2006-12-02

A Corda


A Corda (1948) é a obra mais controversa de Alfred Hitchcock. O filme é, ainda hoje, uma espécie de esqueleto no armário na filmografia do mestre, não só pela inovadora técnica de rodagem, mas também pelo arrojo do seu assunto: o argumento inspirou-se no sórdido processo Leopold-Loeb e é protagonizado por jovens homossexuais que assassinam um amigo apenas pelo prazer de matar. Isto é chocante, perturbador e absurdo, mas talvez nos pareça menos estranho se reflectirmos um pouco sobre o carácter e as intenções dos protagonistas. Eles são, na verdade, os últimos representantes de uma figura que julgávamos desaparecida há muito: o dandy.

As características do dandy são brilhantemente traçadas em O Pintor da Vida Moderna, de Charles Baudelaire. O magnífico texto é uma espécie de tratado constitucional na matéria e todas as obras sobre dandismo, incluindo o filme de Hitchcock, vão aí buscar inspiração. Baudelaire fala de um modelo de homem rico, ocioso e elegante, que vagueia por entre as multidões das grandes cidades. O que busca o dandy? A descoberta da beleza do momento presente e o registo daquilo que poderíamos designar por modernidade, de que ele se tornaria uma espécie de símbolo. Porém, mantém uma relação ambígua com a sociedade do seu tempo: mais insolente que transgressor, o dandy recusa esse mundo, mas nunca o desafia abertamente.

A ligação do dandy às artes contagia todos os aspectos da sua existência. Se a arte é um refúgio contra a acção, o dandy é um ser indolente que vive ao arrepio do ritmo vertiginoso da vida moderna. E se a obra artística absorve todo o tempo e energias do autor, ele deverá remover do seu quotidiano quaisquer obstáculos que se interponham entre ele e a sua criação, em particular a família: lar conjugal, mulher (amante, esposa ou mãe) e filhos. Todas estas características assentam como uma luva aos protagonistas de A Corda. Eles são dois jovens universitários cultos, inteligentes e sofisticados, que constituem uma família homossexual encabeçada pelo antigo professor de liceu e descrevem o homicídio como uma obra de arte.

A outra referência fundamental em A Corda é Friedrich Nietzsche. O filme retoma as suas teorias do super-homem, que também tinham sido referidas em Lifeboat e que fornecem a base intelectual para o crime dos protagonistas. Em Die fröhliche Wissenchaft, Nietzsche faz o elogio dos homens superiores: «Comparada à natureza vulgar, a natureza superior é a mais irrazoável – porque o homem nobre, generoso, aquele que se sacrifica, sucumbe efectivamente aos seus instintos e, nos seus melhores momentos, a razão faz uma pausa».

O dandy de Alfred Hitchcock cede perante essa paixão nietzschiana. Os protagonistas do filme já não se limitam a remoer o seu desprezo pelas pessoas vulgares, mas tomam parte activa na sua eliminação. Este é o seu grande erro, porque o mundo não deixará de reagir de forma igualmente violenta: quando o professor descobre o crime dos ex-alunos, afirma expressamente que os entregará à sociedade para serem executados e, com isso, consumará a extinção definitiva dos dandies. Baudelaire, com notável intuição, já a tinha previsto no Pintor da Vida Moderna e descreve o dandy como um sol poente que caminha indolentemente para o seu fim. Em A Corda, esse crepúsculo não é apenas metafórico: a história começa às 19 e 30 e termina às 21 e 15 e Hitch não poupou esforços para que tudo fosse filmado com realismo e perfeição.

2006-11-11

Strange Magazine

Se é misterioso e fascinante, está no sítio strangemag.com.

Wenn es mysteriös und faszinierend ist, steht es auf der Internetseite strangemag.com.

2006-11-08

Mister Orange


aqui falámos do extraordinário Mister Pink, mas há outro Reservoir Dog que é igualmente complexo e fascinante: o Mister Orange. É ele o polícia infiltrado no grupo de criminosos e o grande responsável pelo fiasco do assalto. Porém, não é nenhum herói. Ainda que as suas intenções sejam legítimas, os meios que ele utiliza são, no mínimo, discutíveis: ninguém gosta de um bufo, seja em que circunstância for. Mas o que mais tem incomodado alguns espectadores é a confissão final do Mister Orange: se ele tivesse mantido a boca fechada, teria escapado com vida. Contudo, fez a opção menos razoável e assinou voluntariamente a sua sentença de morte.

