2005-06-27

A Senhora Hitchcock


Um dos segredos do sucesso de Alfred Hitchcock foi o seu talento para escolher excelentes colaboradores. Um filme é uma obra colectiva e nenhum realizador, por mais genial que seja, pode ter a pretensão de querer controlar tudo sozinho: é necessário seleccionar uma boa equipa, ouvir as pessoas e confiar nelas. Hitch sabia-o bem e rodeou-se sempre de artistas tão notáveis como Saul Bass, Joseph Stefano, Ernest Lehman ou Bernard Herrmann. Porém, a pessoa que mais e melhor colaborou com Hitchcock é praticamente uma desconhecida: a sua mulher, Alma Lucy Reville. No seu texto The Woman Who Knows Too Much (1956), o cineasta descreve-a como uma profissional brilhante, cozinheira excepcional e a sua maior confidente.

Um dia mais velha que o marido, Alma iniciou-se no cinema aos 16 anos de idade. Trabalhadora esforçada, já havia ascendido aos cargos de anotadora e montadora muito antes de Hitchcock ter concebido o seu primeiro inter-título para um filme mudo. O pedido de casamento teve lugar no decurso de uma turbulenta viagem de barco, por entre ondas impiedosas e enjoos; nessas condições e confrontada com tão ousada proposta, Alma limitou-se a resmungar, acenar afirmativamente com a cabeça e a arrotar ruidosamente. «Foi uma das minhas melhores cenas», contou mais tarde o realizador, «um pouco pobre nos diálogos, mas maravilhosamente encenada e interpretada com enorme realismo».

O nome de Alma surge creditado em muitos dos filmes de Hitchcock, desde 1925 até Pânico nos Bastidores, em 1950. Alguns críticos e biógrafos, como Donald Spoto, afirmam que isto poderia ser apenas uma forma ardilosa de arrecadar mais um ordenado, o que é um perfeito disparate. A influência da Senhora Hitchcock era, na realidade, decisiva. Ao fim da tarde, quando o realizador regressava a casa, ambos discutiam longamente o guião do filme que estivesse na altura em produção e divisavam novas ideias para a sessão do dia seguinte com qualquer dos escritores mundialmente reputados que o Mestre tivesse então contratado.

Além das suas qualidades profissionais, os amigos do casal falam de um espírito inquebrantável que permitia a Alma conviver com um temperamento tão peculiar como o de Hitchcock. Com efeito, o realizador empregava na condução do seu quotidiano a mesma minúcia obsessiva com que dirigia os seus filmes: nunca abandonava o gabinete nas horas de expediente; vestia sempre o mesmo tipo austero de fatos, de modo a que não despendesse inutilmente as suas energias na escolha da roupa; quando viajava, utilizava sempre as mesmas suites nos hotéis para que se pudesse sentir seguro e confortável.

Nas palavras do próprio Hitchcock, «Alma é extraordinária por ser tão normal. E a normalidade é algo de anormal nos dias que correm. Ela tem uma presença incontornável, uma personalidade viva, um rosto sempre luminoso». Que teria sido do notável realizador sem essa fonte inesgotável de força a seu lado? Provavelmente, um profissional não tão notável e bem menos interessante. Felizmente para nós, o cinema juntou-os e ambos não só protagonizaram uma verdadeira e grande história de amor, como também conceberam alguns dos filmes mais emocionantes de sempre.

