dopo le mie trasgressioni
dopo tutte queste emozioni
nessuno mi puo fermare
non mi potete arrestare
selvaggio animale in calore
il cazzo che mi spruzza nel cuore
un muscolo rosso d'amoreee
affonda lungo al mio cuore
tuuuu che sembri un manichino
tira fuori il cazzo duro
ti faccio un pompino
io ti faccio un pompino oh oh
[tutti, in coro]
voglio il cazzo
vestito di pelle
il cazzo... piu duro del muro
il cazzo nel buco del culo
il cazzo che mi sfonderà (ah) Insieme a me schizzerà
voglio il cazzo
vestito di pelle
il cazzo... più duro del muro
il cazzo... Nel buco del culo
il cazzo che mi sfonderà (ah) insieme a me schizzerà
in mio potere sarà
selvaggio animale in calore
il cazzo che mi spruzza nel cuore
un muscolo rosso d'amore
affonda lungo al mio cuore
tu che sembri un manichino
tira fuori il cazzo duro ti faccio un pompino
io ti faccio un pompino oh oh
[e via di ritornello...]
voglio il cazzo
vestito di pelle
il cazzo... piu duro del muro
il cazzo nel buco del culo
il cazzo che mi sfonderà (ah) Insieme a me schizzerà
voglio il cazzo
vestito di pelle
il cazzo... più duro del muro
il cazzo... Nel buco del culo
il cazzo che mi sfonderà (ah) insieme a me schizzerà
in mio potere sarà
2008-02-13
2008-02-10
2008-02-04
2046

2046 foi um enorme sucesso de público e crítica. Todas as pessoas que apreciam cinema encontram excelentes razões para gostar do filme de Wong Kar Wai: a magnífica direcção de fotografia, a banda sonora de uma beleza assombrosa ou ainda as interpretações inesquecíveis de um elenco perfeito. Todos estes elementos surgem impecavelmente orquestrados pelo realizador mais brilhante e sensível de sempre. Mas há um grupo que terá uma relação particularmente intensa com 2046: os escritores. Essa gente tem razões acrescidas para gostar do filme, não só pela sua linguagem marcadamente literária (as analepses, os fragmentos), mas também pelo tema e protagonista.
O herói de 2046 é um escritor e, como todos os escritores, é uma pessoa complexa. As suas acções parecem estranhas, paradoxais e, por vezes, falhas de carácter. Chow é um sedutor nato que parece querer levar as suas mulheres ao pico da felicidade a dois, apenas para que elas depois possam sofrer uma queda ainda maior. «Talvez eu não seja um tipo assim tão decente», afirma o próprio Chow em jeito de confissão. Isto deixa à vista o carácter autobiográfico do seu texto sobre o misterioso comboio que parte para 2046, onde os homens e mulheres que buscam o amor querem resgatar as suas memórias perdidas; porém, a verdadeira natureza desse lugar permanece desconhecida, porque até à data ninguém regressou de 2046.
A solução para o mistério de 2046 poderá estar numa famosa obra de um outro escritor, Stendhal, intitulada Do Amor. O essencial deste formoso livro sobre o amor-paixão pode ser resumido em três grandes divisas. Primeiro, o amor é fundamentalmente um fenómeno da imaginação. O enamoramento implica uma projecção da perfeição naquilo que amamos e, nessa medida, é uma espécie de auto-ilusão deliberada. Segundo, os melhores momentos do amor são os seus momentos iniciais. Nas incertezas e inquietações da fase de sedução estão as delícias do amor; quando chega o seu desenlace, o melhor já passou e tudo o que nos espera é a comodidade, a rotina e o marasmo. Terceiro, o amor-paixão conduz a um certo ascetismo, porque «paralisa todos os prazeres e torna insípidas todas as restantes ocupações da vida».
Encontramos reminiscências desta concepção austera do amor no final do filme Casablanca. Sabemos que Rick quisera anteriormente viver o seu amor com Ilsa, quando estava com ela em Paris e a pedira em casamento. Depois, em Casablanca, vivem um segundo e inesperado pico da sua paixão amorosa. O que Rick propõe no final (e Ilsa aceita tacitamente) é que ambos evitem a tentação da comodidade na vida amorosa, para que possam preservar como um tesouro a memória dos momentos que partilharam. «We’ll always have Paris.» Esse Paris é tão único e irrepetível como o quarto de hotel de In the Mood for Love e 2046. O protagonista sabe-o bem e é isso que explica o seu comportamento errático. Quando Chow opta por ficar só, não o faz por capricho ou egoísmo mas sim por lucidez.
