Uma das coisas mais extraordinárias que alguma vez li a respeito da guerra dos sexos é esta crónica do excelente blogue Horas Mortas.
2005-05-18
Propinas (ii)
Um estudo que deixa em cacos as pretensas razões dos defensores das actuais propinas milionárias: 40% dos estudantes universitários portugueses não concluem os seus cursos por razões financeiras (in Jornal de Notícias, de 16.05.2005).
2005-05-17
Originalidade
Uma palavrinha de elogio a alguns dos pouquíssimos blogues que, nas últimas semanas, não mencionaram a seca, o Sporting ou a eleição do papa: a Blue Shell, o Chora-Que-Logo-Bebes e o Gonn 1000. Parabéns e viva a diferença!
2005-05-16
Agenda
Mais alguns bons blogues que vale a pena juntar à agenda: A Miúda dos Disparates, o Berra-boi e o Cinema Xunga 2.
2005-05-14
Afixe
Um dos blogonautas mais polémicos da era pós-Pipi é o João Garcez, com a sua colecção de Cromos Difíceis. No Afixe, pois claro.
2005-05-11
Dicionários
Alguns dos melhores dicionários da Internet: o EuroDicAutom, o Priberam e o Merriam-Webster OnLine. Agora já não há desculpa para andar a escrever costoleta, fize-mos ou pariquito.
2005-05-06
Branca de Neve

Quando perguntaram a João César Monteiro porque é que o filme Branca de Neve (2000) ficou todo preto, ele contou uma pequena história. Era uma vez um filme normal que incluía actores, guarda-roupa e o décor festivo do Jardim Botânico de Lisboa. Estava-se já em plena fase de rodagem e o realizador Monteiro, numa manhã de algum sossego, resolveu parar numa pastelaria do Príncipe Real. Para alimentar o espírito, levou consigo dois livros. O primeiro chamava-se Execración contra los judeos, um relato das tropelias argentárias dos judeus portugueses na corte de Filipe IV. Trata-se, obviamente, de um texto de cariz anti-semita, cuja leitura o realizador recomenda vivamente. O segundo livro intitulava-se Graças e Desgraças do Olho do Cu e foi, para o cineasta, uma verdadeira fonte de inspiração: «então achei interessante fazer-se um filme que tomasse o ponto de vista do olho cego, do olho que não vê, do olho discreto, oculto geralmente entre duas belas rotundidades» (sic).
Até os monteiristas mais ferrenhos ficaram indignados. Um deles foi o nosso Hugo, criador do blogue Ford Mustang, que escreveu na altura o seguinte: «o Branca de Neve não é um produto artístico, é um produto meta-artístico, ou seja, é um filme cujo assunto é não a vida das pessoas, mas o próprio cinema; é um filme cujo objectivo não é contar uma história nem caracterizar uma personagem, mas dar nas vistas e ser notícia; ora nada é mais elitista e intelectualóide (no pior sentido) do que um produto artístico cujo público alvo é a comunidade artística-intelectual-pensadora-que-vive-de-subsídios […] O JCM pode fazer filmes que se discutam entre amigos em tascas e cafés e não para estudantes de cinema o discutirem em vernissages, em apresentações de ‘instalações’ e ‘performances’ entre duas linhas de coca e uma pastilha. É isso – amigos a falarem de JCM em tascas e cafés entre imperiais e tremoços – que faz mais sentido, e, aliás, é isso que ele sabe fazer melhor. Ele que faça o que sabe fazer melhor». As críticas são tremendamente injustas, porque há na realidade muito para ver, ainda que não seja com os olhos, no controverso ecrã negro.
Para os estudiosos, o filme de César Monteiro é um verdadeiro achado, porque enovela de uma forma completamente nova o cinema com a pintura, a música e a literatura e reacende a questão velhinha da influência recíproca das artes. Estas inter-relações não suscitam controvérsia quando o cinema se limita a representar um tema extraído de um texto poético, pictórico ou teatral. Mas já se tornam mais complexas, problemáticas e controversas quando se ultrapassa o plano estritamente semântico e se procura alcançar um nível de semelhanças, analogias ou isomorfias de ordem estrutural e técnico-formal. Claro que esta impureza do filme de Monteiro não é só por si nada de novo, pois tal como a educação de uma criança é feita pela imitação dos adultos que a rodeiam, também a evolução do cinema foi e continua a ser influenciada pelas artes mais antigas; a inovação está na eloquência da fórmula encontrada, o ecrã preto.