2005-06-23

O Amor

«Todo o tempo que não é dedicado ao amor é perdido.» Torquato Tasso

«Mantém os olhos muito abertos antes do matrimónio e semicerrados depois.» Provérbio

«Um matrimónio está bem edificado se ambos os cônjuges sentem habitualmente a necessidade de discutir ao mesmo tempo.» Jean Rostand

«Quando estamos apaixonadas por alguém, queremos estar sempre a seu lado, excepto quando saímos para fazer umas compras a debitar na conta dele.» Miss Piggy

«Haverá sempre uma guerra entre os sexos, porque homens e mulheres querem coisas muito diferentes: os homens querem mulheres e as mulheres querem homens.» George Burns

«O amor é como a guerra: fácil de começar, mas muito difícil de parar.» H. L. Mencken

«Quando te casares, faz a ti mesmo esta pergunta: acreditas que serás capaz de conversar com aquela pessoa até à velhice? Tudo o resto no matrimónio é transitório.» Friedrich Nietzsche

«O amor não consiste em contemplar-se mutuamente mas em olhar juntos na mesma direcção.» Antoine de Saint-Exupéry

«Um arqueólogo é o melhor marido a que uma mulher pode aspirar, pois quantos mais anos esta tiver maior será o interesse dele.» Agatha Christie

«No amor há duas desgraças: guerra e paz.» Horácio

«O grande segredo de um matrimónio feliz é tratar todos os desastres como incidentes e nenhum dos incidentes como desastre.» Harold Nicholson

«Segundo casamento: triunfo da esperança sobre a experiência.» Samuel Johnson

«Casa-te de qualquer maneira: se encontrares uma boa esposa, serás feliz; se for má, serás filósofo.» Sócrates

Montanha Mágica

O extraordinário desfecho do romance Montanha Mágica (1924), de Thomas Mann, deixa o leitor inquieto. Tudo termina com o número sete. Além dos sete grupos no salão de jantar e das sete pessoas à mesa dos «russos ordinários», foram sete os anos que o protagonista Hans Castorp passou nessa Montanha. O próprio livro explica porquê: «não é um número redondo ao gosto dos partidários do sistema decimal, e todavia é um número bom, prático à sua maneira; um lapso de tempo mítico e pitoresco, pode dizer-se, e mais satisfatório para a alma do que, por exemplo, uma árida meia dúzia». Trata-se, na verdade, de um número magnífico para concluir um romance. O sete é o número do Homem completo. Significa perfeição, totalidade, unidade. Indica a modificação após a conclusão de um ciclo e uma renovação positiva. Mas qual é, afinal, o ciclo que se encerra no livro de Mann?

Termina, antes de mais, o processo de aprendizagem de Hans Castorp. O nosso herói é agora um homem livre e desligado da vida da planície de onde proveio. Essa ruptura manifesta-se por uma série de sinais óbvios: Hans já não escreve nem recebe cartas; deixou de ler a imprensa e de encomendar ao exterior os seus charutos; prescindiu do calendário e do seu relógio; e nem sequer compareceu no funeral do tio-avô Tienappel. Que diferença relativamente ao jovem simplório que há sete Verões atrás tinha chegado de Hamburgo! A aprendizagem não foi, todavia, convencional, até porque a escola que frequentou é um estabelecimento de ensino sui generis: o Sanatório Internacional Berghof.

O sanatório suíço é um lugar misterioso, mas que propicia como nenhum outro o estudo das artes e ciências. Está situado a uma altitude espantosa – mil e seiscentos metros acima do nível do mar – lá, onde também se encontra o mundo das ideias essenciais de Platão. A circunstância de ser suíço também não é fortuita: a Suiça, país neutral e poliglota, é um pequeno laboratório das ideias do seu tempo, um espaço asséptico e não contaminado pelas grandes concepções políticas e ideológicas. Aí, o estudo decorre sem pressas, paulatino e ao ritmo das estações do ano. Mas a calma é precária, porque a Primeira Grande Guerra em breve ressoa como um trovão pelo mundo inteiro e não poupa ninguém à sua passagem, nem o pobre Hans Castorp.