Não só não existe qualquer incongruência na confissão do Mister Orange, como ela é, bem pelo contrário, o momento mais admirável e inesquecível do filme. Para a compreendermos, temos de ter presente a verdadeira natureza do trabalho de Mister Orange: ele é um agente infiltrado, um polícia que, assumindo uma identidade falsa, é introduzido dentro de uma organização criminosa. Em suma, ele é um actor. O filme di-lo expressamente: «Um polícia infiltrado tem de ser o Marlon Brando. Para fazeres este trabalho, tens de ser um grande actor. Tens de ser o mais natural possível. Porque, caso contrário, és um mau profissional e acabas por estragar tudo.»

Todo o magnífico segmento dedicado ao Mister Orange é o registo do processo da aprendizagem de um actor. Numa fase inicial, ele é um caloiro receoso e as suas preocupações (memorização das falas, criação de emoção, medo do palco) são comuns a todos os actores principiantes. Cabe a Holdaway, o seu superior negro, a condução do seu treino. É particularmente importante a ênfase que ele coloca nos pormenores, mesmo os mais insignificantes, porque um actor deve compreender não só o que diz, mas tudo o que acontece no guião. É isso que permitirá a Mister Orange contar convincentemente a história da retrete e ser incluído no grupo de assaltantes.

A confissão do Mister Orange é a grande consagração da sua carreira. O seu trabalho é uma autêntica experiência: ele já não é apenas um actor, mas uma pessoa real que respira no palco do grande armazém. Quando ouvimos as suas derradeiras palavras, não é verdadeiramente o polícia que as profere, mas sim um criminoso que interiorizou plenamente o código de valores da sua gente. É um final dramático, em todos os sentidos.

Rui Rio

O Porto já não é uma nação, mas a república das bananas: Rui Rio acaba com todos os subsídios pecuniários a fundo perdido atribuídos pela sua edilidade à cultura.

2006-11-03

Chuva

Ainda bem, para regar os campos de morangos para sempre.

2006-10-23

Marie Antoinette

O filme de Sofia Coppola é lento, desgarrado e superficial. Gosto bastante.

Der Film von Sofia Coppola ist langsam, unstrukturiert und oberflächlich. Es gefällt mir gut.

2006-10-18

Touradas


Os portugueses têm pouco respeito pelos animais. A crueldade praticada contra os seres não humanos é um sinal evidente do nosso atraso educacional, mental e moral, já que o verdadeiro carácter das pessoas só se revela nas suas relações com aqueles que, como sucede com os animais, são mais fracos e estão à sua mercê. Dois exemplos chocantes são as touradas e a caça. A legislação portuguesa sobre caça é vergonhosa, pois ignora por completo o sofrimento ocasionado pela maior parte das actividades venatórias junto das suas vítimas. Quanto às touradas, não serão propriamente populares (excepto entre algumas putas da alta-roda e os papalvos que as sustentam), mas é lamentável que se permita a realização de um espectáculo tão cruel, degradante e covarde.

Em defesa da tauromaquia, já ouvimos toda a espécie de enormidades. Mas talvez valha a pena debruçarmo-nos um pouco sobre o argumento do pretenso carácter bravio e combativo do touro: o bicho teria nascido para lutar e a tourada corresponderia a uma aplicação natural desses instintos. Claro que a ideia é inaceitável, até porque o combate tauromáquico tem muito pouco de natural ou leal (antes da lide, os cornos do animal são serrados e os seus olhos untados com uma solução irritante para dificultar a visão), mas tem o interesse de fazer eco da longa e vetusta tradição filosófica da Grande Cadeia do Ser.