2008-02-03
2008-02-02
Países terríveis: China (v)
O trabalhador chinês que só vê a família uma vez por ano e ganha quatro dólares por dia, mas diz que o patrão é muito bom porque não lhe dá porrada.
2008-01-15
2008-01-12
Jordan McKenzie
A última loucura de Jordan McKenzie: 55 imagens feitas com esperma do próprio artista, em exibição no Centre for Recent Drawing em Highbury, Londres. Nas palavras do próprio McKenzie, a sua obra é «an acknowledgement of human futility in the face of time as well as a violent record of male sexual drive - a poignant and elegiac witness to human fragility and impermanence.»
2007-12-29
2007-12-15
2007-11-30
Países terríveis: Portugal (iv)
Não há nada mais português que a cunha. A cunha consiste na recomendação de uma pessoa influente e está profundamente entranhada nas mentalidades e nos hábitos dos portugueses. No nosso país, não é possível fazer o que quer que seja sem ela. Não se consegue arranjar um emprego decente, ganhar um concurso público ou obter colocação na faculdade de medicina sem meter uma cunha; o mérito individual conta pouco ou quase nada. Isto demonstra que o pensamento moral predominante entre nós é o da parcialidade. A generalidade dos portugueses supõe que a moralidade começa com os deveres com amigos, familiares e colegas e mais do que isso não é necessário. Porém, um raciocínio moral destes é insuficiente. Para realmente sermos pessoas decentes, devemos procurar ser imparciais, porque o bem-estar de cada pessoa é igualmente importante e todos são igualmente dignos de respeito.
A mentalidade dos nossos empresários é um caso flagrante de parcialidade. Ao contrário do que ocorre na maioria das economias de mercado do mundo, nas grandes empresas portuguesas é o princípio da cunha que rege a gestão e transmissão de poder. Enquanto que normalmente as direcções e os dirigentes dos grandes grupos internacionais são escolhidos segundo o mérito dos candidatos, em Portugal o que conta quase sempre é a sua origem e o seu apelido. A continuidade das empresas familiares é um objectivo abertamente assumido pelas famílias abastadas, que constituem as elites económicas, sociais e por vezes também políticas de Lisboa e Porto. Partilham interesses, ideais e modos de comportamento. E formam uma rede estreita de interesses, que dificulta o acesso do exterior.
A mentalidade dos nossos empresários é um caso flagrante de parcialidade. Ao contrário do que ocorre na maioria das economias de mercado do mundo, nas grandes empresas portuguesas é o princípio da cunha que rege a gestão e transmissão de poder. Enquanto que normalmente as direcções e os dirigentes dos grandes grupos internacionais são escolhidos segundo o mérito dos candidatos, em Portugal o que conta quase sempre é a sua origem e o seu apelido. A continuidade das empresas familiares é um objectivo abertamente assumido pelas famílias abastadas, que constituem as elites económicas, sociais e por vezes também políticas de Lisboa e Porto. Partilham interesses, ideais e modos de comportamento. E formam uma rede estreita de interesses, que dificulta o acesso do exterior.
2007-11-26
Homens
Os homens quando se juntam
Para tomar um copo de vinho
Começam no Santo António
E acabam no São Martinho.
Para tomar um copo de vinho
Começam no Santo António
E acabam no São Martinho.
2007-11-25
Vasco Pulido Valente (ii)
O Vasco Pulido Valente volta a aborrecer as pessoas com as suas críticas literárias, mas desta vez tem a honestidade de dizer que o verdadeiro objecto do seu artigo não é o livro Rio das Flores, mas o seu autor, Miguel Sousa Tavares. (in PÚBLICO, 24.11.2007)
2007-11-24
2007-11-20
2007-11-12
2007-11-10
The Last Supper
The world's greatest masterpiece under the microscope: Leonardo da Vinci's The Last Supper.
