2007-05-19

Borat


Os críticos portugueses não gostaram do Borat (2006). O filme foi desvalorizado pela sua linguagem grosseira e aviltante e não superou as duas ou três estrelinhas nas páginas de cinefilia dos nossos jornais. Porém, a reacção foi despropositada. O filme do Sacha Baron Cohen é extraordinário e não a merece. Claro que ninguém é obrigado a gostar deste ou de qualquer outro filme, o problema é que os nossos críticos de cinema menosprezaram o Borat pelas razões erradas.

O Borat é, obviamente, obsceno. Mas a obscenidade em comédia não é nada de insólito. Se a tragédia prefere os temas nobres e os protagonistas de condição elevada, já as personagens vis, os diálogos ordinários e os temas sórdidos sempre foram o prato forte da comédia. Isto é válido não só para o cinema e para a literatura, mas também para as artes plásticas. Piero Manzoni enlatou as suas próprias fezes e fez delas um produto de luxo em Merda d’Artista (1961) e em Topology for a Museum (2001) John Miller mostra um museu enterrado em esterco. Ambos pretendem ridicularizar o funcionamento do mercado de arte.

Algo de parecido acontece com o Borat. O filme recorre ao tema dos excrementos para afrontar a ordem de valores da sociedade americana: quando o protagonista dá uma cagada em frente do Trump International Hotel and Tower está a apontar directamente ao coração pulsante do sistema económico e quando traz a sua merda num saquinho de plástico durante o jantar da Quinta Magnólia está a gozar com os usos sociais. Isto é o que poderíamos chamar de função crítica do humor. Ao parodiar as convenções e ritos de uma sociedade, a piada deixa à vista o carácter arbitrário desses ritos e pode contribuir para a sua mudança.

Resta saber o que permite à comédia ser tão arrojada. Se pensarmos nisso, é espantoso que humoristas como o criador do Borat sejam tão cáusticos e ao mesmo tempo tão populares. O segredo está na segunda função do humor, a psicológica. O humor traz benefícios. Ele permite que aceitemos as nossas fraquezas e que vençamos os nossos medos, ou pelo menos que os compreendamos melhor. Freud escreveu longamente sobre o riso como uma manifestação do inconsciente, uma válvula de escape que traz à superfície os impulsos que fomos obrigados a reprimir desde a infância.

2007-05-11

2007-05-09

Nicolas Sarkozy

Ensemble tout devient possible (sauf la Turquie).

2007-05-08

Intelectual, eu?

Sou demasiado filosófico para uns e para outros não sei pensar. Por favor, decidam-se.

2007-05-05

Ludwig Wittgenstein

«It was a biography of Ludwig Wittgenstein, a philosopher I had heard of but never read – not an unusual circumstance, since most of my reading was confined to fiction, with nary the smallest dabble in other fields. I found it to be an absorbing, well-written book, but one story stood out from all the others, and it had stayed with me ever since. According to the author, Ray Monk, after Wittgenstein wrote his Tractatus as a soldier during World War I, he felt that he had solved all the problems of philosophy and was finished with the subject for good. He took a job as a schoolmaster in a remote Austrian mountain village, but he proved unfit for the work. Severe, ill-tempered, even brutal, he scolded the children constantly and beat them when they failed to learn their lessons. Not just ritual spankings, but blows to the head and face, angry pummelings that wound up causing serious injuries to a number of children. Word got out about his outrageous conduct, and Wittgenstein was forced to resign his post. Years went by, at least twenty years, if I’m not mistaken, and by then Wittgenstein was living in Cambridge, once again pursuing philosophy, by then a famous and respected man. For reasons I forget now, he went through a spiritual crisis and suffered a nervous breakdown. As he began to recover, he decided that the only way to restore his health was to march back into his past and humbly apologize to each person he had ever wronged or offended. He wanted to purge himself of the guilt that was festering inside him, to clear his conscience and make a fresh start. The road naturally led him back to the small mountain village in Austria. All his former pupils were adults now, men and women in their mid- and late twenties, and yet the memory of their violent schoolmaster had not dimmed with the years. One by one, Wittgenstein knocked on their doors and asked them to forgive him for his intolerable cruelty two decades earlier. With some of them, he literally fell to his knees and begged, imploring them to absolve him of the sins he had committed. One would think that a person confronted with such a sincere display of contrition would feel pity for the suffering pilgrim and relent, but of all of Wittgenstein’s former pupils, not a single man or woman was willing to pardon him. The pain he had caused had gone too deep, and their hatred for him transcended all possibility of mercy.»