A analogia mais evidente com o fundo preto de César Monteiro é o célebre Quadrado Negro, de Kasimir Malevich, que nos remete para o universo da pintura. O controverso quadro consiste simplesmente nisso: um quadrado preto sobre um fundo branco no qual forma e cor se reduzem ao quase nada pictórico. Para o pintor russo, é um ponto final, um começar de novo sobre o qual se abre a possibilidade de voltar a escrever a história da pintura. O quadro de 1915 originou várias sequelas: o Círculo Negro surgiu por rotação do quadrado sobre a superfície; a Cruz Negra resultou do deslocamento do quadrado sobre os eixos horizontal e vertical; e o acrescentamento da cor vermelha originou o Quadrado Vermelho. César Monteiro negou terminantemente qualquer inspiração em Malevich, mas o ensimesmamento e desejo de renovação comuns aos dois autores parecem aproximar irremediavelmente as obras de ambos.
A adaptação de um poema dramático reacende a polémica da relação entre cinema e teatro, que é ainda hoje vista como qualquer coisa de herético. A expressão «teatro filmado» ganhou um sentido quase ofensivo e muitas vezes são os próprios cineastas que procuram envergonhadamente erradicar as marcas de origem das peças que adaptam ao ecrã, porque só o cinema puro seria verdadeiro cinema. Porém, a opção pelo teatro filmado não significa qualquer capitulação do realizador: bem pelo contrário, o emprego eficaz do despojamento extremo da fotografia, do ascetismo da découpage, da fixidez do plano ou da profundidade de campo procede sempre de uma mestria excepcional e de uma criatividade que é precisamente o oposto da mera filmagem passiva de uma peça teatral.
Aliás, há inúmeros casos memoráveis de teatro filmado. Em Henrique V, de Laurence Olivier, a teatralidade é assumida sem complexos: nunca chegamos ao interior do drama e ficamo-nos, isso sim, pelo registo cinematográfico de uma representação, com público e camarins, de uma peça de Shakespeare. Em Benilde ou a Virgem Mãe, de Manoel de Oliveira, o realizador não só se limita aos três décors previstos pelo autor da peça, como coloca no ecrã as indicações de «1º acto» ou «Fim do 1º acto». Quanto a Branca de Neve, é verdade que César Monteiro renunciou a toda a espécie de mise-en-scène tradicional, mas do drama original restou pelo menos o texto. Concebido em função das virtualidades teatrais, o texto já as contém em toda a sua plenitude. Ele determina o modo e um estilo de representação e é já, em potência, teatro.
A literatura, cuja cumplicidade com o cinema é antiga e intensa, surge com um fulgor enorme em toda a filmografia de César Monteiro. Não que o realizador tenha recorrido com frequência a obras literárias; aliás, Branca de Neve foi a única adaptação literária em toda a sua carreira. Esse seu entusiasmo pelas Letras manifesta-se sim nas citações abundantes de grandes escritores, na adopção de temas literários e sobretudo no seu prazer evidente da palavra. O argumentista, crítico e ensaísta João César Monteiro escreve com elegância e eloquência e sabe, como poucos, extrair da linguagem todo o seu suco poético.
As marcas literárias de Branca de Neve surgem logo com a insólita Errata no início do filme, o que nos remete para os livros. Eis o que escreveu então o realizador: «Na fala do Príncipe, onde se ouve humanidade, deveria ouvir-se humidade. Embora se trate de uma muito humana humidade, o realizador aproveita o erro para pedir as suas mais sentidas desculpas ao espectador, aqui e agora transformado em espectáculo. João César Monteiro».
O que se segue é um texto extraordinário do suíço Robert Walser, cuja actividade literária foi de 1904 a 1925. As suas obras, escritas com uma simplicidade clarividente e uma limpidez de estilo, influenciaram profundamente autores como Franz Kafka. César Monteiro terá seguramente apreciado a sua irreverência, o seu desprezo pelos convencionalismos e a ironia com que mascarava a solidão absoluta em que viveu. O realizador português ter-se-á também identificado com a sua biografia atribulada: Walser foi internado em 1929 num hospital psiquiátrico, sem que nunca se tenha percebido muito bem porquê.