2007-11-08
Hot Fuzz

Hot Fuzz (2007) foi uma aposta arriscada. Ainda que o novo filme da dupla Simon Pegg e Edgar Wright não fosse uma sequela de Shaun of the dead, as comparações entre as duas obras eram inevitáveis. Não é fácil suceder a um filme que foi descrito por muita gente como o melhor filme de zombies depois da trilogia de George Romero. Se Pegg e Wright quisessem reconquistar o seu público, não lhes bastaria ser muito bons, teriam de ser ainda melhores do que já tinham conseguido antes. Felizmente, Hot Fuzz não desiludiu os fãs, bem pelo contrário. O filme é excelente e chega mesmo a suplantar o seu predecessor.
Ambos os filmes deixam o espectador perplexo. São duas obras que juntam géneros, formas e referências das proveniências mais estranhas: Shaun of the dead é descrito pelo próprio Edgar Wright como a primeira zom com rom ou comédia romântica de zombies, enquanto que Hot Fuzz hesita entre a acção, a comédia, o terror e a telenovela. Porém, o segundo filme é melhor, maior e mais ambicioso. Se o primeiro poderá ser uma mistura demasiado exótica e extravagante para o gosto de alguns, já Hot Fuzz é um filme superior pela musicalidade do seu conjunto, mais regrado e equilibrado. E essa sua superioridade começa na própria fonte: os filmes de acção.
Os filmes de acção ocupam um lugar único na história recente do cinema. Os géneros cinematográficos têm evoluído no sentido de uma especialização cada vez maior, mas o cinema de acção tem seguido o caminho inverso e atraído para o seu interior as formas mais diversas. É sobretudo a partir dos finais dos anos 80 que realizadores como James Cameron e John McTiernan dão início a este movimento expansionista: Aliens é protagonizado por uma mulher comum; em Predator, o inimigo já não é um governo estrangeiro mas uma criatura de outro planeta; e em Die Hard, a psicologia das personagens é mais importante que o espectáculo pirotécnico.
A etapa mais recente deste fulgurante processo evolutivo é Hot Fuzz, que leva ainda mais longe a versatilidade natural do cinema de acção. O filme aposta em inúmeras frentes e ganha em todas. Os espectadores mais atentos tirarão grande prazer na descoberta das inúmeras citações, evocações e paródias. Mas ainda que a riqueza de referências impeça uma categorização fácil, Hot Fuzz não deixa de ser, assumidamente e sem complexos, um verdadeiro filme de acção. O núcleo duro do género está lá, cuidadosamente preservado: as sequências de acção espectaculares, emocionantes e admiravelmente coreografadas. A sua violência estilizada pouco ou nada fica a dever, em engenho e divertimento, às maiores produções americanas.
2007-11-05
Clive Barker
2007-10-30
Fados
Meine Lieblingsstücke vom Mosaik Carlos Sauras: Caetano Veloso, Ricardo Ribeiro und die Nonchalance von Argentina Santos.
As minhas peças preferidas do mosaico de Carlos Saura: Caetano Veloso, Ricardo Ribeiro e a nonchalance de Argentina Santos.
As minhas peças preferidas do mosaico de Carlos Saura: Caetano Veloso, Ricardo Ribeiro e a nonchalance de Argentina Santos.
2007-10-29
Herman José & Cicciolina
«LOUCURA!
Cicciolina pôs Lisboa em alvoroço. Mostrou tudo – e ainda se deu ao luxo de entrevistar Herman José, em rigoroso exclusivo para o Tal & Qual
CHEGOU, MOSTROU, VENCEU!
Cicciolina não conseguiu resistir à tentação: apanhando Herman José ao jantar, na passada quarta-feira (e sabedora da sua fama de homem sem papas na língua), apressou-se a 'assaltar' o popular cómico com uma catadupa de perguntas indiscretas. O repórter do Tal & Qual estava mesmo ao lado – e registou o impagável diálogo, em rigoroso exclusivo…
Cicciolina – Alguma vez pensou em seguir uma carreira política, como eu? Por que foi que não o fez?
Herman – De brincadeira, já pensei. Mas meter-me nisso por brincadeira já nem seria original. É claro que a última grande ambição de quem intervém na vida pública, como um actor faz, acaba por ter um certo fundo político. Mas não tenho jeito para essas coisas. Nem sequer alguma vez fui membro de um partido político! Não, não: sou muito volúvel. Odeio associações de qualquer espécie…
Cicciolina – Imagine que era italiano. Teria votado em mim, nas últimas eleições?