Há por isso um outro ciclo que se completa: o do destino trágico da própria Europa. O sanatório é uma imagem simbólica de uma sociedade europeia intimamente corroída, atolada num estado de sonolência e quietismo do qual só despertará com a irrupção da Primeira Guerra Mundial. O conflito, já se sabe, surgiu por razões perfeitamente fúteis. Mas isso não significa que a tragédia do jovem protagonista e de todo o continente seja completamente em vão. Bem pelo contrário! Hans decidiu regressar e, como é característico de um herói, fez a opção mais difícil: escolheu o serviço à sociedade, redimiu-se dos seus sete anos de dolce far niente e concluiu com enorme verticalidade a sua educação. A mensagem de Thomas Mann é optimista e intemporal: «vamos, é preciso agir!»

2005-06-19

Extrema-direita

A vida está difícil para toda a gente e a intolerância aproveita para vir ao de cima, como uma retrete entupida: ontem, foi dia de ajuntamento de fascistas no Martim Moniz, em Lisboa.

2005-06-15

Cocanha

A extraordinária Zazie está de volta, mas desta vez a solo e sem o cheiro a manjericão: no Cocanha, evidentemente.

2005-06-07

Mão Morta


«Mão Morta, Mão Morta, vai bater àquela porta...»

Blogues

Mais algumas pérolas da blogosfera: o Reservoir Movies, o Port Moresby e a Revolta dos Pastéis de Nata.

2005-06-01

Manuela Moura Guedes

A jornalista Manuela Moura Guedes disse que «se Fátima Felgueiras está acusada de tantos crimes, por alguma razão é». O que a Moura Guedes não sabe é que uma acusação não é mais que uma opinião, por vezes tendenciosa, formulada pelo Ministério Público a respeito de um processo criminal. Apenas isso e nada mais. Não é uma sentença, não produz caso julgado nem faz prova do que quer que seja. Infelizmente, há pessoas que não têm inteligência suficiente para perceber isto.

2005-05-25

João de Deus


«Vieram os moscovitas, então denominados bavarois, as mousses, os parfaits, os soufflés frios, as bombas... Até que os americanos, com os seus sorvetes à base de nata, por vezes com adições de maizena e gelatina, inventaram o ice cream, actualmente popularizado por toda a parte. É imenso o império do ice cream.»

«Sabes que sou uma mulher de muitos caralhos. Tudo o que tenho saiu-me do pelo. Posso ter sido puta, mas doida é que nunca fui. Ó filho, queres papar um broche? Paga. É tanto. Sempre a facturar. Coração ao largo!»

«Pensa-se muito quando, para onde quer que nos viremos, encontramos sempre quatro intermináveis, monótonas paredes. Tem-te, não caias, digo de mim para mim. E se caires, nunca te esqueças que também se aprende a cair. A carne é fraca, mas o vento paira livremente sobre as águas.»

«Lavai-vos raparigas! Passai-vos todos os dias por água e sabão. Afugentai os factores patogénicos, vulgo micróbios. E Rosarinho, minha filha, ao servires um gelado, nunca te esqueças que também um dia serás mãe.»

«A humidade vinda do rio encharcava-me os ossos. Deixei de ouvir as badaladas da Sé. Acabou-se-me o tabaco, o que ainda assim foi o pior de tudo. A comichão já não me incomodava muito, a não ser nas costas das mãos. O ardor nos tomates só começou mais tarde, pela manhã, se não estou em erro. Rabiei durante não sei quanto tempo. Não se via vivalma, nem um ladrão de carros para dar dois dedos e cravar um cigarro. Por fim, lá topei uma padaria aberta. As carcaças cairam-me na fraqueza. Costume. Tenho um pacote de manteiga escondido no meu quarto. Aposto que a puta da velha não o encontra nem que vire tudo do avesso. Já não caio noutra.»

2005-05-24

Fazedor de Teatro

A nossa querida Renata Portas acaba de estrear o seu Fazedor de Teatro, um blogue excelentemente escrito e encenado. A entrada é grátis.

2005-05-23

Bur(r)ocracia

Uma iniciativa meritória na luta contra a burocracia e ineficiência da nossa Administração Pública: o Portal Kafka da APDSI - Associação para a Promoção e Desenvolvimento da Sociedade da Informação.

