2007-08-14

Das Leben der Anderen


É difícil explicar o funcionamento da ironia. Parece estranho que digamos algo que na realidade não pensamos e que, ao mesmo tempo, queiramos que as outras pessoas compreendam aquilo que dissimulamos. Porém, o sucesso da ironia é inegável. O seu uso é frequentíssimo e permite dar mais expressividade à comunicação de uma ideia, de um ponto de vista ou de uma história. Veja-se o caso de Das Leben der Anderen (2006). O extraordinário filme de Florian Henckel von Donnersmarck é uma obra marcada pela ironia: não só demonstra a eficácia do seu poder encantatório, mas também permite que a observemos em todas as suas formas e tonalidades.

A forma mais frequente de ironia é a verbal. A ironia verbal consiste em dar a entender o oposto do que se diz, pelo que as palavras não são utilizadas no seu sentido próprio e literal. As falas de Das Leben der Anderen são muitas vezes irónicas e carregadas de segundos sentidos. Quando o jornalista Paul Hauser diz «desde então, tornei-me muito musical» não se refere a um gosto sincero pela música, mas sim à necessidade de iludir as escutas da sua casa. As palavras de Hauser revelam uma insatisfação profunda pelo estado das coisas: a sua ironia é, por isso, amarga. Outras vezes, a ironia é sorridente: quando Gerd Wiesler se refere ao livro de Georg Dreyman e diz «não, é para mim», a duplicidade de sentidos é encantadora e optimista.

Outra forma de ironia presente em todo o filme é a ironia dramática. Sabermos mais que as personagens, nisso consiste a ironia dramática. Sabemos que Wiesler falsificou os relatórios e escondeu a máquina de escrever para salvar Dreyman, mas os seus colegas da polícia política não o sabem. E quando é mostrada a manchete da subida ao poder de Gorbatchev, sabemos que a ditadura comunista está próxima do seu fim, mas os protagonistas ainda não. A ironia dramática permite que vejamos o filme com os olhos de um oráculo e que conheçamos de antemão a conclusão da história, mas não prejudica o nosso interesse. Ela faz com que nos envolvamos emocionalmente com as personagens e convida à reflexão sobre as causas dos seus actos. Tudo isto significa que não é suficiente ver Das Leben der Anderen só uma vez. Quando estivermos libertos da tensão e da curiosidade do primeiro visionamento, poderemos então concentrar a nossa atenção nas motivações dos protagonistas e no funcionamento do sistema em que eles se inserem.

Há ainda uma terceira forma de ironia, que poderíamos designar de narrativa. É irónico que o realizador tenha escolhido para protagonista um oficial frio e implacável, que rege a sua vida por princípios e não por sentimentos. Ao pedir para vigiar um casal de artistas e ao mergulhar cada vez mais nas vidas deles, Wiesler ganha consciência do deserto da sua própria vida e fará de tudo para proteger essas pessoas. Ele é o homem bom referido na belíssima sonata de Gabriel Yared. Ao adoptar a perspectiva deste capitão da Stasi, o filme de Florian Henckel von Donnersmarck é original: o realizador aborda os mecanismos da ditadura não apenas sob a forma de uma simples acusação, mas numa tentativa de mostrar com honestidade e clareza os destinos humanos em conflito com um regime autoritário.

2007-07-31

The Matrix (ii)


Cypher é a personagem mais controversa do filme The Matrix (1999). Os seus actos parecem ainda mais odiosos que os das máquinas, porque supostamente revelam astúcia e mesquinhez. Cypher desiste do combate por Zion e denuncia os seus companheiros. Em troca, pretende apenas esquecer o seu passado e viver dentro de um programa que lhe proporcione uma vida mais confortável. À mesa de um restaurante virtual e enquanto saboreia a imitação de um bife, ele esclarece quais são as suas intenções: «I know this steak doesn’t exist. I know that when I put it in my mouth, the Matrix is telling my brain that it is juicy and delicious. After nine years, you know what I realize? Ignorance is bliss.»