Herman – Sim, senhora. Primeiro, para irritar a massa grande e cinzenta que odeia este tipo de coisas que escapam ao seu conservadorismo. Depois, porque penso que não teria coragem para deixar de apoiar uma cara tão bonita e uma figura de pulso tão frágil…
Cicciolina – Quem é que acha que é hoje mais popular em Portugal: você ou eu?
Herman – Você. Ah, mas eu sou muito mais sexy…
Cicciolina – Já viu algum show erótico ao vivo? Não ficou sexualmente excitado?
Herman – Ao vivo, nunca: só em videocassette. Mas devo confessar que, nas alturas próprias, dá muito resultado!
Cicciolina – Que alturas?
Herman – Quando apetece induzir um ambiente de lascividade e pecado… Devo mesmo declarar que uma boa cassetezinha ajuda sempre, como quem não quer a coisa.
Cicciolina – Se eu o convidasse para ir a Roma fazer um espectáculo erótico, em que mostrasse todo o seu corpo – ia?
Herman – Não, não ia. Estou muito gordo, sabe. E, depois, o meu talento oculto não é igual ao outro. Quero dizer: não me atrevia!
Cicciolina – Quantas mulheres levou para a cama, ao longo da sua vida? E homens?
Herman – Senhoras, bastantes. Mas só me lembro de duas ou três, as que valeram a pena. Homens, alguns, mas só para dormir. Tenho um grande carinho pelos meus amigos, mas não quer dizer que faça sexo com eles.
Cicciolina – Qual foi a noite (privada, claro) mais feliz da sua vida?
Herman – Ainda está para vir, espero!
Cicciolina – Usa preservativos?
Herman – Não. Fazer amor com preservativos é, para mim, como o mesmo que obrigar a Maria João Pires a tocar piano com luvas calçadas; é como comer um bife dentro de um saco de plástico; como ir à praia do Guincho com máscara de oxigénio.
Cicciolina – Se eu lhe sugerisse agora que viesse comigo à casa de banho para me ajudar a retocar o rimmel – você aproveitava para me apalpar?...
Herman – Pode não acreditar, mas aproveitava para falar consigo de política…
Cicciolina – Acha que era capaz de viver com uma pessoa tão 'transgressora' como eu?
Herman – Eu acho que morria de ciúmes!
Cicciolina – Não me diga que é ciumento…
Herman – A menina nem imagina!
Cicciolina – E quando eu voltar a Lisboa – vai-me buscar de Rolls-Royce?
Herman – Nessa altura, eu espero é ter dinheiro para lhe oferecer um…»
(in Tal & Qual nº 387, 20 a 26 de Novembro de 1987, págs. 1, 9 e 10)
Cicciolina pôs Lisboa em alvoroço. Mostrou tudo – e ainda se deu ao luxo de entrevistar Herman José, em rigoroso exclusivo para o Tal & Qual
CHEGOU, MOSTROU, VENCEU!
Cicciolina não conseguiu resistir à tentação: apanhando Herman José ao jantar, na passada quarta-feira (e sabedora da sua fama de homem sem papas na língua), apressou-se a 'assaltar' o popular cómico com uma catadupa de perguntas indiscretas. O repórter do Tal & Qual estava mesmo ao lado – e registou o impagável diálogo, em rigoroso exclusivo…
Cicciolina – Alguma vez pensou em seguir uma carreira política, como eu? Por que foi que não o fez?
Herman – De brincadeira, já pensei. Mas meter-me nisso por brincadeira já nem seria original. É claro que a última grande ambição de quem intervém na vida pública, como um actor faz, acaba por ter um certo fundo político. Mas não tenho jeito para essas coisas. Nem sequer alguma vez fui membro de um partido político! Não, não: sou muito volúvel. Odeio associações de qualquer espécie…
Cicciolina – Imagine que era italiano. Teria votado em mim, nas últimas eleições?
Herman – Sim, senhora. Primeiro, para irritar a massa grande e cinzenta que odeia este tipo de coisas que escapam ao seu conservadorismo. Depois, porque penso que não teria coragem para deixar de apoiar uma cara tão bonita e uma figura de pulso tão frágil…
Cicciolina – Quem é que acha que é hoje mais popular em Portugal: você ou eu?