(in Paul Aster: The Brooklyn Follies, New York, Picador, 2006, 54-55)

2007-05-01

O Evangelho segundo Jesus Cristo


O romance O Evangelho segundo Jesus Cristo (1991) tem um título enganador. O Cristo descrito por José Saramago é original e tem pouco a ver com o que encontramos nos evangelhos canónicos – o que, aliás, suscitou as polémicas furiosas que continuam frescas na memória de toda a gente. Mas o maior engano não é esse. Ainda que a vida de Jesus ocupe a parte de leão do texto, o mais importante do livro não está aí. O momento fulcral da obra de Saramago é aquele em que Deus surge e revela os seus desígnios divinos.

Jesus é um interveniente relativamente secundário. O texto di-lo expressamente, ao descrever a sua biografia como «alguns vulgares episódios da vida pastoril» e ao qualificar o filho de José e Maria como «medíocre em vida». Isto é reforçado pelas considerações sobre o livre arbítrio que proliferam ao longo do livro. O Jesus de Saramago é um ser destituído de verdadeira capacidade de escolha: «Deus é quem traça os caminhos e manda os que por eles hão-de seguir, a ti escolheu-te para que abrisses, em seu serviço, uma estrada entre as estradas.» O verdadeiro protagonista deste Evangelho não é Jesus, mas o próprio Deus.

Deus é, na verdade, um protagonista magnífico. Desde logo, pelo seu carácter misterioso: a Bíblia contém muito pouco que se possa considerar filosofia e o Deus do Antigo Testamento nada esclarece sobre as contradições da vida. A maior perplexidade de todas talvez seja a do sofrimento no mundo. Se Deus é perfeito e criador de todas as coisas, parece inaceitável que o mal exista e que esse mesmo Deus seja imune ao sofrimento de que é causa. Para um ateu declarado como Saramago, é incompreensível que as pessoas se ajoelhem perante uma divindade destas: «O inferno é este planeta onde vivemos, onde sofremos, onde cremos.»

Tudo isto desarma os censores do Evangelho. Não há aqui qualquer «anti-teologia de larga audiência». José Saramago limita-se a transportar para o seu romance algumas das dificuldades fundamentais dos homens na sua relação com Deus. O autor fê-lo na forma e no momento certos. Não só porque a literatura é o espaço adequado para abordar os grandes temas teológicos e filosóficos junto do homem comum, mas também porque o seu ateísmo lhe dá uma legitimidade acrescida para escrever sobre a religião. Tal como os melhores cronistas de um país são os estrangeiros, também o distanciamento de Saramago lhe confere mais objectividade e lucidez.

2007-04-27

Hal Hartley

«An honest man is always in trouble.»

«Um homem honesto está sempre em apuros.»

2007-04-05

Lisa 9

Mein Lieblingsblog aus Deutschland: Lisa 9.

O meu blogue da Alemanha preferido: Lisa 9.

2007-03-25

Cine 7

A nossa querida Isabel Fernandes convidou-me para colaborar com o melhor blogue português de cinema: o Cine 7. Eu, obviamente, não me fiz rogado.

2007-03-17

Lola rennt


O filme Lola rennt (1998) foi inspirado pela ciência do caos. O crítico Jürgen Müller assinalou-o com toda a argúcia, ao escrever que a famosa obra-prima do alemão Tom Tykwer «é um filme filosófico, uma ilustração da teoria do caos, um jogo com o que aconteceria se…». Isto faz de Lola rennt uma obra em plena sintonia com o nosso tempo, porque o estudo do lado irregular do universo já é uma conquista consolidada do pensamento científico. Mas há uma vantagem do caos relativamente às outras duas grandes revoluções das ciências físicas do século XX – a relatividade e a mecânica quântica – que o torna tão apetecível para um cineasta: a sua escala humana. A física tradicional afastou-se demasiado do mundo reconhecível pelo homem, mas a teoria do caos aplica-se a objectos do quotidiano que todos nós podemos ver e tocar.