Para filósofos como Santo Agostinho ou São Tomás de Aquino, o curso dos eventos é produto de um determinismo universal e imanente, por força do qual cada organismo vivo tem uma função rigidamente demarcada. Os animais, desprovidos de razão e de capacidade para reflectirem sobre as suas acções, ocupariam então uma posição subalterna nessa ordenação cósmica e estariam naturalmente escravizados aos interesses dos humanos. No caso dos touros, eles existiriam apenas para o nosso divertimento.

Estas concepções teleológicas e hierárquicas da natureza impõem-se não só no confronto entre diferentes espécies, mas também no seio das próprias relações inter-subjectivas dentro da espécie humana. Este é um dos equívocos básicos da Grande Cadeia do Ser, pois legitima filosoficamente soluções aberrantes como a escravatura. A filosofia cristã terá, quando muito, um único mérito: o de demonstrar que as condições humana e animal são indissociáveis e que o desrespeito pelos direitos dos animais é contrário aos deveres do homem para consigo mesmo. Condenar os animais pela não inteligência é abrir a porta à morte das pessoas deficientes, inimputáveis e incapazes: será que um doente comatoso em estado irreversível deixa de pertencer à espécie humana e não merece qualquer protecção jurídica, apenas porque não dispõe de uma vida sensorial e mental? Longe de degradar os direitos humanos, a consagração de direitos fundamentais aos animais, pelo contrário, só os enobrece e reforça.

2006-10-15

Christopher Walken


A justificação de Christopher Walken para ter participado no filme Kangaroo Jack (2003): «Eles telefonaram, eu estava em casa e atendi.»

Christopher Walkens Begründung für seine Darstellung im Film Kangaroo Jack (2003): «Sie haben angerufen, ich war zu Hause und habe geantwortet.»

2006-10-10

Rilke

Rainer Maria Rilke + Poesie + Musik = Rilke Projekt.

2006-10-01

Provedor Bomba

O blogue A Bomba orgulha-se de apresentar o seu Provedor do Leitor. O serviço será assegurado pelo Senhor Professor Doutor Flávio Marcelo Correia de Sousa, que, com inquestionável rigor científico e aprumo moral, analisará as sugestões, críticas, reclamações e vitupérios dos leitores deste formoso blogue.

2006-09-18

Abrupto

O Pacheco Pereira é um indivíduo interessante, mas um pouco presunçoso. Recordemos, por exemplo, a insistência com que ele se auto-intitula de intelectual, como se isso fosse uma grande coisa ou fizesse dele uma pessoa melhor que todas as outras. É muito ambíguo e vago o conceito de intelectual. Não pertence ao vocabulário corrente. O que podemos afirmar com toda a certeza é que ser-se intelectual, por si só, não é nenhuma virtude. Do nazismo ao comunismo, de Joseph Goebbels a Mikhail Suslov, não faltaram intelectuais para apoiar o exercício do poder de forma autoritária e desumana, muitos deles a emprestar-lhe voz e imagem. A intelectualidade não é garantia do que quer que seja, muito menos de lucidez.

2006-09-15

Axasteoquê?!

O blogue de cinema que eu gostaria de ter escrito: Axasteoquê?!, do Ricardo Lopes Moura. Não percam!

2006-09-04

Veritas Iustitia Libertas

Estou aqui a olhar para um boné da Universidade Livre de Berlim, no qual se pode ler Veritas Iustitia Libertas. São valores que guiam não só esse formoso estabelecimento de ensino, mas também a existência de toda esta gente de Berlim. O segredo da prosperidade da capital alemã reside precisamente aí: nos princípios e na rigidez com que os berlinenses se atêem a eles. E ainda que essa rigidez prussiana possa provocar sorrisos de escárnio entre alguns estrangeiros mais distraídos, é ela, na verdade, que faz de Berlim a grandiosa cidade que é hoje. Não é a política nem a economia ou o futebol, mas a força dos princípios. Um exemplo expressivo é-nos contado pelo historiador Jean Marabini: no final da Segunda Grande Guerra e apesar de todas as carências, não houve pilhagens em Berlim, porque semelhante coisa, diz Marabini, seria «contrária ao espírito alemão» (sic). Se isto não é prova de carácter, então eu não sei o que será.

Rami und Angel: Seid ihr da?


