2007-07-13

eXistenZ


eXistenZ (1999) é o filme mais incompreendido de David Cronenberg. Muita gente acha o filme desinteressante e até alguns fãs do realizador canadiano falam de uma imitação servil das suas melhores obras, em especial o fabuloso Videodrome. Porém, as críticas são tremendamente injustas. Não só porque qualquer autor tem sempre o seu conjunto de temas e motivos predilectos aos quais regressa ciclicamente, mas também porque o filme traz grandes novidades à linguagem cinematográfica de David Cronenberg: em eXistenZ, a câmara perde a sua tradicional fluidez e a montagem predomina sobre a mise en scène. O próprio Cronenberg reconheceu a importância da montagem: «And there’s a lot more cutting, editing, in eXistenZ, than there is camera movement. It wasn’t an intellectual thing, it was just visceral. It felt to me that I needed to move around, but I didn’t want to do big, swooping camera moves.»

O brilhantismo da montagem de eXistenZ começa ao nível dos enquadramentos das cenas. A melhor montagem é a que passa imperceptível aos olhos do espectador e o montador David Cronenberg efectua sempre os cortes no tempo e no lugar que asseguram o máximo de fluidez e elegância da sua narrativa. Um bom exemplo é o momento da entrada dos protagonistas no jogo. Qualquer outro montador teria recorrido a sinais óbvios que nos avisassem que estávamos acedendo a um ambiente virtual, mas Cronenberg evita esses floreios ou feitos acrobáticos e prefere as soluções mas subtis e eficazes. Isto dá à sua montagem uma qualidade que poderíamos designar de musical, porque o momento de um corte é escolhido como o da entrada de um instrumento numa peça musical.

Ao nível da montagem de sequências, Cronenberg também é original. A arquitectura do filme é arrojada e complexa: uma sucessão fulgurante de níveis diegéticos, de narrativas dentro de narrativas, de jogos dentro dos jogos. Já tínhamos visto algo de semelhante nas famosas Mil e uma noites, um texto literário com o qual o filme tem grandes afinidades. Porém, há uma diferença fundamental: não encontramos qualquer narrativa enquadrante em eXistenZ. Se no texto tradicional das Mil e uma noites a história de Xerazade e Xahriar é apresentada como a realidade dentro da ficção, um ancoradouro a que podemos recorrer com alguma segurança, já no filme de Cronenberg nunca sabemos até onde chega o universo de bonecas russas e qual delas é a última. O filme termina na maior das ambiguidades e a questão «Ainda estamos dentro do jogo?» fica sem resposta. Tudo é difuso e incerto, como num sonho.

7 comentários:

Valeria Mendez disse...

não vi...mas este seu artigo abriu-me o apetite...vamos lá a ver se consigo.

o freak inofensivo disse...

Are we in the game?

Nuno Pires disse...

eXistenZ é a arte de Cronenberg ao seu máximo. Um dos meus filmes preferidos! Só mesmo a perfeição de Spider o consegue igualar.

Valéria Mendez disse...

Acabei de ver num blog cujo nome agora me escapa,a sua referencia ao meu blog.Obrigada!
Quando puder passe lá pelo meu cantinho e ouça umas musiquinhas escolhidas por mim!

Flávio disse...

«eXistenZ é a arte de Cronenberg ao seu máximo. Um dos meus filmes preferidos! Só mesmo a perfeição de Spider o consegue igualar.»

Assino por baixo amigo Nuno, nunca percebi o ódio contra o filme. Quanto ao arrojado 'Spider', comecei por não gostar mas hoje já me reconciliei com o filme.

Wellington Almeida disse...

Um dos dez mais dos anos 90!

Arrebenta disse...

Também gostei do filme. Achei lastimoso, todavia, ter uma tarada do género, a destruir-me o blogue. Enfim... :-\