2005-09-15

Veio do Outro Mundo


Há tempos, o cineasta Stephen Frears veio a Lisboa e proferiu uma conferência memorável sobre a sua arte. Quando um membro do público lhe perguntou qual era o segredo da realização cinematográfica, Frears respondeu que não havia segredo nenhum ou, se houvesse, seria apenas isto: saber contar com clareza uma história. Parece simples, mas a simplicidade em cinema é, na verdade, muito complicada. Contar uma história em imagens cinematográficas exige pessoas, dinheiro e tecnologia e cabe ao realizador juntar eficazmente todos esses elementos. Além de Frears, um dos realizadores que mais se notabilizou pelo talento narrativo é o Mestre John Carpenter. O filme Veio do Outro Mundo (1982) é um exemplo magnífico da transparência do seu cinema: não há um único momento no filme que seja inútil, redundante ou aborrecido e tudo existe em função de uma excelente história de Don Stuart.

Carpenter investe todo o primeiro terço de Veio do Outro Mundo na descrição do antagonista e é importante que o tenha feito. Tal como um homem se define pelos inimigos que tem, também o protagonista de um filme necessita de bons oponentes, pois não há heroísmo nenhum em suplantar pequenas adversidades. John Carpenter sempre gostou de levar os seus heróis ao limite das suas forças e neste filme concebeu um dos vilões mais poderosos e fascinantes de sempre: um organismo extraterrestre sem morfologia própria, que percorre o espaço e o tempo na busca de seres vivos, incluindo humanos, que assimila e imita na perfeição.

Mas um inimigo poderoso como este não valeria muito, se a solução estivesse disponível ao virar da esquina ou à distância de um telefonema. Os doze protagonistas estão irremediavelmente isolados do mundo exterior e o realizador, como um professor minucioso e paciente, explica-o repetidas vezes. A sequência de abertura é muito instrutiva: um cão é misteriosamente perseguido na neve e os planos gerais das montanhas da Antárctica, entremeados com imagens do quotidiano da estação norte-americana, localizam os nossos heróis no meio desta imensidão desértica e gelada. A tempestade de neve, a destruição do rádio e a inutilização do helicóptero vão agudizar ainda mais esse sentimento de solidão e abandono.

Tudo isto prepara o espectador para um dos momentos mais emocionantes de todo o filme: o teste sanguíneo aos habitantes da estação. A sequência é memorável, porque junta dois ingredientes fundamentais do cinema de terror: a surpresa e o suspense. Hitchcock distinguiu-os na sua célebre entrevista a François Truffaut e ilustrou as suas considerações com o exemplo hipotético de uma bomba oculta debaixo de uma mesa, tendo concluído que o suspense implica o fornecimento ao espectador de informações suplementares que as personagens não possuem. Isto leva-nos de volta à sequência do teste do sangue. À medida que as diversas amostras vão sendo queimadas, a expectativa cresce até ao insustentável, pois sabemos que um dos ocupantes é um impostor: isto é suspense. A surpresa surge quando a criatura é desmascarada e irrompe num frenesim de violência.

Claro que a necessidade de clareza não implica que um filme seja minuciosamente explicado até ao último fotograma e poderão existir zonas menos iluminadas de ambiguidade e incerteza, se for essa a intenção do realizador. O extraordinário desfecho de Veio do Outro Mundo, por exemplo, é tudo menos esclarecedor. Chegou a ser filmado um final optimista, mas o realizador, benza-o Deus, preferiu a solução mais controversa: os dois protagonistas são abandonados no meio da tempestade de neve e nada nos garante que não tenham sido contaminados ou que venham a ser socorridos.

9 comentários:

inquietude disse...

Pois... às vezes as pessoas esquecem-se de quantas coisas são necessárias à realização de um filme. Um filme pode ter bons actores e um bom realizador, mas se não tiver também: um bom argumento, boa montagem e bons planos, "pormenores" como uma iluminação adequadas às cenas, um bom director de fotografia, quando tem efeitos especiais também um bom responsável por isso, não é um bom filme se faltar alguma destas coisas. É como uma receita, se queremos ter um bom resultado temos de misturar os vários ingredientes.
Cumprimentos, Isabel

dermot disse...

Claro como sempre.
A única coisa que posso acrescentar é que continuo a lamentar profundamente não ter tido oportunidade para ver Stephen Frears.

Afonso Henriques disse...

The Thing é um dos melhores filmes de Carpenter. Teria sido muito mais honesto, simples e óbvio traduzi-lo por "A Coisa", em vez do rebuscado título "Veio do outro mundo", nome pelo qual foi comercializado cá pelo reino.
Bom, mas pelo menos ainda não temos por cá a praga das dobragens.
Cumprimentos

Turat Bartoli disse...

Long live mas é Big Trouble in Little China!!!- melhor filme de sempre? Ganda Carpenter!

Cumprimentos

Anónimo disse...

Mais um artigo digno duma PREMIERE!
aBRAÇO
Valeria Mendez

Milan disse...

Vi esse filme no Centro Comercial de Almada, aos 12 anos. Como é óbvio, não me queriam deixar entrar (e ao resto da turma, tudo nos 12, 13 anos... afinal o filme era para maiores de 18). Já lá vão duas décadas, mas ainda me lembro das noites de terror, dos pesadelos... Nenhum filme me assustou tanto :))) Naturalmente, devo ter sido dos primeiros compradores do DVD, região 1, na Amazon, aí em 1998... Não descansei enquanto não chegou!

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