2006-08-22

Wenn die Haifische Menschen wären

Von Bertolt Brecht

"Wenn die Haifische Menschen wären", fragte Herrn K. die kleine Tochter seiner Wirtin, "wären sie dann netter zu den kleinen Fischen?"

"Sicher", sagte er. "Wenn die Haifische Menschen wären, würden sie im Meer für die kleinen Fische gewaltige Kästen bauen lassen, mit allerhand Nahrung drin, sowohl Pflanzen als auch Tierzeug. Sie würden dafür sorgen, dass die Kästen immer frisches Wasser hätten, und sie würden überhaupt allerhand sanitärische Maßnahmen treffen, wenn z.B. ein Fischlein sich die Flosse verletzten würde, dann würde ihm sogleich ein Verband gemacht, damit es den Haifischen nicht wegstürbe vor der Zeit.

Damit die Fischlein nicht trübsinnig würde, gäbe es ab und zu große Wasserfeste; denn lustige Fischlein schmecken besser als trübsinnige.

Es gäbe natürlich auch Schulen in den großen Kästen. In diesen Schulen würden die Fischlein lernen, wie man in den Rachen der Haifische schwimmt. Sie würden z.B. Geographie brauchen, damit sie die großen Haifische, die faul irgendwo rumliegen, finden könnten. Die Hauptsache wäre natürlich die moralische Ausbildung der Fischlein. Sie würden unterrichtet werden, dass es das Größte und Schönste sei, wenn ein Fischlein sich freiwillig aufopfert, und sie alle an die Haifische glauben müßten, vor allem, wenn sie sagten, sie würden für eine schöne Zukunft sorgen. Man würde den Fischlein beibringen, dass diese Zukunft nur gesichert sei, wenn sie Gehorsam lernten. Vor allen niedrigen, materialistischen, egoistischen und marxistischen Neigungen müßten sich die Fischlein hüten, und es sofort melden, wenn eines von ihnen solche Neigungen verriete.

Wenn die Haifische Menschen wären, würden sie natürlich auch untereinander Kriege führen, um fremde Fischkästen und fremde Fischlein zu erobern. Die Kriege würden sie von ihren eigenen Fischlein führen lassen. Sie würden die Fischlein lehren, dass zwischen ihnen und den Fischlein der anderen Haifische ein riesiger Unterschied bestehe. Die Fischlein, würden sie verkünden, sich bekanntlich stumm, aber sie schweigen in ganz verschiedenen Sprachen und könnten einander daher unmöglich verstehen.Jedem Fischlein, das im Krieg ein paar andere Fischlein, feindliche, in anderer Sprache schweigende Fischlein, tötete, würde sie Orden aus Seetang anheften und den Titel Held verleihen.

Wenn die Haifische Menschen wären, gäbe es bei ihnen natürlich auch eine Kunst. Es gäbe schöne Bilder, auf denen die Zähne der Haifische in prächtigen Farben, ihre Rachen als reine Lustgärten, in denen es sich prächtig tummeln läßt, dargestellt wären.

Die Theater auf dem Meeresgrund würden zeigen, wie heldenmütige Fischlein begeistert in die Haifischrachen schwimmen, und die Musik wäre so schön, dass die Fischlein unter ihren Klängen, die Kapelle voran, träumerisch, und in der allerangenehmste Gedanken eingelullt, in die Haifischrachen strömten.

Auch eine Religion gäbe es ja, wenn die Haifische Menschen wären. Sie würde lehren, dass die Fischlein erst im Bauche der Haifische richtig zu leben begännen.

Übrigens würde es auch aufhören, dass alle Fischlein, wie es jetzt ist, gleich sind. Einige von ihnen würden Ämter bekommen und über die anderen gesetzt werden. Die ein wenig größeren dürften sogar die kleineren fressen. Dies wäre für die Haifische nur angenehm, da sie dann selber öfter größere Brocken zu fressen bekämen. Und die größeren, Posten innehabenden Fischlein würden für die Ordnung unter denn Fischlein sorgen, Lehrer, Offiziere, Ingenieure im Kastenbau werden.

Kurz, es gäbe erst eine Kultur im Meer, wenn die Haifische Menschen wären."

2006-08-18

Berlin Musik!