Um dos elementos principais do movimento caótico é o chamado efeito borboleta. O simples batimento de asas de uma borboleta pode pôr em movimento uma série de alterações na atmosfera que conduzam à formação de um tornado. Ou seja, pequenas variações da condição inicial de um sistema dinâmico podem produzir alterações drásticas no comportamento de todo esse sistema. Tom Tykwer propõe-nos um modelo que tem o interesse acrescido de utilizar pessoas de carne e osso. Na nossa vida, tal como na ciência, uma sequência de acontecimentos pode ter um ponto crítico capaz de ampliar as pequenas alterações. Mas o caos significa que esses pontos estão por todo o lado: «Todos os dias, a cada segundo, podes tomar uma decisão que mudará para sempre a tua vida», escreve Tykwer.

O conjunto dos rumos de vida possíveis é uma espécie de árvore de decisão vital e Lola rennt permite que vislumbremos alguns dos seus ramos. O filme divide-se em três realidades possíveis e da junção das três salta à vista como pequenas perturbações num ponto qualquer da árvore da decisão vão abrindo brechas cada vez mais profundas entre os diversos rumos vitais praticáveis: uma viagem de metro, uma ida ao banco ou um telefonema podem significar a diferença entre a vida e a morte para os protagonistas. Mas qual dessas realidades é a real: apenas uma, todas ou nenhuma? Um filósofo como Jean-Paul Sartre diria que a existência de uma pessoa se reduz ao itinerário que percorre, pois nós somos apenas o conjunto dos nossos actos. Mas esta visão das coisas é demasiado restritiva. Talvez sejamos feitos em igual medida daquilo que fomos e do que poderíamos ter sido, como afirma o próprio Tykwer: «Para mim, Lola rennt é uma viagem contínua, em que o mais importante é que o espectador sinta que a Lola viveu efectivamente as diversas possibilidades que são mostradas no filme».

2007-03-16

Famafest 2007

Let's look at the festival: Famafest 2007, uma excelente iniciativa do Lauro António e outros teimosos.

2007-03-04

Peter O'Toole

Os novos critérios para a atribuição de um óscar, segundo o blogue A Sexta Coluna: a taxa de alcoolemia no sangue e as manchas de fígado.

2007-02-26

Óscares 2007


A vitória do Forest Whitaker, que já tardava, foi o momento alto da noite. Isto significa que o grande Peter O'Toole volta para casa com as mãos a abanar, mas a decisão da Academia foi justa, tal como foi justa a vitória da Juliette Binoche sobre a Lauren Bacall: o óscar deve premiar, acima de tudo, a melhor interpretação do ano e não o currículo mais volumoso ou a personalidade mais glamorosa. Se fosse em Portugal, o O'Toole teria ganho, mas os americanos tomaram a decisão correcta. As mais elegantes: Gwyneth e Beyoncé. Martin Scorsese: está bem.

2007-02-20

Poverty in America

«America is the wealthiest nation on Earth, but its people are mainly poor, and poor Americans are urged to hate themselves. To quote the American humorist Kin Hubbard, "It ain't no disgrace to be poor, but it might as well be." It is in fact a crime for an American to be poor, even though America is a nation of poor. Every other nation has folk traditions of men who were poor but extremely wise and virtuous, and therefore more estimable than anyone with power and gold. No such tales are told by the American poor. The mock themselves and glorify their betters.»

«In the U.S., no one starves to death (except fashion models ;) ). No one is refused emergency medical care. No one is forced to sleep out of doors. But in the U.S. we also don't deny people the right to really screw themselves up. We are hesitant to restrict people's right to beg on the street (for some this is their chosen means of support, others are mentally ill but refuse treatment in state institutions).»

«The Mayor of Las Vegas (Goodman) has issued an edict that declares that poor people can no longer be given food in parks. People who have done it have been arrested.»

«I saw a homeless guy in Manhattan with a sign that said "Need money for beer". :D»

«The number of Americans living in poverty jumped to 35.9 million last year, up by 1.3 million, while the number of those without health care insurance rose to 45 million from 43.6 million in 2002.»