Herman – Você. Ah, mas eu sou muito mais sexy…
Cicciolina – Já viu algum show erótico ao vivo? Não ficou sexualmente excitado?
Herman – Ao vivo, nunca: só em videocassette. Mas devo confessar que, nas alturas próprias, dá muito resultado!
Cicciolina – Que alturas?
Herman – Quando apetece induzir um ambiente de lascividade e pecado… Devo mesmo declarar que uma boa cassetezinha ajuda sempre, como quem não quer a coisa.
Cicciolina – Se eu o convidasse para ir a Roma fazer um espectáculo erótico, em que mostrasse todo o seu corpo – ia?
Herman – Não, não ia. Estou muito gordo, sabe. E, depois, o meu talento oculto não é igual ao outro. Quero dizer: não me atrevia!
Cicciolina – Quantas mulheres levou para a cama, ao longo da sua vida? E homens?
Herman – Senhoras, bastantes. Mas só me lembro de duas ou três, as que valeram a pena. Homens, alguns, mas só para dormir. Tenho um grande carinho pelos meus amigos, mas não quer dizer que faça sexo com eles.
Cicciolina – Qual foi a noite (privada, claro) mais feliz da sua vida?
Herman – Ainda está para vir, espero!
Cicciolina – Usa preservativos?
Herman – Não. Fazer amor com preservativos é, para mim, como o mesmo que obrigar a Maria João Pires a tocar piano com luvas calçadas; é como comer um bife dentro de um saco de plástico; como ir à praia do Guincho com máscara de oxigénio.
Cicciolina – Se eu lhe sugerisse agora que viesse comigo à casa de banho para me ajudar a retocar o rimmel – você aproveitava para me apalpar?...
Herman – Pode não acreditar, mas aproveitava para falar consigo de política…
Cicciolina – Acha que era capaz de viver com uma pessoa tão 'transgressora' como eu?
Herman – Eu acho que morria de ciúmes!
Cicciolina – Não me diga que é ciumento…
Herman – A menina nem imagina!
Cicciolina – E quando eu voltar a Lisboa – vai-me buscar de Rolls-Royce?
Herman – Nessa altura, eu espero é ter dinheiro para lhe oferecer um…»
(in Tal & Qual nº 387, 20 a 26 de Novembro de 1987, págs. 1, 9 e 10)
2007-10-25
Marie Antoinette (ii)

Marie Antoinette (2006), de Sofia Coppola, é um filme que se ouve com enorme prazer. As escolhas musicais da jovem realizadora, agradavelmente suspensas entre a erudição e a popularidade, são arrojadas e originais. A par das composições barrocas de Jean-Philippe Rameau, François Couperin e Antonio Vivaldi, figuram canções de bandas como New Order, The Cure, Siouxsie and the Banshees e Bow Wow Wow, além de temas de The Strokes, Aphex Twin e The Radio Dept. É difícil situar uma banda sonora destas na vasta geografia das relações entre música e cinema.
A música de um filme acompanha a quase totalidade das suas sequências, mas não deveria suscitar uma atenção consciente do espectador. A sua escrita e os modos de surgimento contribuiriam para esse apagamento ou diluição. Nisto consiste um dos dogmas mais sagrados do classicismo de Hollywood. A grande audácia da banda sonora de Marie Antoinette está precisamente na notoriedade. A sua música constitui uma obra à parte, um segundo filme dentro do filme ao qual ninguém fica indiferente.
As transgressões de Sofia Coppola não se ficam pelas opções musicais. São vários e plenamente assumidos os casos de pormenores anacrónicos e inexactidões históricas: a sequência do baile de máscaras é filmada na Ópera de Paris, que só abriu as portas em 1875, mais de 80 anos após a morte de Marie Antoinette; só são mostrados três filhos do casal real, quando na realidade eram quatro; e numa das cenas mais comentadas do filme, a protagonista calça um par de sapatilhas Converse. A respeito das famosas sapatilhas, a realizadora reiterou que a sua inclusão foi propositada e disse que pretendia mostrar Marie Antoinette como uma adolescente normal, independentemente da época histórica.