A opção de Cypher parece chocante e inaceitável. Os seus opositores apontam-lhe duas grandes objecções. A primeira é o seu servilismo. Uma pessoa ligada a uma máquina de experiências ficaria manietada, porque seria apenas o recipiente passivo de experiências previamente programadas. Estaria privada não só de alterar a sua vida e o mundo, mas também de ser insólita e plenamente criativa, de poder inventar novos mundos. Não seria, para usar a expressão do saudoso Professor Agostinho da Silva, inteiramente livre. A segunda objecção consiste no egoísmo dessa decisão. Cypher agiria de forma egoísta, ao fazer do seu próprio prazer o objectivo mais importante da vida e ao preferir as meras sensações às experiências genuínas.

Se pensarmos um pouco mais, chegaremos à conclusão que estas objecções são injustas. Cypher quer apenas tornar a sua vida melhor. É uma aspiração natural, sobretudo se considerarmos que ele viveu quase uma década em condições difíceis e perigosas no deserto do real. Tão natural, aliás, que os seus companheiros da nave Nebuchadnezzar partilham dos mesmos desejos: também o íntegro e leal Mouse discorda de Dozer quando este diz que a ração de combate tem tudo o que o corpo necessita; não tem, porque não proporciona o prazer que é essencial à vida humana. Parece absurdo dizer que uma vida tão insípida como esta é livre. A existência no mundo virtual, pelo contrário, pode ser incrivelmente sedutora. Não só porque as máquinas conseguiram criar uma realidade rigorosamente idêntica à nossa, mas também porque melhoraram essa realidade em muitos aspectos: por exemplo, a pobreza foi erradicada. E porque os habitantes da Matrix não sabem nem têm possibilidade de saber que vivem numa máquina, a sua existência nada tem de censurável.

Tudo isto significa que Cypher não é mau. Ele não é um vilão porque o seu comportamento não ofende os padrões morais e ideológicos da nossa sociedade, embora seja um antagonista, já que as suas escolhas o contrapõem ao protagonista do filme. Neo representa o filósofo autêntico. Ele sobrepõe o que pensa ser a busca da verdade a todas as outras coisas: quando Morpheus lhe dá a escolher entre o comprimido vermelho que permite aceder à verdadeira natureza das coisas e o comprimido azul que mantém inalterada a sua percepção do mundo, Neo opta por enfrentar o deserto do real. A sua decisão teria sido aplaudida por Platão, que identifica felicidade com autenticidade, assim como Camus, Heidegger ou Sartre. Também John Stuart Mill afirmou que «é melhor ser um humano descontente que um porco satisfeito; é melhor ser Sócrates descontente que um tolo satisfeito.» Já a opção de Cypher pelo prazer e pelo sonho faz dele não um filósofo, mas um poeta. As críticas feitas à sua escolha não se distinguem muito das que têm sido feitas à poesia e são igualmente injustas.

2007-07-18

London 1849

«One of the greatest challenges to urban life in the nineteenth century was the question of what to do with what Johnson calls the ‘rising tide of excrement’ piling up under the feet of the population of London and other cities. At the time the custom was to throw one’s waste out the back window or store it in overflowing cesspools and cellars. An 1849 survey found out that in London, one home in five stank of human waste, and one in twenty contained heaps of shit in the cellar. ‘At mid-century Victorian England was in danger of becoming submerged in a huge dung-heap of its own making,’ wrote historian Anthony Wohl.»

(Helen Epstein : 'Death by the Numbers', in The New York Review of Books, Volume LIV, Number 11, June 28 2007, p. 41)

2007-07-13

eXistenZ


eXistenZ (1999) é o filme mais incompreendido de David Cronenberg. Muita gente acha o filme desinteressante e até alguns fãs do realizador canadiano falam de uma imitação servil das suas melhores obras, em especial o fabuloso Videodrome. Porém, as críticas são tremendamente injustas. Não só porque qualquer autor tem sempre o seu conjunto de temas e motivos predilectos aos quais regressa ciclicamente, mas também porque o filme traz grandes novidades à linguagem cinematográfica de David Cronenberg: em eXistenZ, a câmara perde a sua tradicional fluidez e a montagem predomina sobre a mise en scène. O próprio Cronenberg reconheceu a importância da montagem: «And there’s a lot more cutting, editing, in eXistenZ, than there is camera movement. It wasn’t an intellectual thing, it was just visceral. It felt to me that I needed to move around, but I didn’t want to do big, swooping camera moves.»