Die perfekte Kombination: Mozart, das Konzerthaus Berlin und der Dirigent André de Ridder.

2006-08-13

Nachrichten aus Berlin

Chove em Berlim e a cerveja está fresca. Até breve.

Es regnet in Berlin und das Bier schmeckt frisch. Bis bald.

2006-08-01

Tony Soprano


Boas notícias: Tony Soprano está vivo. O senhor saiu do coma, está bem de saúde e já podemos todos respirar de alívio. Mas não será estranho que nos sintamos aliviados? Afinal de contas, o protagonista da série Os Sopranos está longe, muito longe de ser um herói ou uma pessoa impoluta. Tony lidera a organização criminal mais poderosa de Nova Jersey e é responsável por fraudes, raptos, extorsões e homicídios. Ainda para mais, é um indivíduo homofóbico, machista (deixa a mulher fechada em casa, enquanto vai para a cama com as suas goomahs) e racista. Então, como se explica que gostemos tanto dele?

Tony Soprano poderá ser mau, mas não é completamente mau. Apesar de todas as brutalidades que comete, ele não é um indivíduo totalmente desprovido de escrúpulos e já deu algumas provas de carácter. O caso mais evidente é a relação com os seus filhos: Tony adora os miúdos e toma os maiores cuidados para que, de futuro, eles não enveredem pela vida do crime. «Tudo o que eu faço é por ti e pelo teu irmão», disse ele à filha e com razão.

O que talvez não seja tão evidente é que as razões que fazem de Tony um homem mau são as mesmas que o tornam bom. Ele é ao mesmo tempo um criminoso brutal e um tipo decente, porque adopta um sistema moral muito particular: família e negócios são a espinha dorsal do seu código de valores e que ele sobrepõe a todas as outras coisas. Tony Soprano só se preocupa com os familiares e amigos e fará de tudo para proteger essas pessoas que lhe estão mais próximas. Este é o seu grande erro, pois a moral deve ser essencialmente imparcial.

A realidade, porém, é que o pensamento moral dominante nos nossos dias é o da parcialidade. Poderemos não ser chefes mafiosos, mas normalmente só pensamos numa parte das pessoas que são afectadas pelas nossas acções. Por exemplo, a pessoa que oferece presentes caros aos familiares em vez de ajudar organizações humanitárias não é censurada, porque age correctamente com a família e é só isso que a moralidade exige dela; e ninguém se escandaliza com o sindicalista que coloca os interesses da profissão à frente do bem comum, já que ele age por lealdade aos seus colegas. Em matéria de princípios, Tony Soprano não é muito diferente de qualquer um de nós.

Lena d'Água

A nossa querida Lena d'Água tem um blogue que é um doce: vejam aqui.

2006-07-25

Os Sopranos

Carmela e miúdos: os nossos corações estão convosco.

2006-07-24

Twin Peaks


O protagonista de Twin Peaks não é um detective comum. Os procedimentos de Dale Cooper afastam-se das técnicas tradicionais da investigação criminal e incluem por vezes o recurso aos sonhos, aos pressentimentos e às intuições. O exemplo mais célebre é o seu método tibetano. Inspirado por um sonho sobre o Tibete e pelas entradas finais do diário de Laura Palmer, Coop organiza uma experiência bizarra no meio da floresta: escreve num quadro os nomes de todos os suspeitos que incluem a letra J e pede ao ajudante que lhe leia esses nomes, enquanto atira pedras a uma garrafa de vidro. O detective falha quase todas as tentativas, mas acerta na garrafa após a menção do nome de Leo Johnson.

O método tibetano é sedutor e empolgante, mas parece estranho que surja a meio de um murder mystery. Afinal, uma das regras de ouro das histórias policiais consiste no rigor lógico da resolução do mistério: toda a actuação do detective deve assentar na análise das provas segundo métodos racionais e científicos, o que exclui a intervenção do acaso, do espiritismo ou da intuição. Foi o grande Edgar Allan Poe, pai fundador do género policial, quem primeiro falou de uma «peculiar analytic ability» do investigador, que resultaria de «an excited, or perhaps of a diseased, intelligence».