João César Monteiro levou esta sua admiração ao limite e respeitou escrupulosamente o texto original. Aliás, o realizador foi duplamente fiel ao poema walseriano. Não só porque limitou as alterações a um mínimo indispensável, mas também porque o seu ecrã negro, solução estética encontrada após um longo e penoso processo de reflexão, concedeu a primazia absoluta ao texto adaptado. Libertas do fogo-fátuo das imagens cinematográficas, as palavras de Walser podem agora ostentar-se em todo o seu brilhantismo e eloquência. Quem sabe, talvez Monteiro tenha sido inspirado por aquilo que Branca de Neve disse ao Príncipe quando se encontraram no jardim: «Não, diz, o que vês? Diz logo. Através dos teus lábios deduzirei o bonito desenho desse quadro. Se o pintasses, por certo atenuarias habilmente a intensidade da visão. Então, o que é? Em vez de olhar, prefiro escutar».
2005-05-04
Ivo Ferreira
Quando o realizador Ivo Ferreira chegou ao Dubai, queria fazer apenas aquilo que sabe fazer melhor: bons filmes. Mas a vida tem destas coisas e o jovem cineasta acabou preso pelas autoridades locais. O seu crime: ter dado duas passas num charro. A detenção já se prolonga há um mês e deve ser repudiada por todos nós, porque é manifestamente injusta. Talvez não possamos fazer grande coisa, mas um mail de protesto ao Ministério dos Negócios Estrangeiros de Portugal e à sede da polícia do Dubai sempre é melhor que nada. O Ivo arrisca-se a uma pena de 5 anos de prisão.
2005-05-03
Bons blogues
Dois blogues que são bem feitos, bem escritos, bem pensados, bem tudo: o Lapís Exílis e o Mulholland Drive.
2005-05-02
Mulholland Drive

«10 pistas de David Lynch para desvendar o mistério:
1. Atenção ao início do filme, pelo menos duas pistas são reveladas antes do genérico.
2. Atenção às sombras da lâmpada vermelha.
3. Consegue ouvir o título do filme para o qual Adam Kesher está a fazer audições às actrizes? Volta a ser mencionado?
4. Um acidente é um acontecimento terrível... Preste atenção ao local do acidente.
5. Quem entrega uma chave e porquê?
6. Repare no vestido, no cinzeiro e na chávena de café.
7. O que se sente, acontece e se reúne no clube 'Silencio'?
8. Apenas o talento ajudou Camilla?
9. Repare no que acontece em torno do homem que está nas traseiras do 'Winkies'.
10. Onde está a Tia Ruth?»
2005-04-27
Agora a cores
O realizador Wim Wenders afirmou em tempos que «o mundo é a cores mas o preto e branco é mais realista». O problema é que ele não tinha um blogue. Até aqui, e por discutibilíssima opção estética minha, A Bomba só incluía imagens sem cor. Porém, e graças a uma sugestão preciosa da nossa querida Ofeliazinha, resolvi renovar a pintura e substituir quase todas as anteriores imagens descoloridas por outras que reluzem em toda a sua glória cromática. Espero que, desta forma, o blogue fique melhor (ou menos mau…).
2005-04-26
Corto Maltese
O que faz de Corto Maltese um dos protagonistas mais interessantes do mundo da banda desenhada é o seu carisma. Corto é, antes de mais e indiscutivelmente, um herói: alguém que arrisca a vida pelo dever ou em benefício de outros e que consegue escapar incólume e de um modo exemplar às situações mais insólitas. Mas enquanto que uns dependem de engenhocas sofisticadas e outros de poderes telepáticos, o marinheiro de La Valetta precisa apenas de carisma: a capacidade quase mágica de reunir irresistivelmente os outros em seu redor, ser ouvido por eles e metê-los num chinelo e (aqui é que está a magia) fazer tudo isso naturalmente. Impor-se sem se impor, é essa a poção mágica de Corto Maltese. Não é o seu físico, embora o corpo desempenhe aqui um papel fundamental, não no sentido da força muscular, mas num sentido místico. Nem é o seu proverbial descomprometimento, que lhe permite transaccionar com todas as gentes de todas as inclinações ideológicas e proveniências geográficas e que faz dele, no léxico das Nações Unidas, um verdadeiro observador. É, na realidade, tudo uma questão de carisma.