«The average home owned by a person classified as "poor" has three bedrooms, one-and-a-half baths, a garage, and a porch or patio.»

«We'll see how successful this economy is when it crashes. It will, because you can't ignore the skyrocketing number of poor/poverty level people. This country is founded upon the working middle class and they are swiftly disappearing. They have no health insurance, no retirement and no prospects for improvement. What happens when they all start needing benefits? A crash is coming, it's just a matter of when.»

«Welp, all I can say is that 'lost' 18 billion loaded up on trucks to go to Iraq could have helped quite a bit with the poverty in America!»

«I support the war, not Bush. All of our politicians are full of ****.»

«And if ya need halp to pay off that $30 grand MichiganMan? I know a great place to go: WWW.GOARMY.COM They got bonuses of up to $30,000 if you qualify.. ;)»

«But I also think it is a dream to believe any society can provide an absolute safety net for every single member of society. If there is no danger of falling into the lower class, the poor if you will, then for a vast majority of people, in my opinion, there would be little insentive to try and excel in life. This is what communist nations have found is the result of communal farming - the farmers don't try really hard if everything beyond their own needs is taken and redistributed to others who need the food.»

«The Actual Cause of Poverty: Bad Choices. Per the Chicago Sun-Times: http://www.manhattan-institute.org/html/_chicsuntimes-the_truth_about_poverty.htm»

«So now somebody comes along and says this is because of "poor decisions". To that, I want to say that you need to shove your ignorance up your arse and go out and see what is REALLY going on in the world. Our system is pretty good. Most people can make it through hard work. I was one of them once. But there is a loophole. Don't get sick. Even with insurance the medical costs alone will bury you financially. Don't get sick, because NOBODY cares, and a LOT of people will actually PROFIT off of you because of it.»

«But even where people find themselves in desperate situations in the U.S., it is not a permanent situation (unless it is a choice or due to mental illness or addiction).»

«Since im a Member of the Seminole Indian tribe, i assure you that your quote: "Americans have learned to look out for themselves for 200+ years." Makes us shake our heads.»

«Just about everyone I've ever met in my life is where they are supposed to be financially. This includes myself. I could have much more if that was what I desired. But I would rather be a musician with less than a suit-wearing, 16 hour a day working executive with more. I realized early in life that the money I made was going to be the last thing on my mind when lying on my deathbed remembering my life. Money does NOT = happiness. This has been proven so many times it's ridiculous...but people still think otherwise.»

«When Katrina is brought up as "evidence" that American treats it's poor poorly or that "Bush hates black people" -- it presents a false and ignorant picture. Anyone who'd claim the Bush Administration is any more or less responsible for the mess than Mayor Nagen or the Governor of New Orleans is playing partisan politics. And anyone who thinks everyday Americans aren't giving or sympathetic or generous when it comes to poverty in their country is selling something.»

«I live in New Orleans, where the government has never cared about poor people. Now, people say they care (or that God's wrath has been imposed on us somehow) but then don't think any more about it. So, nothing has been done, and New Orleans is a mess.»

«I don't even know a McDonald's job that starts at minimum wage. Walmart employees strt at 8 or 9 dollars an hour, and you quickly move up from there if you are at all diligent at your job. Have you looked for work recently? Have you ever had a job?»

«The kid that mows my lawn gets $20 for 2 hours work for christs sake.»

«Don't play that card, John Kerry has more money than the whole Bush family. They're all crooked bastards.»

«We'll still actually tell someone that we are "poor" and blame some mythical "rich man" for all our fabricated problems. (That those caveman ancestors would love to have.)»

«I also find the notion that we are generally better off then throughout history a good thing, a little disturbing. Why is the PAST our bar of excellence? Where should we set it? During the black plague? During World War II? Hey, poor Jews today have it a LOT better then back then right!? (Obvious sarcasm.)»

«OSLO, Norway (AP) — The United Nations ranked Norway as the best country to live in for a sixth consecutive year Thursday, prompting the country’s aid minister to tell Norwegians to stop whining about wanting more.Oil-rich Norway, with its generous welfare state, topped the U.N. Development Program’s human development index, based on such criteria as life expectancy, education and income. Iceland was No. 2, followed by Australia, Ireland, Sweden, Canada, Japan and the United States.»

