de pensar por si mesmo. A nossa querida Maria Flávia de Monsaraz fala a este respeito de uma verdadeira revolução, que é primeiro mental e depois espiritual, pois não basta revolucionar a mente, é preciso sentir com a alma a verdade da informação.

Esta revigorada apetência por tudo quanto seja espiritual já chegou ao cinema. Para comprová-lo, basta que refiramos os fulgurantes sucessos mundiais de filmes tão diversos como Matrix (1999), Pi (1998) ou O Sexto Sentido (1999). O caso de Matrix é particularmente expressivo, pois a grandiosa trilogia dos Irmãos Wachowski sobre um mundo tiranizado pelas máquinas é, em matéria de esoterismo e simbologia, um verdadeiro filão.

O gnosticismo foi seguramente uma fonte de inspiração generosa para os Wachowski. Aliás, a existência de uma nave chamada Gnosis em The Matrix Reloaded demonstra que esta referência é deliberada e plenamente consciente. O termo gnosticismo é utilizado para aludir a um sistema de crença bíblica dominante no século II a.C. Não se trata propriamente de uma corrente cristã, mas sim de um grupo de seitas contemporâneas do cristianismo, muitas das quais não faziam qualquer referência a Cristo. O que essas seitas tinham em comum era a crença de que existe um Deus verdadeiro e bom, mas que este mundo e a matéria que o compõe eram uma ilusão criada por um deus menor e maléfico, o Demiurgo – cujo papel é análogo ao do Arquitecto em The Matrix Reloaded.

Outro exemplo de referências esotéricas pode ser encontrado na figura das chaves. Para poder aceder ao coração da Matrix, Neo deve primeiro encontrar o Fazedor de Chaves. Na simbologia esotérica, as chaves representam a iniciação e, consequentemente, a habilidade que o iniciado possui para abrir e se deslocar por entre diferentes níveis da realidade. É por esse motivo que figuras como o São Pedro cristão ou o Jano da mitologia romana são representados como portadores de chaves. Entre os ciganos, acredita-se que sonhar com um molho de chaves é sinal de que várias oportunidades surgirão para o sonhador, que deve escolher com cuidado: de igual forma, Neo, ao encontrar o Arquitecto graças à ajuda do Fazedor de Chaves, é colocado diante da necessidade de escolher entre duas portas.

Para aceder a este Fazedor de Chaves, Neo terá todavia de defrontar o Merovíngio, um homem perigoso e com poder, que quer aquilo que todos os homens com poder querem: mais poder. Esta é uma das referências mais obscuras e enigmáticas, que fará seguramente as delícias de todos os apreciadores das teorias da conspiração. Os Merovíngios eram a família reinante num território que abrangia as regiões da moderna França e Alemanha, desde cerca de 447 até 750 d.C. A dinastia foi buscar o seu nome a Merovech (latinizado como Meroveus), o qual era um chefe tribal dos Francos, um de entre um grupo de tribos germânicas que penetrara no Império Romano e começara a estabelecer o seu domínio.

A publicação do controverso livro Holy Blood, Holy Grail, em 1982, veio suscitar um interesse acrescido em torno destes reis Merovíngios de França. Os seus Autores Michael Baigent, Richard Leigh e Henry Lincoln escrevem que quando a lenda diz que José de Arimateia fugiu de Jerusalém com o Santo Graal, o que se quer dizer é que levou consigo um segredo capaz de mudar a História do mundo: o de que Jesus era casado e teve um filho, do qual descenderia a dinastia dos Merovíngios. Crê-se que a história que surge na Bíblia sobre o casamento de Canaã, onde Jesus executa o milagre da transformação da água em vinho, pode na verdade ser um recontar distorcido do próprio casamento de Jesus. A isto, acresce o facto de que se esperaria que Jesus, sendo judeu na altura, se casasse.

Esta possibilidade da linhagem de Cristo até nem é nova, mas mais surpreendente ainda é a teoria de que foi Maria Madalena a mulher de Jesus e mãe do Seu filho. A hipótese colocada é que após a crucificação, Maria Madalena partiu para França com o filho de ambos e que dos casamentos com membros de tribos francas resultaram os Merovíngios, perpetuadores da uma linhagem de Cristo que continuaria ainda hoje. Não existe, porém, nenhuma prova directa nos textos actualmente conhecidos, nem nos Evangelhos que corrobore esta ideia. Até os Evangelhos encontrados em Nag Hammadi em 1945 são omissos quanto a provas deste facto, exceptuando uma referência em Filipe de uma possível consorte. Podemos, mesmo assim, tomar algumas conclusões como certas: a crença longamente mantida de que Maria Madalena era uma prostituta arrependida é falsa, sendo que ela representa muito mais o papel de um dos discípulos – o que, aliás, suscitou o desagrado dos Apóstolos masculinos, entre os quais Pedro; a relação de Jesus com Maria Madalena poderá ser muito mais próxima do que se pensou originalmente; ela esteve com Jesus em momentos cruciais, nomeadamente durante a sua morte, enterro e Ressurreição de Cristo.

4 comentários:

Anónimo disse...

Gostei do seu artigo. Quando iniciei a leitura, ocorreu-me imediatamente a descoberta de Nag-Hammadi, os textos gnósticos milenares que apelam para o elitismo intelectual como uma prática Religiosa a praticar. Por acaso, em tempos li uma obra que resumia de forma magnífica tanto o conteúdo dos achados como os contornos que envolveram a sua descoberta.
Na continuação da leitura, apreciei sobretudo os paralelos que estabeleceu entre O Matrix e o Gnocistismo, bem como o interesse dos cineastas referidos pelo tema. No final do artigo constatei que as minhas intuições se confirmavam... Cumprimentos
pauloleote@hotmail.com

Flávio disse...

Obrigado pelo comentário. Se se recordar do nome dessa obra que refere, agradecia-lhe imenso.

Clickbank Mall disse...
Este comentário foi removido por um gestor do blogue.
Anónimo disse...

Jesus e Maria Madalena tiveram uma filha (mulher) e não um filho homem...Por isto o resgate do sagrado feminino...A Terra á muito, fora dominada pela energia masculina e por isto tanto machismo...Sara era o nome da filha deles...A Qual passou a linhagem sagrada e originou os Merovíngios...Descubra a verdade e a Verdade vos libertará...