O brilhantismo da montagem de eXistenZ começa ao nível dos enquadramentos das cenas. A melhor montagem é a que passa imperceptível aos olhos do espectador e o montador David Cronenberg efectua sempre os cortes no tempo e no lugar que asseguram o máximo de fluidez e elegância da sua narrativa. Um bom exemplo é o momento da entrada dos protagonistas no jogo. Qualquer outro montador teria recorrido a sinais óbvios que nos avisassem que estávamos acedendo a um ambiente virtual, mas Cronenberg evita esses floreios ou feitos acrobáticos e prefere as soluções mas subtis e eficazes. Isto dá à sua montagem uma qualidade que poderíamos designar de musical, porque o momento de um corte é escolhido como o da entrada de um instrumento numa peça musical.

Ao nível da montagem de sequências, Cronenberg também é original. A arquitectura do filme é arrojada e complexa: uma sucessão fulgurante de níveis diegéticos, de narrativas dentro de narrativas, de jogos dentro dos jogos. Já tínhamos visto algo de semelhante nas famosas Mil e uma noites, um texto literário com o qual o filme tem grandes afinidades. Porém, há uma diferença fundamental: não encontramos qualquer narrativa enquadrante em eXistenZ. Se no texto tradicional das Mil e uma noites a história de Xerazade e Xahriar é apresentada como a realidade dentro da ficção, um ancoradouro a que podemos recorrer com alguma segurança, já no filme de Cronenberg nunca sabemos até onde chega o universo de bonecas russas e qual delas é a última. O filme termina na maior das ambiguidades e a questão «Ainda estamos dentro do jogo?» fica sem resposta. Tudo é difuso e incerto, como num sonho.

2007-07-03

Países terríveis: Moçambique (ii)

Há apenas quatro salas de cinema em todo o Moçambique!

2007-07-01

Joe Berardo

Berardos Austellung zeigt João César Monteiros Schneewittchen und beweist alles, was ich über diesen Film geschrieben habe: Es ist nicht nur ein Film, sondern auch eine Malerei.

A exposição do Berardo mostra a Branca de Neve de João César Monteiro e comprova tudo aquilo que escrevi sobre este filme: não é apenas um filme, mas também uma pintura.

2007-06-26

Inside The Fire

Também é escaldante, mas não tem nada de pornográfico: o excelente blogue Inside The Fire, da nossa Patrícia.

2007-06-20

Serge Gainsbourg

«J’ai essayé l’amitié et c’est encore plus difficile que l’amour. J’ai toujours été déçu dans mes amitiés. Alors ça donne quoi, ça donne un gars solitaire.»

«Je ne veux pas qu’on m’aime mais je veux quand même.»

«Mai 68 ? Eh bien j’étais au Hilton, dans une suite et j’entendais les bang bang bang des gamins. Dans ma tête, je me disais c’est foutu puisqu’ils ne sont pas armés, il ne peut pas y avoir de révolution s’il n’y a des armes que d’un côté. Alors je suis resté au Hilton et j’ai attendu que ça se passe. Je suivais ça sur le tube cathodique, avec l’air conditionné... Si c’est pas du cynisme, ça !»

«Quand j’ai dit à Whitney Houston : I want to fuck you, c’était hard, d’accord, mais quelle pire insulte que de dire à une femme : Vous êtes intirable ?»

«Un jour, au Touquet, j’étais pianiste de bar, un type me donne une pièce de un franc. Moi avec toute mon arrogance je me lève et lui dis : Monsieur je ne suis pas un juke-box !»

«Si le Christ était mort sur une chaise électrique, tous les petits chrétiens porteraient une petite chaise en or autour du cou.»

«Il y a trois fourreaux, celui avec les dents, celui que le judéo-christianisme permet pour procréer, et puis l’autre... Précieux. Alors là, évidemment, c’est plus restreint et plus contracté, donc plus intéressant pour moi. Quand j’ai été initié au sadisme par le mec du même nom, il y avait un héros dans Justine, un noble d’ailleurs, qui se mettait en fureur dès qu’il voyait un con ! Il voulait voir des culs et seulement des culs ! Eh bien, je suis un peu comme ça. Parce qu’un cul, moi je dirais, c’est pullman ; et un con, c’est le wagon à bestiaux.»