«Ive lived in Germany under the "socialist lite" country and its got its good points like the full coverage health care, and its bad points like they take 45% of my paycheck right off the bat for all the benefits i get later..»

2007-02-16

Grandes Queridas (ii)


Simone de Oliveira: «Quem faz um filho, fá-lo por gosto.»

Simone de Oliveira: «Wer ein Kind macht, macht es aus Spass.»

2007-02-13

Belarmino


O começo do filme Belarmino (1964) é surpreendente. Ouvimos dizer em off que o protagonista poderia ser um pugilista excepcional, mas que na realidade não o é: «Podia ter sido um grande pugilista, dos melhores da Europa, talvez até campeão dos meios leves e agora é quase um punching ball: Belarmino Fragoso». A locução inicial do Baptista Bastos dá o mote para todo o filme, porque o excelente documentário de Fernando Lopes fala apenas de uma eventualidade: não se descreve um campeão de pugilismo que tenha efectivamente existido, mas apenas aquele que poderia ter existido. Isto é, no mínimo, curioso. Parece estranho que o filme seja anunciado como um documentário e ainda mais insólito que o realizador tenha escolhido um protagonista aparentemente tão desinteressante e até desprezível.

Belarmino tem inúmeros defeitos e o pior deles é a falsidade. O senhor mente com o atrevimento mais descarado e tem o péssimo hábito de alijar responsabilidades: quando é questionado sobre o seu fiasco no ringue do Albert Hall perante um pugilista de segunda, ele desencanta uma história disparatada de corrupção e compadrio. Porém, as mentiras não nos incomodam por aí além. Não só porque o filme do Fernando Lopes deixa claramente à vista o que é ou não patranha, mas também porque a própria inépcia do Belarmino se encarrega de o denunciar, um pouco como a criança que diz ‘não fui eu’ com a boca lambuzada de doces. Aceitamos as mentiras do Belarmino Fragoso e até simpatizamos com elas, pela sua candura e ingenuidade. Mas não só.

O Belarmino seria um indivíduo risível em qualquer outro país do mundo, mas em Portugal é um campeão. Mais do que simples simpatia, existe entre ele e o público português uma verdadeira empatia: uma fusão emocional, uma adesão de sentimentos que se estabelece entre espectador e personagem de tal modo que parece dar-se entre os dois uma espécie de identificação ou projecção. Os portugueses reconhecem-se nas mentiras do Belarmino e na sua esquiva permanente à realidade, porque se há coisa que fazemos bem é não querer ver as coisas como elas são. A este respeito, uma diplomata francesa descreveu o nosso povo como «os chineses do ocidente», porque os chineses nunca vão directamente ao assunto, dão inúmeras voltas antes de lá chegar e sempre em termos pouco claros.

Além do seu feitio esquivo, há outras características do protagonista que são muito nossas: a mediocridade, a ignorância, a gabarolice e a indisciplina. Tudo isto faz do Belarmino um case study, um representante da mentalidade dos portugueses e do seu proverbial «medo de existir», uma figura tão típica e característica como o galo de Barcelos, o Zé Povinho ou o caldo verde. A condição portuguesa é o verdadeiro assunto de Belarmino e não apenas a vida de um pugilista falhado. Daí o valor documental do filme do Fernando Lopes, porque descreve com verdade e rigor a mentalidade de um povo. Se o realizador encena ou falseia alguns detalhes da vida do protagonista (algumas sequências, como a chegada aos treinos no Sporting ou o engate nos Restauradores, são manifestamente encenadas) é apenas para que se registe com mais fidelidade essa verdade maior.

2007-02-08

Brasil


Acho que me apaixonei pelo Brasil.

Ich glaube, ich habe mich in Brasilien verliebt.

2007-01-22

Grandessíssimos Portugueses

Carolina Salgado

Miss Ágata, travesti

Carla Quevedo, cronista

José Maria Martins, advogado

Maria João Lopo de Carvalho, escritora

Gisela (Gi) Borges, ex-apresentadora

Vítor Ilharco, super burlão

Rita Vieira, actriz porno

Eurico Cebolo, escritor

Leonel Nunes, cantor pimba

2007-01-16

Djambadon

A maravilhosa poesia da Guiné: Djambadon, do meu amigo Adão Quadé.