Esse carisma de Corto Maltese tem-lhe permitido arranjar amigos (fez muitos e de muitas nacionalidades), mas também suplantar inimigos como o temível Roman von Ungern-Sternberg. O Barão Louco, espécie de negativo do próprio Corto, é uma personalidade igualmente ambígua: ele tanto é capaz de recitar Coleridge, como de mandar fuzilar dois dos seus tenentes apenas porque se ausentaram por algumas horas para ir às putas. O sonho do barão: marchar nas pisadas de Gengis Khan, para conquistar a China, depois a Sibéria e avançar até Moscovo. Corto cruzou-se com ele quando perseguia um comboio carregado de ouro e não guarda seguramente boas recordações desse dia. Os dois trocaram apenas alguns monossílabos azedos, mas foi o suficiente para que o marinheiro conseguisse conquistar o respeito e alguma confiança do Barão. Ungern é um sanguinário, mas também um místico suficientemente lúcido para compreender que tem os dias contados. Por isso e porque sabe que Corto é tão aventureiro quanto ele, oferece-lhe o seu império. Mas o marinheiro recusa. O barão, a quem repugnam os bajuladores covardes, admira-lhe a audácia e deixa-o partir em paz mais os seus companheiros.
Também é o carisma de Corto que explica o seu prestígio junto do belo sexo, porque as mulheres sempre apreciaram os temperamentos fortes. Uma delas é a jovem Pandora Groovesnore, por quem o nosso herói se apaixonou em pleno Pacífico: «estás muito bonita! Fazes-me lembrar um tango de Arola que eu ouvia no cabaré Parda Flora, em Buenos Aires». Quanto a Tracy Eberhard, é uma mulher literalmente caída do céu: Corto encontrou-a numa ilha das Caraíbas e salvou-lhe a vida ao retirá-la dos destroços do avião despenhado. Foi também um desastre de aviação que uniu Corto a Marina Seminova, embora o marinheiro se tenha mostrado invulgarmente irritado nessa ocasião. Não era para menos: afinal, a duquesa havia mandado abater, quase desportivamente, o avião onde ele e o americano Jack Tippit viajavam. Mas talvez nenhuma mulher o tenha marcado tanto e tão profundamente como Louise Brookszowyc: é ela que salva a vida de Corto em Veneza e que, dois anos depois, motivará a sua partida atribulada para Buenos Aires. Estas e todas as outras companheiras de Corto Maltese são admiráveis, sedutoras e, tal como ele, carismáticas. Evidentemente, Pratt é um admirador declarado da metade mais sensível da humanidade: «um mundo sem mulheres seria uma coisa terrível!»
Esse carisma de Corto Maltese tem-lhe permitido arranjar amigos (fez muitos e de muitas nacionalidades), mas também suplantar inimigos como o temível Roman von Ungern-Sternberg. O Barão Louco, espécie de negativo do próprio Corto, é uma personalidade igualmente ambígua: ele tanto é capaz de recitar Coleridge, como de mandar fuzilar dois dos seus tenentes apenas porque se ausentaram por algumas horas para ir às putas. O sonho do barão: marchar nas pisadas de Gengis Khan, para conquistar a China, depois a Sibéria e avançar até Moscovo. Corto cruzou-se com ele quando perseguia um comboio carregado de ouro e não guarda seguramente boas recordações desse dia. Os dois trocaram apenas alguns monossílabos azedos, mas foi o suficiente para que o marinheiro conseguisse conquistar o respeito e alguma confiança do Barão. Ungern é um sanguinário, mas também um místico suficientemente lúcido para compreender que tem os dias contados. Por isso e porque sabe que Corto é tão aventureiro quanto ele, oferece-lhe o seu império. Mas o marinheiro recusa. O barão, a quem repugnam os bajuladores covardes, admira-lhe a audácia e deixa-o partir em paz mais os seus companheiros.
Também é o carisma de Corto que explica o seu prestígio junto do belo sexo, porque as mulheres sempre apreciaram os temperamentos fortes. Uma delas é a jovem Pandora Groovesnore, por quem o nosso herói se apaixonou em pleno Pacífico: «estás muito bonita! Fazes-me lembrar um tango de Arola que eu ouvia no cabaré Parda Flora, em Buenos Aires». Quanto a Tracy Eberhard, é uma mulher literalmente caída do céu: Corto encontrou-a numa ilha das Caraíbas e salvou-lhe a vida ao retirá-la dos destroços do avião despenhado. Foi também um desastre de aviação que uniu Corto a Marina Seminova, embora o marinheiro se tenha mostrado invulgarmente irritado nessa ocasião. Não era para menos: afinal, a duquesa havia mandado abater, quase desportivamente, o avião onde ele e o americano Jack Tippit viajavam. Mas talvez nenhuma mulher o tenha marcado tanto e tão profundamente como Louise Brookszowyc: é ela que salva a vida de Corto em Veneza e que, dois anos depois, motivará a sua partida atribulada para Buenos Aires. Estas e todas as outras companheiras de Corto Maltese são admiráveis, sedutoras e, tal como ele, carismáticas. Evidentemente, Pratt é um admirador declarado da metade mais sensível da humanidade: «um mundo sem mulheres seria uma coisa terrível!»
