2004-04-22

Os Parasitas da Morte


Todas as culturas do mundo são confrontadas com problemas decorrentes dos limites éticos e jurídicos das intervenções médicas no corpo humano. Mesmo após a morte, sempre se encarou o corpo como um objecto de respeito e com a natureza especial de extensão da pessoa. Ao longo dos tempos e dos sistemas jurídicos, razões de ordem religiosa atribuíram ao cadáver uma característica de sacralidade, que ainda hoje se manifesta sob as mais diversas formas, desde os ritos funerários à sua incomercialidade. As concepções religiosas e éticas do cristianismo só vieram fortalecer esse respeito ancestral pelo cadáver. Por vezes, tais concepções chegaram até a constituir um entrave ao progresso da medicina, pela dificuldade em dispor de cadáveres para estudos anatómicos.

Felizmente, semelhantes escrúpulos nunca detiveram criadores artísticos como o cineasta David Cronenberg. O realizador canadiano sempre preferiu considerar o corpo humano como mero objecto de experimentação estética e científica. Nas palavras do próprio Cronenberg, «enquanto artista não me incumbem responsabilidades cívicas de qualquer ordem, pois a minha única responsabilidade é consentir-me a maior liberdade criativa possível», acrescentando que «os meus filmes abordam privilegiadamente o corpo humano e a sua existência como organismo vivo, diferentemente da generalidade dos filmes de terror e ficção científica, mais orientados para a tecnologia e para o sobrenatural e nessa medida mais abstraídos do corpo».

As controversas teses cronenberguianas irromperam no grande ecrã pela primeira vez, e de forma espectacular, com Shivers (em português, Os Parasitas da Morte). O filme é não apenas uma prodigiosa (e polémica!) obra-prima mas também o precursor do sub-género de terror venéreo. O pesadelo começa nos luxuosos apartamentos Starliner Towers, onde o médico Emil Hobbes desenvolve pesquisas no sentido da criação de um parasita com fins terapêuticos. A investigação conduz todavia a resultados trágicos quando os parasitas induzem comportamentos homicidas e de violência sexual extrema por parte dos hospedeiros respectivos. Em poucas horas, acabarão por infectar os habitantes do complexo residencial e, a breve trecho, toda a população mundial. David Cronenberg explica o seu filme como uma exaltação da sexualidade embora do ponto de vista de uma doença venérea: «um vírus está apenas a fazer o seu trabalho e a tentar viver a sua vida. Considerá-lo da sua própria perspectiva é perfeitamente razoável. Muitas doenças ficariam chocadas se soubessem que eram tidas como doenças. É uma conotação extremamente negativa. Para elas, é algo de muito positivo quando dominam e destroem o nosso corpo».

4 comentários:

Anónimo disse...

Olá, eu sou Maiara e eu adoro cinema e Steven Spielberg... bom, li aqui no seu blog, que você mandou uma carta á Spielberg!!
Eu estou á dias tentando um modo confiante de mandar uma carta pra ele mas, não sei como. Por isso, peço a sua ajuda!
Me diz, por favor, como foi que você conseguiu enviar sua carta!!
Meu e-mail é: mamahLokety@gmail.com/ mamah_Lokety@hotmail.com
Eu sei que é meio tosto esse e-mail, mas, fazer o quê??hehehe
Muito obrigado pela atenção!!

corpo humano disse...

fascinante...

Anónimo disse...

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Anónimo disse...

Keep up the good work » » »