Há boas razões para estes métodos dedutivos tradicionais. Desde logo, por uma questão de fair-play: a resolução do crime é concebida como um jogo intelectual que deve envolver tanto o protagonista como o público e ambos devem estar, à partida, numa situação de igualdade no que respeita à descoberta da identidade do assassino. Mas existem também razões culturais profundas, pois o romance policial de Poe nasceu imbuído da visão determinista que caracteriza a ciência moderna. O princípio da causalidade – as mesmas causas, nas mesmas condições, produzem os mesmos efeitos – permite explicar todos os fenómenos do mundo, incluindo os crimes.

Se o inquérito policial de Edgar Allan Poe é um produto da modernidade, já o método tibetano de David Lynch é caracteristicamente pós-moderno. Cooper é um protagonista dividido que representa a confusão alienante dos nossos tempos: ele não rejeita por completo os métodos das ciências exactas, mas adiciona-lhes a intuição que permite descascar como uma cebola as camadas sobrepostas da realidade e chegar aos níveis mais profundos que a razão não atinge. Esta obsessão com o caos que se esconde sob a superfície da vida percorre toda a obra de Lynch: «Just beneath the surface there’s another world, and still different worlds as you dig deeper. I knew it as a kid, but I couldn’t find the proof. It was just a feeling.»

2006-07-21

Grup Tekkan

A versão alemã do nosso Zé Cabra: os rapazes do Grup Tekkan e o grande êxito 'Wo bist du mein Sonnenlicht'.

Die deutsche Version von Zé Cabra: Die Jungs von Grup Tekkan und der grosse Erfolg 'Wo bist du mein Sonnenlicht'.

2006-07-15

O público português

Tal como se analisa e julga a qualidade de um filme, também se deveria poder criticar a qualidade do público de cinema. O critério de avaliação consistiria no que poderíamos chamar, algo pomposamente, de cultura cinéfila dos espectadores – que incluiria parâmetros como a assiduidade, o civismo ou a extensão dos conhecimentos sobre filmes. Teríamos então de concluir que o público português é uma merda. É ele o grande responsável pela crise do nosso cinema: temos excelentes cineastas, argumentistas, actores e técnicos; só falta mesmo é um público bom.

O nosso público não tem um mínimo de espírito crítico. É um público provinciano (no pior sentido) e pacóvio. Um estudo recente da Universidade Lusófona demonstrou que mais de metade dos portugueses têm uma atitude de indiferença em relação ao cinema do nosso país. Eis alguns números expressivos: 58,2% dos inquiridos afirmaram-se nem satisfeitos nem insatisfeitos com os filmes, mas 45,9% não foram capazes de dizer qual o último filme que tinham visto e 66,7% acham que a solução está na melhoria da qualidade dos diálogos. Isto diz tudo.

O problema maior é que já nem os filmes estrangeiros, bons ou maus, parecem interessar aos portugueses. Os cinemas estão cada vez mais às moscas e multiplicam-se os casos de salas históricas que encerram por falta de espectadores. À excepção de alguns fenómenos da moda ou altamente mediatizados, o cinema é hoje um espectáculo em crise entre nós e os resultados do box-office não deixam quaisquer dúvidas a esse respeito.

Quanto à falta de civismo, chega a ser escandalosa. Os poucos portugueses que ainda vão ao cinema não sabem como se comportar num lugar desses, nem respeitam os outros que lá estão e também pagaram bilhete: os pés em cima das cadeiras, a ruminância das pipocas e até a escarradela furtiva para o chão já se tornaram em lugares comuns. Quando fui ao cinema ver A Costa dos Murmúrios, a algazarra de um casal de paneleiros enchia a sala toda; a meio da sessão, lá tive de me levantar e pedir aos dois que se calassem, porque não conseguia ouvir o filme; mal regressei ao meu lugar, recomeça aquela balada infernal. Ainda hoje, não sei do que trata A Costa dos Murmúrios.

2006-07-14

Modigliani

O filme pode ser uma grande merda, mas a interpretação do Andy Garcia é, como sempre, uma obra-prima.