2005-04-21
Zazie dans le métro
«Experimentando a comida, Zazie declarou de cara que estava uma merda. Mas o tira, educado pela mãe numa sólida tradição de carne assada, a viúva, entendida em batatas fritas autênticas, e Gabriel, acostumado com os pratos estranhos servidos nas boates, aconselharam à menina que ficasse quieta, assumindo o silêncio covarde, que permite aos donos de restaurantes de terceira categoria corromper o gosto público no plano da política interna, e, no plano da política externa, falsificar, para estrangeiros, a magnífica herança que a cozinha francesa recebeu dos gauleses, a quem também devemos, aliás, como todos sabem, as calças compridas de boca larga, a industrialização dos barris e a arte não-figurativa.»
(in Raymond Queneau: Zazie no Metrô, tradução de Irène Monique Harlek Cubric, Rocco, Rio de Janeiro, 1985)
(in Raymond Queneau: Zazie no Metrô, tradução de Irène Monique Harlek Cubric, Rocco, Rio de Janeiro, 1985)
2005-04-20
Habemus Blogues
Alguns excelentes blogues que, benza-os Deus, são dos mais interessantes que tenho visto por aí: o enérgico Horas Mortas, o cinéfilo Lord Of the Movies e A Vida É Larga, do Jorge.
2005-04-19
Livros
Os editores ingleses têm o hábito saudável de condensar toda a produção literária de grandes autores num único volume. É fácil encontrar em qualquer livraria anglófona enormes camalhaços com as Complete Works of..., sempre a um preço excepcional. Cá em casa, a nossa estante zela cuidadosamente por alguns desses tesouros: por exemplo, as Complete Illustrated Works of Edgar Allan Poe, da Chancellor Press; a saga Hitchhiker, de Douglas Adams, no excelente The Ultimate Hitchhiker’s Guide, da Wings Books; e toda a ficção breve de Franz Kafka nas suas Complete Short Stories, da Vintage. As vantagens da condensação são evidentes: poupa dinheiro aos leitores, economiza espaço nas prateleiras e faculta aos estudiosos uma visão mais rigorosa da produção literária de um escritor. Mesmo assim e estranhamente, em Portugal ainda não existe entre as editoras este hábito de compilar. É pena. Estão todos distraídos ou será alguma manobra conspirativa para extorquir mais algum dinheirinho aos apreciadores de literatura?
2005-04-16
Filth
«O problema dela é que já há muito tempo que não tem uma boa foda. Isso é uma coisa que distorce sempre a perspectiva de uma mulher. Os Serviços Sociais deviam pagar umas massas a alguns desses garanhões no desemprego, que andam para aí todos chateados, para irem fazer a ronda e dar umas boas fodas a essas velhas todas. Assim, elas deixavam de sorver tantos recursos com todas aquelas doenças fingidas. Quando vou ao médico por causa da minha urticária e dos meus ataques de ansiedade, estão lá sempre montanhas de gajas velhas que me obrigam a esperar horas por causa das suas queixas banais.»
(in Irvine Welsh, Lixo, tradução de Maria Dulce Guimarães da Costa, Quetzal Editores, Lisboa, 1993, p.33)
(in Irvine Welsh, Lixo, tradução de Maria Dulce Guimarães da Costa, Quetzal Editores, Lisboa, 1993, p.33)
2005-04-15
2005-04-13
Edgar Pêra
O nosso cyneasta mais enérgiko, brylhante e alternatyvo já aderyu a estas koyzas dos blogues: vejam do ke se trata no Edgar Pêra Filmzz.
2005-04-09
Fátima Lopes
A estilista Fátima Lopes acha bem que se torturem animais para fazer casacos. É pena. Alguém deveria explicar à Lopes que a inteligência, a integridade e o civismo nunca saíram de moda.
2005-04-08
Indie Lisboa 2005
O Festival Indie Lisboa regressa para mais uma edição que será, seguramente, um grande êxito. Apesar de terem chumbado (e com toda a justiça, diga-se) o nosso filme O Porteiro, aqui ficam à mesma os meus parabéns e votos de boa sorte à organização.