«Une fille sans tabou est une mauvaise amoureuse. S'il n'y a pas d'interdit, si l'on perd le sens des voies interdites, alors je ne vois pas d'où viendraient les excitations! La femme moderne fera des tas d'homosexuels dans l'avenir, parce qu'elle se veut libérale. Moi, je suis très conservateur là-dessus. Je suis un réac amoureux.»

«Il y a un proverbe arabe qui dit : Le Bédouin qui dort sur le sable ne craint pas de tomber de son lit.»

«La posterité ? Comme disait l’autre : Qu’est-ce que la posterité a fait pour moi ? Je fucke la posterité.»

2007-06-18

Das Duas Uma

Também o António-Pedro Vasconcelos já aderiu aos blogues: Das Duas Uma.

2007-06-17

Países terríveis: Polónia (i)

A Polónia é um país terrível. Se todos nós desprezamos as pessoas que vivem de subsídios e à custa do trabalho dos outros, o que dizer de um país inteiro de oportunistas? A Polónia foi um resultado infeliz do Tratado de Versalhes, que redesenhou o mapa da Europa após a Primeira Grande Guerra e dilacerou o território da Alemanha vencida. Os alemães ficaram chocados com os polacos por terem aceite territórios aos quais não tinham qualquer direito histórico nem conquistaram militarmente. Isto explica a brutalidade inaudita da invasão da Polónia por Hitler em 1939. Porém, não se pense que a Polónia foi um caso de resistência heróica a um invasor desumano e com o coração «fechado à piedade», porque em matéria de crueldade e sadismo essa gente quase que suplantou os nazis. Em retaliação pela invasão, os polacos cometerem as suas próprias atrocidades: dezenas de milhares de alemães étnicos foram deportados e assassinados. O pior massacre ocorreu a 3 de Setembro em Bromberg, onde foram mortos mais de mil alemães. E durante a ocupação, nenhum povo foi tão solícito como o polaco a denunciar judeus: não porque as circunstâncias difíceis os obrigassem a isso, mas apenas a troco de vodka, fósforos e dinheiro. A proclamação da República Popular a 22.7.1944 não fez grande coisa para remediar esse carácter oportunista e avesso ao mérito individual. Mesmo os maiores nomes polacos das artes e do espectáculo – Chopin, Karol Wojtyla, Roman Polanski – tiveram de abandonar o país para serem reconhecidos.

2007-06-12

Margarida Rebelo Pinto (ii)

Margarida Rebelo Pinto publicou mais um livro. Isto significa que não estamos apenas perante a produção de um livro, mas de um verdadeiro evento mediático. Tudo aquilo que é escrito, dito ou feito por esta senhora tem o condão tem de suscitar as maiores controvérsias, embora nem sempre por razões ligadas à literatura. Mas se nos ativermos à literatura, chegaremos à conclusão que a Rebelo Pinto se limitou, mais uma vez, a escrever um bom livro. A rapariga que perdeu o coração não desilude os fãs. O humor, a inteligência e a argúcia continuam lá. A autora faz nova incursão pelo território interminável dos contos de fadas e de lá regressa com uma história rica em sentimentos. Talvez seja mesmo o seu texto mais encantador de sempre. Ao contrário do que sucede com a sua protagonista, o coração da Margarida Rebelo Pinto continua bem vivo.

2007-06-09

2007-06-07

Lola rennt (ii)

«Manni?»
«Mhm.»
«Liebst du mich?»
«Na sicher.»
«Wie kannst du sicher sein?»
«Weiss nicht. Bin’s halt.»
«Aber ich könnte auch irgendeine andere sein.»
«Nee.»
«Wieso nicht ?»
«Weil du die Beste bist.»
«Die beste was?»
«Na, die beste Frau.»
«Von allen, allen Frauen?»
«Klar.»
«Woher willst du das wissen?»
«Ich weiss es halt.»
«Du glaubst es.»
«Na gut, ich glaub’s.»
«Siehste.»
«Was?»
«Du bist dir nicht sicher.»
«Sag mal, spinnst du jetzt, oder was?»