2005-05-20

Por Tu Graal

Ainda recentemente, A Bomba homenageou publicamente alguns blogues mais alternativos que, ao contrário da maioria, nas últimas semanas nada escreveram sobre a seca, o Sporting e o papa. Sucede, porém, que um dos melhores blogues portugueses tem produzido abundantes e inspiradas crónicas precisamente sobre a seca, o Sporting e o papa: o excelente Por Tu Graal. Porque o nosso Afonso Henriques é dos blogonautas que tem coisas importantes para dizer e sabe dizê-las de uma forma sedutora, A Bomba acha por bem corrigir esta injustiça e não só indultar o dito blogonauta como conceder-lhe a presente menção honrosa. Publique-se.

2005-05-18

Guerra dos sexos

Uma das coisas mais extraordinárias que alguma vez li a respeito da guerra dos sexos é esta crónica do excelente blogue Horas Mortas.

Propinas (ii)

Um estudo que deixa em cacos as pretensas razões dos defensores das actuais propinas milionárias: 40% dos estudantes universitários portugueses não concluem os seus cursos por razões financeiras (in Jornal de Notícias, de 16.05.2005).

2005-05-17

Originalidade

Uma palavrinha de elogio a alguns dos pouquíssimos blogues que, nas últimas semanas, não mencionaram a seca, o Sporting ou a eleição do papa: a Blue Shell, o Chora-Que-Logo-Bebes e o Gonn 1000. Parabéns e viva a diferença!

2005-05-16

Agenda

Mais alguns bons blogues que vale a pena juntar à agenda: A Miúda dos Disparates, o Berra-boi e o Cinema Xunga 2.

2005-05-14

Afixe

Um dos blogonautas mais polémicos da era pós-Pipi é o João Garcez, com a sua colecção de Cromos Difíceis. No Afixe, pois claro.

2005-05-11

Shaun of the Dead


Agora a sério: os cães conseguem ou não olhar para cima?

Dicionários

Alguns dos melhores dicionários da Internet: o EuroDicAutom, o Priberam e o Merriam-Webster OnLine. Agora já não há desculpa para andar a escrever costoleta, fize-mos ou pariquito.

2005-05-06

Branca de Neve


Quando perguntaram a João César Monteiro porque é que o filme Branca de Neve (2000) ficou todo preto, ele contou uma pequena história. Era uma vez um filme normal que incluía actores, guarda-roupa e o décor festivo do Jardim Botânico de Lisboa. Estava-se já em plena fase de rodagem e o realizador Monteiro, numa manhã de algum sossego, resolveu parar numa pastelaria do Príncipe Real. Para alimentar o espírito, levou consigo dois livros. O primeiro chamava-se Execración contra los judeos, um relato das tropelias argentárias dos judeus portugueses na corte de Filipe IV. Trata-se, obviamente, de um texto de cariz anti-semita, cuja leitura o realizador recomenda vivamente. O segundo livro intitulava-se Graças e Desgraças do Olho do Cu e foi, para o cineasta, uma verdadeira fonte de inspiração: «então achei interessante fazer-se um filme que tomasse o ponto de vista do olho cego, do olho que não vê, do olho discreto, oculto geralmente entre duas belas rotundidades» (sic).

Até os monteiristas mais ferrenhos ficaram indignados. Um deles foi o nosso Hugo, criador do blogue Ford Mustang, que escreveu na altura o seguinte: «o Branca de Neve não é um produto artístico, é um produto meta-artístico, ou seja, é um filme cujo assunto é não a vida das pessoas, mas o próprio cinema; é um filme cujo objectivo não é contar uma história nem caracterizar uma personagem, mas dar nas vistas e ser notícia; ora nada é mais elitista e intelectualóide (no pior sentido) do que um produto artístico cujo público alvo é a comunidade artística-intelectual-pensadora-que-vive-de-subsídios […] O JCM pode fazer filmes que se discutam entre amigos em tascas e cafés e não para estudantes de cinema o discutirem em vernissages, em apresentações de ‘instalações’ e ‘performances’ entre duas linhas de coca e uma pastilha. É isso – amigos a falarem de JCM em tascas e cafés entre imperiais e tremoços – que faz mais sentido, e, aliás, é isso que ele sabe fazer melhor. Ele que faça o que sabe fazer melhor». As críticas são tremendamente injustas, porque há na realidade muito para ver, ainda que não seja com os olhos, no controverso ecrã negro.