2006-07-08

Gato Fedorento


Quando se escrever a história do surrealismo em Portugal, os nomes mais importantes serão Mário Cesariny, João César Monteiro e… os Gatos Fedorentos. A arte do fabuloso quarteto de humoristas assenta na chamada justaposição, que é um procedimento caracteristicamente surrealista. A justaposição consiste na junção de dois objectos incompatíveis sobre uma superfície que lhes é estranha: Max Ernst descreveu «o encontro casual de uma máquina de costura e um guarda-chuva numa mesa de operações» de Lautréamont como um exemplo clássico.

Esta apetência pelas «rencontres fortuites d’objets» corresponde a uma tentativa de compor as imagens segundo a lógica de funcionamento dos sonhos. Nestes, as leis da física não impõem quaisquer limitações à movimentação dos corpos e todas as combinações são possíveis. Por isso, as imagens surrealistas são tão bizarras e sedutoras: o procedimento da justaposição permite que o artista represente os níveis profundos do inconsciente e que, ao mesmo tempo, exclua o mais possível o pensamento racional.

Os programas dos Gatos Fedorentos são férteis nestas imagens. Recordemos os super-heróis que disputam partidas de ténis, as irmãs carmelitas armadas com metralhadoras ou o Napoleão Bonaparte que se debate com problemas de utilização de um computador pessoal. Todos estes números funcionam lindamente, porque aplicam com eficácia o princípio da justaposição. Mas talvez o número mais surrealista da carreira dos Gatos seja o do célebre Senhor Vítor. A discussão, já de si absurda, entre funcionários públicos e o utente protagonista é interrompida pela intromissão de uma bola de ténis gigante: um magnífico e redondo deus ex machina que pouco ou nada fica a dever ao enorme ovo engaiolado de René Magritte.

As justaposições surpreendentes não se limitaram às imagens, pois o surrealismo começou por ser um fenómeno literário. Para os seus poetas, a escrita automática, os textos colectivos, as collages e os «cadavres exquis» revelavam uma actividade inconsciente escondida por séculos de racionalismo. As palavras perdem a sua função utilitária e trivial de comunicação e passam a ser «des tremplins à l’esprit». Um exemplo expressivo retirado dos espectáculos dos Gatos Fedorentos é o já referido Senhor Vítor, fórmula como, por razões práticas, o utente do serviço público se refere a todos e quaisquer interlocutores: o nome converte-se então numa realidade puramente poética e desliga-se por completo do mundo referencial.

2006-07-05

Bur(r)ocracia (ii)

Serviço de Finanças do Lumiar, 15 horas. 30 minutos à espera na bicha para o balcão cinco. Utente brasileira pede cartão de contribuinte mas funcionária menopáusica diz que ali não têm nada e por isso que vá para o outro lado; mas no outro lado já lhe disseram para ir ao balcão cinco, ao que funcionária menopáusica responde que vai receber o cartão no correio; utente já está há três meses à espera e não recebeu nada no correio, pelo que a funcionária pergunta com quem vive, quantos são lá em casa e se alguém não terá roubado o cartão de contribuinte e que a solução é a utente brasileira fazer novo pedido e pagar uma segunda vez o mesmo cartão. Chega a minha vez. Peço uma certidão um papel qualquer coisa que diga que não tenho dívidas ao fisco mas funcionária menopáusica diz que ali no fisco não sabem nem podem saber se tenho dívidas ao fisco, ao que respondo que já antes um colega dela viu que eu não tinha dívidas ao fisco; funcionária menopáusica diz que não pode ser e quando foi isso e como se chamava esse colega que disse que eu não tinha dívidas ao fisco; respondo que não me recordo do nome de todos os funcionários das finanças com quem falei na vida mas que têm obrigação de ter uma base de dados dos contribuintes e funcionária menopáusica retorque que há muita coisa que não funciona bem e se quiser que vá de avião para a Madeira buscar o papel certidão qualquer coisa que diga que eu não tenho dívidas ao fisco. Acima das nossas cabeças, paira um enorme e branco cartaz que louva a eficiência da Administração Pública e onde se lê um garrafal SIMPLEX. E se fossem todos para o caralhex?

2006-07-04

Abrupto Sexual

O Pacheco Pereira no país do Viagra: o Abrupto Sexual.