Os portugueses têm pouco respeito pelos animais. A crueldade praticada contra os seres não humanos é um sinal evidente do nosso atraso educacional, mental e moral, já que o verdadeiro carácter das pessoas só se revela nas suas relações com aqueles que, como sucede com os animais, são mais fracos e estão à sua mercê. Dois exemplos chocantes são as touradas e a caça. A legislação portuguesa sobre caça é vergonhosa, pois ignora por completo o sofrimento ocasionado pela maior parte das actividades venatórias junto das suas vítimas. Quanto às touradas, não serão propriamente populares (excepto entre algumas putas da alta-roda e os papalvos que as sustentam), mas é lamentável que se permita a realização de um espectáculo tão cruel, degradante e covarde.
Em defesa da tauromaquia, já ouvimos toda a espécie de enormidades. Mas talvez valha a pena debruçarmo-nos um pouco sobre o argumento do pretenso carácter bravio e combativo do touro: o bicho teria nascido para lutar e a tourada corresponderia a uma aplicação natural desses instintos. Claro que a ideia é inaceitável, até porque o combate tauromáquico tem muito pouco de natural ou leal (antes da lide, os cornos do animal são serrados e os seus olhos untados com uma solução irritante para dificultar a visão), mas tem o interesse de fazer eco da longa e vetusta tradição filosófica da Grande Cadeia do Ser.
Para filósofos como Santo Agostinho ou São Tomás de Aquino, o curso dos eventos é produto de um determinismo universal e imanente, por força do qual cada organismo vivo tem uma função rigidamente demarcada. Os animais, desprovidos de razão e de capacidade para reflectirem sobre as suas acções, ocupariam então uma posição subalterna nessa ordenação cósmica e estariam naturalmente escravizados aos interesses dos humanos. No caso dos touros, eles existiriam apenas para o nosso divertimento.
Estas concepções teleológicas e hierárquicas da natureza impõem-se não só no confronto entre diferentes espécies, mas também no seio das próprias relações inter-subjectivas dentro da espécie humana. Este é um dos equívocos básicos da Grande Cadeia do Ser, pois legitima filosoficamente soluções aberrantes como a escravatura. A filosofia cristã terá, quando muito, um único mérito: o de demonstrar que as condições humana e animal são indissociáveis e que o desrespeito pelos direitos dos animais é contrário aos deveres do homem para consigo mesmo. Condenar os animais pela não inteligência é abrir a porta à morte das pessoas deficientes, inimputáveis e incapazes: será que um doente comatoso em estado irreversível deixa de pertencer à espécie humana e não merece qualquer protecção jurídica, apenas porque não dispõe de uma vida sensorial e mental? Longe de degradar os direitos humanos, a consagração de direitos fundamentais aos animais, pelo contrário, só os enobrece e reforça.