Para os estudiosos, o filme de César Monteiro é um verdadeiro achado, porque enovela de uma forma completamente nova o cinema com a pintura, a música e a literatura e reacende a questão velhinha da influência recíproca das artes. Estas inter-relações não suscitam controvérsia quando o cinema se limita a representar um tema extraído de um texto poético, pictórico ou teatral. Mas já se tornam mais complexas, problemáticas e controversas quando se ultrapassa o plano estritamente semântico e se procura alcançar um nível de semelhanças, analogias ou isomorfias de ordem estrutural e técnico-formal. Claro que esta impureza do filme de Monteiro não é só por si nada de novo, pois tal como a educação de uma criança é feita pela imitação dos adultos que a rodeiam, também a evolução do cinema foi e continua a ser influenciada pelas artes mais antigas; a inovação está na eloquência da fórmula encontrada, o ecrã preto.

A analogia mais evidente com o fundo preto de César Monteiro é o célebre Quadrado Negro, de Kasimir Malevich, que nos remete para o universo da pintura. O controverso quadro consiste simplesmente nisso: um quadrado preto sobre um fundo branco no qual forma e cor se reduzem ao quase nada pictórico. Para o pintor russo, é um ponto final, um começar de novo sobre o qual se abre a possibilidade de voltar a escrever a história da pintura. O quadro de 1915 originou várias sequelas: o Círculo Negro surgiu por rotação do quadrado sobre a superfície; a Cruz Negra resultou do deslocamento do quadrado sobre os eixos horizontal e vertical; e o acrescentamento da cor vermelha originou o Quadrado Vermelho. César Monteiro negou terminantemente qualquer inspiração em Malevich, mas o ensimesmamento e desejo de renovação comuns aos dois autores parecem aproximar irremediavelmente as obras de ambos.

A adaptação de um poema dramático reacende a polémica da relação entre cinema e teatro, que é ainda hoje vista como qualquer coisa de herético. A expressão «teatro filmado» ganhou um sentido quase ofensivo e muitas vezes são os próprios cineastas que procuram envergonhadamente erradicar as marcas de origem das peças que adaptam ao ecrã, porque só o cinema puro seria verdadeiro cinema. Porém, a opção pelo teatro filmado não significa qualquer capitulação do realizador: bem pelo contrário, o emprego eficaz do despojamento extremo da fotografia, do ascetismo da découpage, da fixidez do plano ou da profundidade de campo procede sempre de uma mestria excepcional e de uma criatividade que é precisamente o oposto da mera filmagem passiva de uma peça teatral.

Aliás, há inúmeros casos memoráveis de teatro filmado. Em Henrique V, de Laurence Olivier, a teatralidade é assumida sem complexos: nunca chegamos ao interior do drama e ficamo-nos, isso sim, pelo registo cinematográfico de uma representação, com público e camarins, de uma peça de Shakespeare. Em Benilde ou a Virgem Mãe, de Manoel de Oliveira, o realizador não só se limita aos três décors previstos pelo autor da peça, como coloca no ecrã as indicações de «1º acto» ou «Fim do 1º acto». Quanto a Branca de Neve, é verdade que César Monteiro renunciou a toda a espécie de mise-en-scène tradicional, mas do drama original restou pelo menos o texto. Concebido em função das virtualidades teatrais, o texto já as contém em toda a sua plenitude. Ele determina o modo e um estilo de representação e é já, em potência, teatro.