Die wunderschöne Poesie aus Guinea: Djambadon von meinem Freund Adão Quadé.

2007-01-13

Quality Street

Britain has given us many wonderful things: remarkable poets, charismatic political leaders, great cars and... Quality Street. This popular selection box of individual sweets manufactured in Halifax, in the United Kingdom, has become a symbol of British excellence. Like Britain, Quality Street is a successful combination of tradition and innovation, of uniqueness and variety. The sweets within the box have changed and evolved over the years and the collection now includes 15 different flavours. Unlike the detestable sea shells from Belgium, each sweet offers a new mouth-watering experience and has a different story to tell. We all love a good story. Whenever that delightful tin is opened, people of all ages instantly dive in, searching for their favorite. Quality Street thus becomes more than a mere box of chocolates. It is a celebration of life, friendship and family.

Alberto João Jardim (ii)

A minha sugestão para o Dr. Alberto João Jardim após o desastroso acórdão do Constitucional: ou proclamamos independência, ou mandamos Portugal à merda e arranjamos uma potência colonizante como deve ser.

2007-01-10

British Actors and Actresses

Judi Dench

Helen Mirren

John Gielgud

Emily Watson

Ralph Fiennes

Derek Jacobi

John Hurt

Nigel Hawthorne

Cedric Hardwicke

Stephen Fry

Kenneth Branagh

Anthony Hopkins

Emma Thompson

Laurence Olivier

Charles Laughton

Dame Mae Witty

Colin Firth

Daniel Craig

Gary Oldman

Tim Roth

Kate Winslet

Michael Caine

Alan Rickman

2007-01-05

Christa Wolf


O romance Cassandra (1983), de Christa Wolf, é uma obra surpreendente. O livro de Wolf é anunciado como um retrato grandioso da sociedade do seu tempo, mas o texto parece ter muito pouco a ver com a Guerra Fria ou a antiga Alemanha de Leste. Ao invés, o romance transporta o leitor para o tempo mítico da cidade de Tróia e descreve os últimos dias da sacerdotisa Cassandra. Isto suscita duas grandes questões: o que levou Christa Wolf a recorrer à mitologia grega? E como se explica que tenha escolhido para protagonista uma figura obscura e secundária como Cassandra?

Christa Wolf conhece bem o poder dos mitos. Eles são criações puramente lendárias ou fantasiosas e não pretendem narrar dados factuais; contudo, reconhecemos neles os modelos dos homens e mulheres de todas as épocas históricas. Os temas da mitologia podem, por isso, ser incrivelmente sedutores para um escritor. No caso de Christa Wolf, a opção pela mitologia grega serve excelentemente os propósitos da autora: os mitos de Homero são suficientemente distantes para evitar os perigos de uma abordagem demasiado evidente da questão alemã, mas também suficientemente próximos para serem compreendidos e apreciados pelos leitores dos nossos dias.

Christa Wolf crê que as causas da situação política precária do seu tempo remontam às próprias origens da sociedade ocidental, ao tempo mítico em que os príncipes gregos impuseram a cultura do patriarcado, autoritária e violenta. Um modelo destes não se adequa ao pensamento pacifista e feminista de Christa Wolf, que introduziu mudanças importantes: a arete masculina é substituída pela sensibilidade e intuição das mulheres e a protagonista ideal é Cassandra, já que a autora vê nela um retrato da condição feminina. Claro que os fãs de Homero não devem ficar desapontados, porque nunca há uma versão ortodoxa ou única de um mito. Longe de contestar a validade dos poemas homéricos, a obra de Wolf vem, pelo contrário, completar, enriquecer e actualizar o seu legado.

Com o romance Medeia (1996), Christa Wolf regressa à mitologia grega e prossegue a sua pesquisa pela paz. O livro é emocionante e arrojado, mas esperávamos muito mais de Wolf. O maior crime da autora terá estado na dispersão do texto por diversas vozes narrativas: em lugar do longo monólogo interior de Cassandra, a escritora dá agora voz aos diversos protagonistas do mito. Perdemos assim a simbiose extraordinária entre autora e protagonista, aquela ligação complementar entre ambas que fez de Cassandra uma obra tão especial e autêntica.

