2006-07-08

Gato Fedorento


Quando se escrever a história do surrealismo em Portugal, os nomes mais importantes serão Mário Cesariny, João César Monteiro e… os Gatos Fedorentos. A arte do fabuloso quarteto de humoristas assenta na chamada justaposição, que é um procedimento caracteristicamente surrealista. A justaposição consiste na junção de dois objectos incompatíveis sobre uma superfície que lhes é estranha: Max Ernst descreveu «o encontro casual de uma máquina de costura e um guarda-chuva numa mesa de operações» de Lautréamont como um exemplo clássico.

Esta apetência pelas «rencontres fortuites d’objets» corresponde a uma tentativa de compor as imagens segundo a lógica de funcionamento dos sonhos. Nestes, as leis da física não impõem quaisquer limitações à movimentação dos corpos e todas as combinações são possíveis. Por isso, as imagens surrealistas são tão bizarras e sedutoras: o procedimento da justaposição permite que o artista represente os níveis profundos do inconsciente e que, ao mesmo tempo, exclua o mais possível o pensamento racional.

Os programas dos Gatos Fedorentos são férteis nestas imagens. Recordemos os super-heróis que disputam partidas de ténis, as irmãs carmelitas armadas com metralhadoras ou o Napoleão Bonaparte que se debate com problemas de utilização de um computador pessoal. Todos estes números funcionam lindamente, porque aplicam com eficácia o princípio da justaposição. Mas talvez o número mais surrealista da carreira dos Gatos seja o do célebre Senhor Vítor. A discussão, já de si absurda, entre funcionários públicos e o utente protagonista é interrompida pela intromissão de uma bola de ténis gigante: um magnífico e redondo deus ex machina que pouco ou nada fica a dever ao enorme ovo engaiolado de René Magritte.

As justaposições surpreendentes não se limitaram às imagens, pois o surrealismo começou por ser um fenómeno literário. Para os seus poetas, a escrita automática, os textos colectivos, as collages e os «cadavres exquis» revelavam uma actividade inconsciente escondida por séculos de racionalismo. As palavras perdem a sua função utilitária e trivial de comunicação e passam a ser «des tremplins à l’esprit». Um exemplo expressivo retirado dos espectáculos dos Gatos Fedorentos é o já referido Senhor Vítor, fórmula como, por razões práticas, o utente do serviço público se refere a todos e quaisquer interlocutores: o nome converte-se então numa realidade puramente poética e desliga-se por completo do mundo referencial.

5 comentários:

Mário Lopes disse...

De facto também já me tinha ocorrido isso quando estava a ver um episódios dos "Gato Fedorento" (e vi-os todos :P). Gostei de ler e concordo contigo.

Cumprimentos

Flávio disse...

Eu infelizmente não vi os episódios todos, mas sou um fã daqueles quatro malucos. O Raúl Solando tem toda a razão quando diz que eles são «o futuro do humor em Portugal» (sic): mesmo quando se armam em parvos, conseguem sempre ser geniais.

Flávio disse...

É curioso que no texto 'Como escrever um texto humorístico', os gatos não disseram uma palavra sobre este assunto que abordei no post. Mas a justaposição é, sem dúvida, a coluna vertebral de todo o humor deles.

dermot disse...

Excelente texto, Flávio. Sem dúvida que o humor em Portugal passa pelos Gatos Fedorentos. E já agora, gosto sempre de relembrar o Raul Solnado, que poderia muito bem ser o pais deste humor por justaposição em Portugal.

Mas continuo a achar que existe uma grande dose de pós-modernidade no cinema do João César Monteiro.

Flávio disse...

Por falar em Raul Solnado, o senhor descreveu em tempos os Gatos Fedorentos como «o futuro do humor em Portugal» (sic). Um elogio fantástico e 100% merecido.