«Und wenn du mich nie getroffen hättest?»
«Was wär dann?»
«Dann würdest du jetzt dasselbe ‘ner anderen erzählen.»
«Was erzähl ich denn ?»
«Dass ich die Beste bin und so.»
«Ich brauch’s ja nicht zu sagen, wenn du’s nicht hören willst.»
«Ich will überhaupt nichts hören. Ich will wissen, was du fühlst.»
«Okay. Ich fühle, dass du die Beste bist.»
«Dein Gefühl. (Pause) Wer ist das, dein Gefühl?»
«Wie meinst du das?»
«Na, wer ist das, der da zu dir spricht.»
«Na ich. (Überlegt) Mein Herz.»
«Dein Herz sagt: ‘Guten Tag, Manni, die da, die ist es’?»
«Genau.»
«Und du sagst dann: ‘Ach ja, recht herzlichen Dank für diese Information, auf Wiederhören bis zum nächsten Mal’?
«Genau.»
«Und du machst alles, was dein Herz dir sagt?»
«Na ja, das sagt ja nichts… es fühlt halt.»
«Und was fühlt es jetzt?»
«Es fühlt, dass da jemand gerade zuviel blöde Fragen stellt.»
«Ach Mann, du nimmst mich überhaupt nicht ernst.»
«Ey. Lola, was ist los?»
«Ich weiss nicht.»
«Willst du weg... von mir?»
«Ich weiss nicht. Ich muss mich grad entscheiden... glaub ich.»

2007-06-05

Currywurst


Ein guter Grund, Berlin zu besuchen: Die Currywurst!

Uma boa razão para visitar Berlim: a salsicha com caril!

2007-05-19

Borat


Os críticos portugueses não gostaram do Borat (2006). O filme foi desvalorizado pela sua linguagem grosseira e aviltante e não superou as duas ou três estrelinhas nas páginas de cinefilia dos nossos jornais. Porém, a reacção foi despropositada. O filme do Sacha Baron Cohen é extraordinário e não a merece. Claro que ninguém é obrigado a gostar deste ou de qualquer outro filme, o problema é que os nossos críticos de cinema menosprezaram o Borat pelas razões erradas.

O Borat é, obviamente, obsceno. Mas a obscenidade em comédia não é nada de insólito. Se a tragédia prefere os temas nobres e os protagonistas de condição elevada, já as personagens vis, os diálogos ordinários e os temas sórdidos sempre foram o prato forte da comédia. Isto é válido não só para o cinema e para a literatura, mas também para as artes plásticas. Piero Manzoni enlatou as suas próprias fezes e fez delas um produto de luxo em Merda d’Artista (1961) e em Topology for a Museum (2001) John Miller mostra um museu enterrado em esterco. Ambos pretendem ridicularizar o funcionamento do mercado de arte.

Algo de parecido acontece com o Borat. O filme recorre ao tema dos excrementos para afrontar a ordem de valores da sociedade americana: quando o protagonista dá uma cagada em frente do Trump International Hotel and Tower está a apontar directamente ao coração pulsante do sistema económico e quando traz a sua merda num saquinho de plástico durante o jantar da Quinta Magnólia está a gozar com os usos sociais. Isto é o que poderíamos chamar de função crítica do humor. Ao parodiar as convenções e ritos de uma sociedade, a piada deixa à vista o carácter arbitrário desses ritos e pode contribuir para a sua mudança.

Resta saber o que permite à comédia ser tão arrojada. Se pensarmos nisso, é espantoso que humoristas como o criador do Borat sejam tão cáusticos e ao mesmo tempo tão populares. O segredo está na segunda função do humor, a psicológica. O humor traz benefícios. Ele permite que aceitemos as nossas fraquezas e que vençamos os nossos medos, ou pelo menos que os compreendamos melhor. Freud escreveu longamente sobre o riso como uma manifestação do inconsciente, uma válvula de escape que traz à superfície os impulsos que fomos obrigados a reprimir desde a infância.

2007-05-11

2007-05-09

Nicolas Sarkozy

Ensemble tout devient possible (sauf la Turquie).

2007-05-08

Intelectual, eu?

Sou demasiado filosófico para uns e para outros não sei pensar. Por favor, decidam-se.