2007-01-03

Johann Sebastian Bach

Für ein erfolgreiches Leben, wählen Sie Johann Sebastian Bach.

Para uma vida de sucesso, escolha Johann Sebastian Bach.

2006-12-20

Match Point


Match Point (2006) é o melhor filme de Woody Allen. Público e crítica acolheram entusiasticamente este filme, numa altura em que a carreira do Allen bem precisava dessa lufada de ar fresco. Isto é um pouco surpreendente, se considerarmos que o realizador foi buscar inspiração a um género dramático que todos nós julgávamos morto: a tragédia grega. Friedrich Nietzsche fala mesmo de um suicídio da tragédia, que teria morrido sem deixar descendência. Porém, ela nunca esteve verdadeiramente morta, já que a sua essência – a visão trágica do mundo – sempre se manifestou no romance, na música, nas artes plásticas ou no cinema. Com o filme de Allen, ela ressurge com espantosa fidelidade aos originais gregos: Match Point não é apenas uma obra trágica, mas uma verdadeira e própria tragédia.

Os mais puristas talvez não estejam de acordo. Dirão que a estrutura e o assunto são indiscutivelmente trágicos, mas que não estão presentes no filme os elementos estéticos que fizeram a imagem de marca das tragédias áticas, nomeadamente o coro, a música e a dança. Contudo, a tragédia revela mais uma vez a sua grande capacidade de transformação. Todos esses elementos marcam efectivamente presença neste Match Point, mas modificados e adaptados à sensibilidade do público dos nossos dias: o coro paira como um espírito agoirento sobre os comentários dos protagonistas a respeito da condição humana e a música da tragédia ática é substituída pelo seu equivalente actual, a ópera.

O realizador leva ao limite essa fidelidade à tragédia no momento mais fascinante e memorável do filme: o confronto do protagonista com os espíritos das suas vítimas. A mise en scène de Woody Allen é perfeita. A iluminação austera, a nobreza das falas e a solenidade dos intérpretes dão à sequência o ambiente próprio de uma cerimónia misteriosa. Tudo isto evoca o tempo longínquo da tragédia ática. Junto dos gregos, ela era concebida simultaneamente como um ritual religioso, cívico e uma manifestação artística. Todos os movimentos, gestos e palavras possuíam uma solenidade própria; nada era deixado ao acaso, tudo tinha o valor de signo, de símbolo.

O maior obstáculo ao carácter perfeito e regular da tragédia de Woody Allen parece estar na ausência de um verdadeiro herói trágico. Se toda a tragédia aborda acções nobres e se ela envolve o espectador precisamente porque ele se identifica com o herói, então o filme de Allen deveria estar votado ao fracasso. O seu protagonista é um arrivista da pior espécie, um vigarista que não olha a meios para atingir os seus fins e que dificilmente conquistará a simpatia do público. Porém, a tragédia não possui um verdadeiro valor moral. Os protagonistas não se tornam trágicos pela força das suas convicções morais, mas sim pela sua ambiguidade. O professor de ténis de Match Point não é um assassino frio e sanguinário, mas um homem dominado pelas suas dúvidas e paixões. Tudo nele é intenso, dionisíaco, maior que a vida, ou seja, trágico.

As emoções arrebatadas de Match Point aproximam-no irresistivelmente do drama de Eurípides, que também fornece a tese central do filme sobre o poder do acaso. Não que o poeta de Salamina seja um ateu, porque ele não nega a existência de poderes superiores; os deuses existem e tecem destinos, mas a sua direcção metódica é crescentemente substituída pela força do acaso. Os cortes de ténis são o palco perfeito para uma tragédia destas, porque muito do jogo depende também da sorte. As bolas que balançam precariamente sobre a rede ganham então um significado duplamente simbólico: representam a fragilidade do protagonista trágico, que representa, por sua vez, a fragilidade da própria condição humana.

2006-12-19

Pasmos Filtrados

O melhor blogue de cinema (depois do meu, claro): Pasmos Filtrados, do Francisco Mendes.

2006-12-11

Scarlett Johansson


O número de telefone da Scarlett Johansson: 02079460996.

Die Telefonnumer von Scarlett Johansson: 02079460996.

Lauro António

Let's look at the blog: Lauro António Apresenta.