2005-04-04
Walter Murch
«É completamente improvável que a montagem cinematográfica deva existir. [...] Quando paramos para pensar nisso, é espantoso, porque em toda a existência humana (e, provavelmente, já milhões de anos antes) nós e os nossos antepassados temos visto o mundo de forma contínua. Todas as manhãs abrimos os olhos e nas 16 horas seguintes - levantamo-nos, tomamos o pequeno-almoço, vestimo-nos, saímos - cada passo que damos, cada momento que vivemos é registado sem cortes: o que vemos é um único 'plano' de 16 horas. É como se retirássemos a tampa da objectiva e deixássemos a câmara a filmar 16 horas seguidas. Por conseguinte, não teria sido surpreendente se as primeiras experiências de montagem tivessem provocado alguma espécie de enjôo a quem quer que fosse submetido a elas. Isso teria sido perfeitamente razoável! Porque nada na nossa evolução alguma vez antecipou algo como uma transição instantânea de uma realidade visual em movimento para outra.
A solução, julgo eu, para compreender porque é que a montagem cinematográfica é não só possível como tremendamente eficaz está no cariz cinematográfico dos sonhos, mais do que na realidade acordada. As pessoas têm registado os seus sonhos já desde há muitos milhares de anos, muito antes da invenção do cinema, e todos eles têm em comum estas mudanças súbitas de perspectiva para perspectiva, de lugar para lugar e de tempo para tempo. Os sonhos não têm nenhuma da inércia da realidade física: 'eu estava no meio da selva e logo a seguir estava no topo de um icebergue' - isto pode ser um sonho, mas também pode ser cinema. E é cinema! Eu acredito que o mecanismo secreto que permite que o cinema funcione e tenha sobre nós o poder que tem, é o facto de termos passado, provavelmente desde há milhões de anos, oito horas por dia das nossas vidas num estado de sonho que é caracteristicamente cinematográfico e por isso estarmos completamente familiarizados com esta versão da realidade.»
(in Declan McGrath, Editing & Post-Production, Screencraft, Roto Vision, UK, 2001, pp. 37-40)
A solução, julgo eu, para compreender porque é que a montagem cinematográfica é não só possível como tremendamente eficaz está no cariz cinematográfico dos sonhos, mais do que na realidade acordada. As pessoas têm registado os seus sonhos já desde há muitos milhares de anos, muito antes da invenção do cinema, e todos eles têm em comum estas mudanças súbitas de perspectiva para perspectiva, de lugar para lugar e de tempo para tempo. Os sonhos não têm nenhuma da inércia da realidade física: 'eu estava no meio da selva e logo a seguir estava no topo de um icebergue' - isto pode ser um sonho, mas também pode ser cinema. E é cinema! Eu acredito que o mecanismo secreto que permite que o cinema funcione e tenha sobre nós o poder que tem, é o facto de termos passado, provavelmente desde há milhões de anos, oito horas por dia das nossas vidas num estado de sonho que é caracteristicamente cinematográfico e por isso estarmos completamente familiarizados com esta versão da realidade.»
(in Declan McGrath, Editing & Post-Production, Screencraft, Roto Vision, UK, 2001, pp. 37-40)
Os filhos de Sousa Mendes
Um dos factos mais fascinantes na vida de Aristides de Sousa Mendes é a fuga dos seus filhos para Portugal. O nosso cônsul em Bordéus foi, além do diplomata que salvou do Holocausto mais de 30.000 pessoas, o pai protector e exemplar de uma família numerosa: nada menos que oito filhos e quatro filhas, com idades entre os 8 e os 30 anos. Quando a guerra rebentou na Europa, como é que se poderia transportar toda esta família em segurança de Bordéus até Portugal? A solução estava num Ford familiar de 17 lugares, feito por encomenda e coloridamente baptizado de Expresso dos Montes Hermínios. Porém, aquela viagem de carro seria diferente de todas as outras: o Ministério dos Negócios Estrangeiros não a tinha autorizado e, se fossem descobertos pelas autoridades, o cônsul seria acusado de abandonar o posto. Mesmo assim, Sousa Mendes partiu com os filhos. Após a travessia da ponte internacional que ligava a cidade fronteiriça de Hendaye à sua congénere espanhola, Irún, encontraram um cenário desolador: a Espanha era um país destroçado por quase três anos de uma guerra civil fratricida e proliferavam carências de toda a espécie. Sousa Mendes queria parar tão poucas vezes quanto possível, mas um acidente perto de Salamanca obrigou-o a interromper a viagem: ao descer de uma colina, o Ford tombou de lado, resvalou na estrada e virou-se completamente. Felizmente, os ferimentos não eram graves. Seguiu-se uma série de encontros bizarros: primeiro, com uma limusina do corpo diplomático que lhes forneceu o estojo de primeiros socorros de que necessitavam; depois, com uma carrinha de freiras espanholas que perguntaram, ingenuamente, se estavam a reparar um pneu; e finalmente, com Doña Cármen Pólo y Martinez Valdés mais a sua jovem Carmencita, mulher e filha do Generalíssimo Franco! Após uma tarde de espera ao sol, veio ajuda e os filhos de Sousa Mendes chegaram sãos e salvos à aldeia de Cabanas de Viriato.