2007-05-05

Ludwig Wittgenstein

«It was a biography of Ludwig Wittgenstein, a philosopher I had heard of but never read – not an unusual circumstance, since most of my reading was confined to fiction, with nary the smallest dabble in other fields. I found it to be an absorbing, well-written book, but one story stood out from all the others, and it had stayed with me ever since. According to the author, Ray Monk, after Wittgenstein wrote his Tractatus as a soldier during World War I, he felt that he had solved all the problems of philosophy and was finished with the subject for good. He took a job as a schoolmaster in a remote Austrian mountain village, but he proved unfit for the work. Severe, ill-tempered, even brutal, he scolded the children constantly and beat them when they failed to learn their lessons. Not just ritual spankings, but blows to the head and face, angry pummelings that wound up causing serious injuries to a number of children. Word got out about his outrageous conduct, and Wittgenstein was forced to resign his post. Years went by, at least twenty years, if I’m not mistaken, and by then Wittgenstein was living in Cambridge, once again pursuing philosophy, by then a famous and respected man. For reasons I forget now, he went through a spiritual crisis and suffered a nervous breakdown. As he began to recover, he decided that the only way to restore his health was to march back into his past and humbly apologize to each person he had ever wronged or offended. He wanted to purge himself of the guilt that was festering inside him, to clear his conscience and make a fresh start. The road naturally led him back to the small mountain village in Austria. All his former pupils were adults now, men and women in their mid- and late twenties, and yet the memory of their violent schoolmaster had not dimmed with the years. One by one, Wittgenstein knocked on their doors and asked them to forgive him for his intolerable cruelty two decades earlier. With some of them, he literally fell to his knees and begged, imploring them to absolve him of the sins he had committed. One would think that a person confronted with such a sincere display of contrition would feel pity for the suffering pilgrim and relent, but of all of Wittgenstein’s former pupils, not a single man or woman was willing to pardon him. The pain he had caused had gone too deep, and their hatred for him transcended all possibility of mercy.»

(in Paul Aster: The Brooklyn Follies, New York, Picador, 2006, 54-55)

2007-05-01

O Evangelho segundo Jesus Cristo


O romance O Evangelho segundo Jesus Cristo (1991) tem um título enganador. O Cristo descrito por José Saramago é original e tem pouco a ver com o que encontramos nos evangelhos canónicos – o que, aliás, suscitou as polémicas furiosas que continuam frescas na memória de toda a gente. Mas o maior engano não é esse. Ainda que a vida de Jesus ocupe a parte de leão do texto, o mais importante do livro não está aí. O momento fulcral da obra de Saramago é aquele em que Deus surge e revela os seus desígnios divinos.

Jesus é um interveniente relativamente secundário. O texto di-lo expressamente, ao descrever a sua biografia como «alguns vulgares episódios da vida pastoril» e ao qualificar o filho de José e Maria como «medíocre em vida». Isto é reforçado pelas considerações sobre o livre arbítrio que proliferam ao longo do livro. O Jesus de Saramago é um ser destituído de verdadeira capacidade de escolha: «Deus é quem traça os caminhos e manda os que por eles hão-de seguir, a ti escolheu-te para que abrisses, em seu serviço, uma estrada entre as estradas.» O verdadeiro protagonista deste Evangelho não é Jesus, mas o próprio Deus.

Deus é, na verdade, um protagonista magnífico. Desde logo, pelo seu carácter misterioso: a Bíblia contém muito pouco que se possa considerar filosofia e o Deus do Antigo Testamento nada esclarece sobre as contradições da vida. A maior perplexidade de todas talvez seja a do sofrimento no mundo. Se Deus é perfeito e criador de todas as coisas, parece inaceitável que o mal exista e que esse mesmo Deus seja imune ao sofrimento de que é causa. Para um ateu declarado como Saramago, é incompreensível que as pessoas se ajoelhem perante uma divindade destas: «O inferno é este planeta onde vivemos, onde sofremos, onde cremos.»

Tudo isto desarma os censores do Evangelho. Não há aqui qualquer «anti-teologia de larga audiência». José Saramago limita-se a transportar para o seu romance algumas das dificuldades fundamentais dos homens na sua relação com Deus. O autor fê-lo na forma e no momento certos. Não só porque a literatura é o espaço adequado para abordar os grandes temas teológicos e filosóficos junto do homem comum, mas também porque o seu ateísmo lhe dá uma legitimidade acrescida para escrever sobre a religião. Tal como os melhores cronistas de um país são os estrangeiros, também o distanciamento de Saramago lhe confere mais objectividade e lucidez.