A literatura, cuja cumplicidade com o cinema é antiga e intensa, surge com um fulgor enorme em toda a filmografia de César Monteiro. Não que o realizador tenha recorrido com frequência a obras literárias; aliás, Branca de Neve foi a única adaptação literária em toda a sua carreira. Esse seu entusiasmo pelas Letras manifesta-se sim nas citações abundantes de grandes escritores, na adopção de temas literários e sobretudo no seu prazer evidente da palavra. O argumentista, crítico e ensaísta João César Monteiro escreve com elegância e eloquência e sabe, como poucos, extrair da linguagem todo o seu suco poético.

As marcas literárias de Branca de Neve surgem logo com a insólita Errata no início do filme, o que nos remete para os livros. Eis o que escreveu então o realizador: «Na fala do Príncipe, onde se ouve humanidade, deveria ouvir-se humidade. Embora se trate de uma muito humana humidade, o realizador aproveita o erro para pedir as suas mais sentidas desculpas ao espectador, aqui e agora transformado em espectáculo. João César Monteiro».

O que se segue é um texto extraordinário do suíço Robert Walser, cuja actividade literária foi de 1904 a 1925. As suas obras, escritas com uma simplicidade clarividente e uma limpidez de estilo, influenciaram profundamente autores como Franz Kafka. César Monteiro terá seguramente apreciado a sua irreverência, o seu desprezo pelos convencionalismos e a ironia com que mascarava a solidão absoluta em que viveu. O realizador português ter-se-á também identificado com a sua biografia atribulada: Walser foi internado em 1929 num hospital psiquiátrico, sem que nunca se tenha percebido muito bem porquê.

João César Monteiro levou esta sua admiração ao limite e respeitou escrupulosamente o texto original. Aliás, o realizador foi duplamente fiel ao poema walseriano. Não só porque limitou as alterações a um mínimo indispensável, mas também porque o seu ecrã negro, solução estética encontrada após um longo e penoso processo de reflexão, concedeu a primazia absoluta ao texto adaptado. Libertas do fogo-fátuo das imagens cinematográficas, as palavras de Walser podem agora ostentar-se em todo o seu brilhantismo e eloquência. Quem sabe, talvez Monteiro tenha sido inspirado por aquilo que Branca de Neve disse ao Príncipe quando se encontraram no jardim: «Não, diz, o que vês? Diz logo. Através dos teus lábios deduzirei o bonito desenho desse quadro. Se o pintasses, por certo atenuarias habilmente a intensidade da visão. Então, o que é? Em vez de olhar, prefiro escutar».

2005-05-04

Ivo Ferreira

Quando o realizador Ivo Ferreira chegou ao Dubai, queria fazer apenas aquilo que sabe fazer melhor: bons filmes. Mas a vida tem destas coisas e o jovem cineasta acabou preso pelas autoridades locais. O seu crime: ter dado duas passas num charro. A detenção já se prolonga há um mês e deve ser repudiada por todos nós, porque é manifestamente injusta. Talvez não possamos fazer grande coisa, mas um mail de protesto ao Ministério dos Negócios Estrangeiros de Portugal e à sede da polícia do Dubai sempre é melhor que nada. O Ivo arrisca-se a uma pena de 5 anos de prisão.

2005-05-03

Bons blogues

Dois blogues que são bem feitos, bem escritos, bem pensados, bem tudo: o Lapís Exílis e o Mulholland Drive.