2005-03-28
United Colors of Blogs
O que a blogosfera tem de melhor é a sua diversidade. Vejam bem este grupo de blogues, todos diferentes mas igualmente excelentes: a doce Ofeliazinha, o cinéfilo Matiné, o generalista Caso Bicudo e (mais uma vez nunca é demais!) a nossa querida Blue Shell.
Mister Pink

O meu Reservoir Dog preferido é o Mister Pink (Steve Buscemi), porque é o mais cool (no seu duplo sentido de porreiro e frio) de todos eles. À primeira vista não parece, mas é mesmo. Não só porque ele é o responsável por alguns dos momentos mais inspirados do filme, mas também porque possui um pragmatismo, esperteza e capacidade de sobrevivência dignos de um rato (aliás, se olharmos bem, há qualquer coisa de rato na fisionomia de Buscemi…). No meio da confusão que se segue ao roubo gorado, este Mr Pink é o único assaltante suficientemente sereno para esconder o saque em lugar seguro, acalmar os colegas mais exaltados e perceber que há um traidor entre eles. E quando ele se recusa a dar uma gorjeta à empregada do café, não o faz por mesquinhez ou forretice, mas sim em coerência com esse sentido prático da vida. Qualquer pessoa que tenha atravessado tempos de penúria, compreende bem o gesto de Mister Pink e a sua argumentação. O próprio Quentin Tarantino, que fez dele uma espécie de alter-ego, já defendeu publicamente a sua personagem: «esse foi o meu credo durante muito tempo, porque quando eu ganhava o ordenado mínimo, ninguém me dava gorjetas. Eu desempenhava uma profissão que a sociedade não considerava merecedora de gorjetas». A simpatia do argumentista para com Mister Pink é manifesta: ele não só será o único protagonista poupado à matança, como o seu profissionalismo acabará por ser generosamente recompensado com uma mala cheia de diamantes.
2005-03-22
Jornal de Letras
O excelente Jornal de Letras celebrou por estes dias vinte e cinco anos de dedicação à cultura, à inteligência e ao bom gosto. Ao director José Carlos de Vasconcelos e a todos os seus colaboradores, os nossos parabéns!
2005-03-21
Like a Virgin

Um dos momentos mais reverenciados de Cães Danados (1992) é aquele em que os oito gatunos estão à mesa do café e discutem as implicações filosóficas da canção Like a Virgin, da Madonna. De um lado, Mr Blonde (Michael Madsen), um romântico da velha escola, segue a interpretação mais ortodoxa e fala de uma jovem frágil que conhece um homem sensível e experimenta o amor pela primeira vez. Do outro, Mr Brown (Quentin Tarantino) sugere que a letra da canção é na realidade uma metáfora para pilas grandes:
«Let me tell ya what ‘Like a Virgin’’s about. It’s about some cooze who’s a regular fuck machine. I mean, all the time, morning, day, night, afternoon, dick, dick, dick, dick, dick, dick, dick, dick, dick, dick, dick. […] Then one day she meet a John Holmes motherfucker, and it’s like, whoa baby. This mother fucker’s like Charles Bronson in ‘The Great escape’. He’s diggin’ tunnels. Now she’s getting’ this serious dick action, she’s feelin’ something she ain’t felt since forever. Pain. […] It hurts. It hurts her. It shouldn’t hurt. Her pussy should be Bubble-Yum by now. But when this cat fucks her, it hurts. It hurts like the first time. The pain is reminding a fuck machine what it was like to be a virgin. Hence, ‘Like a Virgin’.»
Madonna é uma fã do filme e reagiu à provocação com todo o fair play e simpatia – o que não deixa de ser um pouco surpreendente, se considerarmos que ela é descrita como uma verdadeira «máquina de sexo». Quando todos os olhares do público se viraram para ela numa projecção do filme a que assistiu, Madonna limitou-se a sorrir e a encolher os ombros. Mais tarde, a diva conheceu Tarantino pessoalmente e contou-lhe qual era o verdadeiro sentido da sua canção: «ela fala-nos de uma miúda que atravessou dificuldades e encontra finalmente um homem que a ama». Os dois artistas ficaram amigos e quando a cantora ofereceu ao cineasta um exemplar do livro Erotica, escreveu a seguinte dedicatória: «Para o Quentin. Não é sobre pilas, é sobre o amor. Madonna.»
