
Se a Polónia e Moçambique são países terríveis, Portugal é simplesmente medonho. Há boas razões para não gostar dos portugueses e muitas delas estão enunciadas no livro Portugal, Hoje: O Medo de Existir, do José Gil. O próprio autor reconhece que só falou do que está mal, porque quis dar «relevo ao que impede a expressão das nossas forças enquanto indivíduos e enquanto colectividade». O seu estudo aborda o que os historiadores chamam «mentalidades» e recorre a conceitos da filosofia, da psicanálise e da ciência política. De fora, ficou a análise de obras artísticas e literárias que poderiam ter ilustrado as suas teses. Ficaram também excluídas algumas peculiaridades de linguagem que teriam sido úteis, porque o nosso atraso tem também causas linguísticas. Há duas dessas peculiaridades que vale a pena mencionar: as formas de tratamento e o eufemismo.
Os portugueses recorrem insistentemente ao eufemismo. É uma figura que suaviza o discurso: a corrupção transforma-se em cunha ou jeitinho, o aborto converte-se em interrupção voluntária da gravidez e a fome é substituída por fraqueza razoável. Quando os nossos diplomatas quiseram justificar junto das Nações Unidas a guerra colonial falaram em operação policial. Claro que o eufemismo não é um exclusivo português. Também o encontramos entre os israelitas, com o sentido de auto-crítica que é característico do humor judaico. Os ingleses também o utilizam com frequência, porque uma das maneiras de sublinharem a sua altivez é minimizarem a gravidade dos acontecimentos. Mas se o eufemismo dos ingleses é um exercício de sagacidade que os ajuda a tirar partido das circunstâncias, já o eufemismo português tem exactamente o efeito contrário: deturpa a visão das coisas e, porque um diagnóstico preciso é o primeiro passo para o tratamento de qualquer doença, contribui para o nosso imobilismo.
As múltiplas formas de tratamento são outro vício recorrente entre nós. Temos uma apetência doentia por títulos académicos – senhor doutor, senhor engenheiro, senhor arquitecto – sem paralelo lá fora e que surpreende e confunde os estrangeiros que nos visitam. Os alemães usam o seu Doktor apenas a respeito dos médicos. E entre os ingleses, o you serve para toda a gente, com ou sem protocolo: sinal de sofisticação, de simplificação democrática, como refere o saudoso Eduardo Prado Coelho no seu livro Nacional e Transmissível. Já os títulos portugueses são a marca discursiva das nossas enormes desigualdades sociais. Eles revelam a sobranceria das elites, mas também, e pior que isso, o respeito reverencial permanente das classes mais baixas. Portugal não é apenas o país mais injusto da Europa, mas também o mais resignado.