2005-05-02

Mulholland Drive


«10 pistas de David Lynch para desvendar o mistério:

1. Atenção ao início do filme, pelo menos duas pistas são reveladas antes do genérico.

2. Atenção às sombras da lâmpada vermelha.

3. Consegue ouvir o título do filme para o qual Adam Kesher está a fazer audições às actrizes? Volta a ser mencionado?

4. Um acidente é um acontecimento terrível... Preste atenção ao local do acidente.

5. Quem entrega uma chave e porquê?

6. Repare no vestido, no cinzeiro e na chávena de café.

7. O que se sente, acontece e se reúne no clube 'Silencio'?

8. Apenas o talento ajudou Camilla?

9. Repare no que acontece em torno do homem que está nas traseiras do 'Winkies'.

10. Onde está a Tia Ruth?»

2005-04-27

Agora a cores

O realizador Wim Wenders afirmou em tempos que «o mundo é a cores mas o preto e branco é mais realista». O problema é que ele não tinha um blogue. Até aqui, e por discutibilíssima opção estética minha, A Bomba só incluía imagens sem cor. Porém, e graças a uma sugestão preciosa da nossa querida Ofeliazinha, resolvi renovar a pintura e substituir quase todas as anteriores imagens descoloridas por outras que reluzem em toda a sua glória cromática. Espero que, desta forma, o blogue fique melhor (ou menos mau…).

2005-04-26

Corto Maltese

O que faz de Corto Maltese um dos protagonistas mais interessantes do mundo da banda desenhada é o seu carisma. Corto é, antes de mais e indiscutivelmente, um herói: alguém que arrisca a vida pelo dever ou em benefício de outros e que consegue escapar incólume e de um modo exemplar às situações mais insólitas. Mas enquanto que uns dependem de engenhocas sofisticadas e outros de poderes telepáticos, o marinheiro de La Valetta precisa apenas de carisma: a capacidade quase mágica de reunir irresistivelmente os outros em seu redor, ser ouvido por eles e metê-los num chinelo e (aqui é que está a magia) fazer tudo isso naturalmente. Impor-se sem se impor, é essa a poção mágica de Corto Maltese. Não é o seu físico, embora o corpo desempenhe aqui um papel fundamental, não no sentido da força muscular, mas num sentido místico. Nem é o seu proverbial descomprometimento, que lhe permite transaccionar com todas as gentes de todas as inclinações ideológicas e proveniências geográficas e que faz dele, no léxico das Nações Unidas, um verdadeiro observador. É, na realidade, tudo uma questão de carisma.

Esse carisma de Corto Maltese tem-lhe permitido arranjar amigos (fez muitos e de muitas nacionalidades), mas também suplantar inimigos como o temível Roman von Ungern-Sternberg. O Barão Louco, espécie de negativo do próprio Corto, é uma personalidade igualmente ambígua: ele tanto é capaz de recitar Coleridge, como de mandar fuzilar dois dos seus tenentes apenas porque se ausentaram por algumas horas para ir às putas. O sonho do barão: marchar nas pisadas de Gengis Khan, para conquistar a China, depois a Sibéria e avançar até Moscovo. Corto cruzou-se com ele quando perseguia um comboio carregado de ouro e não guarda seguramente boas recordações desse dia. Os dois trocaram apenas alguns monossílabos azedos, mas foi o suficiente para que o marinheiro conseguisse conquistar o respeito e alguma confiança do Barão. Ungern é um sanguinário, mas também um místico suficientemente lúcido para compreender que tem os dias contados. Por isso e porque sabe que Corto é tão aventureiro quanto ele, oferece-lhe o seu império. Mas o marinheiro recusa. O barão, a quem repugnam os bajuladores covardes, admira-lhe a audácia e deixa-o partir em paz mais os seus companheiros.

