2006-06-12

Leni Riefenstahl


Leni Riefenstahl foi uma personalidade envolta em polémica. A cineasta alemã ficou tristemente célebre pelo seu apoio ao regime de Hitler e, em particular, pela realização de filmes de propaganda nazi como O Triunfo da Vontade (1934). Após a Segunda Grande Guerra, Leni foi julgada por um tribunal, que a considerou uma simpatizante do fascismo: os juízes utilizaram então uma escala de 1 (criminosos de guerra) a 5 (inocentes) e ela ficou-se por um 4. Mais recentemente, a senhora voltou a ser julgada por ter negado a existência do Holocausto. A Alemanha não lhe perdoou as opções ideológicas, mas Leni sempre defendeu O Triunfo da Vontade com unhas e dentes e alegou que o filme nada tem a ver com o nazismo.

Eis o que disse a Riefenstahl: «O filme não abordava a política, mas apenas um acontecimento público. Eu teria feito o mesmo filme em Moscovo, se fosse necessário, ou na América, se algo de semelhante aí tivesse ocorrido. Limitei-me a abordar um assunto da melhor maneira que pude e a transformá-lo num filme. Se era sobre política ou legumes ou fruta, era-me totalmente indiferente.» À primeira vista, Leni parece ter razão. O cinema é uma arte objectiva, porque mostra a realidade tal como ela é, sem adornos nem juízos de valor. É por isso que os filmes e as fotografias, ao contrário das imagens feitas à mão, podem servir como meio de prova nos tribunais.

Mas o cinema não é totalmente objectivo. Por detrás da câmara de filmar, há sempre um realizador que manipula as imagens e lhes dá um sentido. E o filme da Riefenstahl reflecte bem as convicções políticas da autora, até pelas suas omissões: nada é dito sobre os pogroms, os guetos, os campos de concentração e outras realidades incómodas para o regime. Em seu lugar, o que vemos são imagens que, como é característico de todo o cinema nazi, seduzem e galvanizam os espectadores: as bandeiras, as multidões, as suásticas, os uniformes… tudo surge revestido de um brilho quase mágico neste Triunfo da Vontade. É verdade que o filme nunca apela expressamente ao anti-semitismo e à violência, mas toda a sua mise en scène glorifica um regime político que foi violentamente anti-semita.

Há ainda uma segunda objecção, que decorre da natureza da montagem cinematográfica. A pós-produção é a fase derradeira da feitura de um filme e a forma como as imagens são cortadas e dispostas não é inocente, pois determina o sentido do que se vê. Veja-se como, no Triunfo da Vontade, a realizadora intercala os discursos do Führer com os planos dos rostos fascinados dos alemães. Obviamente, a Riefenstahl conhecia bem o poder da montagem e até falou longamente sobre isso: «Aquando da montagem, descobri uma mensagem contida no filme: a criação de empregos e a paz. Outros motivos políticos ou objectivos não são mencionados. Não há nada sobre anti-semitismo, nem sobre a teoria da raça. Emprego e paz são as mensagens do Triunfo da Vontade.» Não me parece.

11 comentários:

dermot disse...

Desconhecia esta curiosa história. E vale a pena ver o filme, Flávio?

PS) finalmente vai estrear Maria Madalena cá pelo burgo :) é só mais umas semanas

Flávio disse...

Essa é a grande questão: o que fazer hoje com o filme da Leni Riefenstahl? O Triunfo da Vontade é ainda um filme tabu na Alemanha e os alemães nem querem ouvir falar nele. Já os americanos são menos radicais: ainda recentemente, vimos a Riefenstahl na companhia do Mick Jagger e do Andy Warhol, fãs confessos da obra dela. Pessoalmente, não acho que se deva proibir o filme, mas é preciso vê-lo com juizinho.

dermot disse...

Fiquei com vontade de o ver

jorge disse...

é um excelente filme, a não perder.

( o andy warhol recentemente? ;-) )

jorge disse...

ps - um abraço !

Flávio disse...

Exacto, o 'recentemente' não está bem usado, já foi há uns bons anos.

zazie disse...

tinha grandiloquência e foleirice até dizer chega...

Carlos Goulart disse...

Penso que se não fosse pessoas com visão e uma camera na mão como a ccineasta da época do nazismo.... nos só teriamos conhecimento dos fatos de acordo e conforme as idéis dos que ganharam a guerra.... Ela era apenas a pessoa que registrava a Historia . Documentario filmado não é arte puro e simples, é um legado e verdadeiro registro do que era real.... como dizia um certo escritor....Não vamos comemorar a nossa vitoria, e nem nos vangloriar sobre a derrota deles... Pois a cadela que os pariu, esta no cío novamente....
e que sempre existam lennys da vida com uma camera na mão... para que a historia não seja manipulada...
Ass Carlos Goulart

Sousa Pereira disse...

registar a História é uma coisa, encenar a História é outra história.

phayzka disse...

Eu sou Telecinista e tenho este filme."Triunph des Wilens" ou "triunfo da Vontade" e penso que os que condenam este filme são os mesmos que queriam manipular a historia aseu modo... O filme registra com fidelidade..um momento marcante na historia da humanidade.. e todos deveriam assistir para que outros hitler nã se levantasem mais...eu vendo a cópia ( não é pirataria pois não existem registro de patente do mesmo, sendo de dominio publico) quem quizer pode encomendar...prodvdgoulart@hotmail.com...

Anónimo disse...

O documentário tem cópia em DVD e pode ser comprado por qualquer um nas lojas. O documentário é horrível, uma apologia descritiva do nazismo e,no fundo, só tem interesse histórico, isto é, interesse em ver como funcionava a propaganda nazista no cinema. Dos 1355 filmes nazistas, este não é o pior, pois tem o Eterno Judeu, que afirma que os judeus são sujos e aparecem moscas na tela, O Jovem Hitlerista Quex e mais um monte de filmes horrorosos, racistas, xenofobos, machistas. A qualidade formal é limitada e o conteúdo é não somente conservador e preconceituoso, como simplista, beirando ao ridículo.