As observações de Sofia Coppola apontam ao intérprete o caminho a seguir. As liberdades poéticas afastam o filme do sistema gravitacional dos filmes históricos e impelem-no para a órbita do que poderíamos descrever como o correspondente cinematográfico do romance de formação, o Bildungsfilm: uma obra que acompanha a evolução de um protagonista em confronto com as influências do meio exterior. Porém, também aqui Coppola é original. Se os homens protagonizavam os tradicionais romances de formação, já a perspectiva dominante no filme é a de uma mulher jovem, fascinante e encantadora.
2007-10-23
2007-10-22
Há Lodo no Cais
A arte de dizer mal bem: Há Lodo no Cais, dos mordazes José António Galvão e Susana Marques Esteves.
2007-10-17
2007-10-16
Frankfurt 2007 (ii)
2007-10-11
Bur(r)ocracia (iii)
Os nomeados da semana são os funcionários do complexo desportivo do Sporting Clube de Portugal que dizem que o contrato tem um prazo apesar de o dito contrato dizer que não tem prazo. Mireille est morte, pourtant elle est vivante. Eis o Sporting.
2007-10-05
Vasco Pulido Valente
Parece que o Vasco Pulido Valente não gostou muito do filme As Vidas dos Outros. O senhor acha que se trata de «um melodrama de intelectual adolescente, sem vestígio de imaginação e originalidade» e acrescenta, com aquele tom de permanente enjoo que todos lhe reconhecemos, que «como filme nem se quer [sic] valia a pena falar dele» (in Revista Atlântico, Outubro 2007). Porém, mais valia que tivesse ficado calado. O texto do Valente é superficial, grosseiro, inábil, tendencioso e estúpido e demonstra um desconhecimento clamoroso dos processos históricos. Como texto, nem sequer valia a pena falar dele. Além do cliché já desgastado da suposta americanização do filme, toda a argumentação do Valente se resume, na verdade, a duas únicas ideias: a «implausível metamorfose de Wiesler» e a instrumentalização da Stasi pelo ministro da Cultura.
A descrição que o Vasco Pulido Valente faz da actuação do ministro está errada. Não é dele que parte a iniciativa de escutar o dramaturgo, mas do próprio capitão da Stasi, cujo requerimento é posteriormente ratificado pelos superiores. Isto significa que escapou ao Valente um pormenor fundamental e uma das ironias mais subtis do filme: é o próprio Wiesler que inicia o longo processo da sua infâmia e destruição. E quando o Valente critica a suposta inverosimilhança da sua conversão, subestima o significado da música para um povo como o alemão. A relação dos alemães com o mundo é, disse-o Thomas Mann, musical. E porque a música «é de todas as artes a mais afastada da realidade e simultaneamente a mais apaixonada, é abstracta e mística», a conversão de Wiesler assume os contornos de uma experiência mística: o momento fugaz de revelação de uma verdade, cuja natureza é inefável e desafia as explicações racionais. O caso de Wiesler não é, aliás, inédito: alguns nazis, comovidos pela música, também pouparam as suas vítimas. Foi o que sucedeu com Wladyslaw Szpilman (que inspirou outro filme admirável, O Pianista, de Roman Polanski) e com o compositor Berthold Goldschmidt.
A descrição que o Vasco Pulido Valente faz da actuação do ministro está errada. Não é dele que parte a iniciativa de escutar o dramaturgo, mas do próprio capitão da Stasi, cujo requerimento é posteriormente ratificado pelos superiores. Isto significa que escapou ao Valente um pormenor fundamental e uma das ironias mais subtis do filme: é o próprio Wiesler que inicia o longo processo da sua infâmia e destruição. E quando o Valente critica a suposta inverosimilhança da sua conversão, subestima o significado da música para um povo como o alemão. A relação dos alemães com o mundo é, disse-o Thomas Mann, musical. E porque a música «é de todas as artes a mais afastada da realidade e simultaneamente a mais apaixonada, é abstracta e mística», a conversão de Wiesler assume os contornos de uma experiência mística: o momento fugaz de revelação de uma verdade, cuja natureza é inefável e desafia as explicações racionais. O caso de Wiesler não é, aliás, inédito: alguns nazis, comovidos pela música, também pouparam as suas vítimas. Foi o que sucedeu com Wladyslaw Szpilman (que inspirou outro filme admirável, O Pianista, de Roman Polanski) e com o compositor Berthold Goldschmidt.
2007-10-04
Subscrever:
Mensagens (Atom)