Também é o carisma de Corto que explica o seu prestígio junto do belo sexo, porque as mulheres sempre apreciaram os temperamentos fortes. Uma delas é a jovem Pandora Groovesnore, por quem o nosso herói se apaixonou em pleno Pacífico: «estás muito bonita! Fazes-me lembrar um tango de Arola que eu ouvia no cabaré Parda Flora, em Buenos Aires». Quanto a Tracy Eberhard, é uma mulher literalmente caída do céu: Corto encontrou-a numa ilha das Caraíbas e salvou-lhe a vida ao retirá-la dos destroços do avião despenhado. Foi também um desastre de aviação que uniu Corto a Marina Seminova, embora o marinheiro se tenha mostrado invulgarmente irritado nessa ocasião. Não era para menos: afinal, a duquesa havia mandado abater, quase desportivamente, o avião onde ele e o americano Jack Tippit viajavam. Mas talvez nenhuma mulher o tenha marcado tanto e tão profundamente como Louise Brookszowyc: é ela que salva a vida de Corto em Veneza e que, dois anos depois, motivará a sua partida atribulada para Buenos Aires. Estas e todas as outras companheiras de Corto Maltese são admiráveis, sedutoras e, tal como ele, carismáticas. Evidentemente, Pratt é um admirador declarado da metade mais sensível da humanidade: «um mundo sem mulheres seria uma coisa terrível!»

2005-04-21

Zazie dans le métro

«Experimentando a comida, Zazie declarou de cara que estava uma merda. Mas o tira, educado pela mãe numa sólida tradição de carne assada, a viúva, entendida em batatas fritas autênticas, e Gabriel, acostumado com os pratos estranhos servidos nas boates, aconselharam à menina que ficasse quieta, assumindo o silêncio covarde, que permite aos donos de restaurantes de terceira categoria corromper o gosto público no plano da política interna, e, no plano da política externa, falsificar, para estrangeiros, a magnífica herança que a cozinha francesa recebeu dos gauleses, a quem também devemos, aliás, como todos sabem, as calças compridas de boca larga, a industrialização dos barris e a arte não-figurativa.»

(in Raymond Queneau: Zazie no Metrô, tradução de Irène Monique Harlek Cubric, Rocco, Rio de Janeiro, 1985)

2005-04-20

Habemus Blogues

Alguns excelentes blogues que, benza-os Deus, são dos mais interessantes que tenho visto por aí: o enérgico Horas Mortas, o cinéfilo Lord Of the Movies e A Vida É Larga, do Jorge.

2005-04-19

Livros

Os editores ingleses têm o hábito saudável de condensar toda a produção literária de grandes autores num único volume. É fácil encontrar em qualquer livraria anglófona enormes camalhaços com as Complete Works of..., sempre a um preço excepcional. Cá em casa, a nossa estante zela cuidadosamente por alguns desses tesouros: por exemplo, as Complete Illustrated Works of Edgar Allan Poe, da Chancellor Press; a saga Hitchhiker, de Douglas Adams, no excelente The Ultimate Hitchhiker’s Guide, da Wings Books; e toda a ficção breve de Franz Kafka nas suas Complete Short Stories, da Vintage. As vantagens da condensação são evidentes: poupa dinheiro aos leitores, economiza espaço nas prateleiras e faculta aos estudiosos uma visão mais rigorosa da produção literária de um escritor. Mesmo assim e estranhamente, em Portugal ainda não existe entre as editoras este hábito de compilar. É pena. Estão todos distraídos ou será alguma manobra conspirativa para extorquir mais algum dinheirinho aos apreciadores de literatura?

2005-04-16

Filth

«O problema dela é que já há muito tempo que não tem uma boa foda. Isso é uma coisa que distorce sempre a perspectiva de uma mulher. Os Serviços Sociais deviam pagar umas massas a alguns desses garanhões no desemprego, que andam para aí todos chateados, para irem fazer a ronda e dar umas boas fodas a essas velhas todas. Assim, elas deixavam de sorver tantos recursos com todas aquelas doenças fingidas. Quando vou ao médico por causa da minha urticária e dos meus ataques de ansiedade, estão lá sempre montanhas de gajas velhas que me obrigam a esperar horas por causa das suas queixas banais.»

(in Irvine Welsh, Lixo, tradução de Maria Dulce Guimarães da Costa, Quetzal Editores, Lisboa, 1993, p.33)

2005-04-15

Argumentistas

Era uma aspirante a actriz tão ingénua, que foi para a cama com o argumentista.