Chucky
O boneco Chucky está de volta e o seu novo filme fala-nos, ao que parece, das suas tentativas para gerar um filho através da inseminação artificial. O trailer já anda aí à solta e é uma pérola de descaramento. Só para anglófilos: «Get a load of Chucky!»
Elipses
A elipse é o processo narrativo que se caracteriza pela supressão de elementos da acção para realçar outros e tem no cinema, meio que se rege pela economia e necessidade de síntese, um campo de aplicação privilegiado. A montagem, dividindo o tempo e o espaço narrativos em diversas partes (planos), veio facilitar essa operação e quanto mais elíptico for um filme, mais longe estará de uma estética literária ou teatral. O cinema está repleto de exemplos memoráveis de elipses. O que há de tão apetecível e sedutor nelas é a sua implicação do espectador: as elipses são lacunas, espaços vazios, pequenas ilhotas de liberdade semiótica que solicitam uma pluralidade de leituras. O realizador já não afirma, apenas sugere; não mostra a totalidade das coisas, mas apenas a sua parte mais significativa; e, finalmente, cria espaços de indeterminação, ambiguidade e criatividade que o seu público poderá explorar.
Um exemplo famoso (e fumoso…) de elipse é a que encontramos na sequência de abertura de Vertigo (1958), de Alfred Hitchcock. Tudo começa, coerentemente, muito acima do chão. Um criminoso foge para um telhado que domina uma altura imensa. Dois polícias estão no seu encalço e um deles é James Stewart. Ouvem-se tiros. Quando Stewart escorrega e se agarra por um triz a uma calha, o colega tenta auxiliá-lo mas cai para a sua morte. Tudo indica que Stewart vai seguir o mesmo destino: a chapa metálica que o segura dá sinais de ceder, mas um corte súbito transporta-o logo de seguida para o conforto da casa de Midge. A elipse é das mais enigmáticas, porque nunca nos é mostrado como é que o protagonista se salvou da morte. De certo modo, ele é o primeiro a voltar «d’entre les morts» (título do livro de Boileau e Narcejac que inspirou o filme) e a sua sobrevivência pertence à ordem do onírico. Tudo se passa como num sonho, como no despertar daqueles pesadelos frequentes em que sonhamos que vamos a cair. No final do filme, Stewart voltará a estar suspenso sobre o abismo, sem sabermos se irá cair ou novamente mergulhar na loucura.
Uma das razões que fez de Cães Danados (1992), de Quentin Tarantino, um heist movie tão surpreendente é a grandiosa elipse que está ao centro desta história sobre lealdade e um assalto gorado. Em nenhum momento nos é mostrado o roubo dos diamantes, mas unicamente aquilo que se passa antes e depois: o recrutamento dos gatunos, a fuga para o armazém ou a dramática execução de Mister Orange. Tarantino explica porquê: «alguns realizadores gostam de mostrar tudo. Eles não querem que o público especule sobre o que quer que seja; está tudo lá. Eu não penso assim. Eu já vi tantos filmes que me dá um gozo enorme manipulá-los. Cerca de nove em cada dez filmes que vemos, dão logo a entender nos seus primeiros dez minutos que tipo de filme é que são e o público apercebe-se no seu subconsciente disso e começa a virar para a esquerda quando o filme ainda se está a preparar para virar à esquerda; eles prevêem aquilo que vai acontecer a seguir. E o que eu gosto de fazer é utilizar essa informação contra eles.»
O grande David Mamet sempre gostou de fazer filmes sobre filmes e em Manobras na Casa Branca (1997) escolheu falar sobre os produtores. Tradicionalmente, eles eram meros assalariados aos quais se atribuíam projectos, orçamentos, elencos e equipas técnicas, mas o moderno Dustin Hoffman destas Manobras é muito mais do que isso: uma mistura de empresário astuto, contabilista prudente, diplomata flexível e criador artístico visionário. Em suma, um filho da mãe esperto. No final, ele consegue salvar a candidatura do Presidente dos Estados Unidos, mas ainda não está satisfeito: «Acha que eu fiz isto tudo pelo dinheiro? Eu fiz isto pelo reconhecimento! […] Eu sou o produtor, se não fosse por mim não se teria conseguido nada. Eu é que fiz tudo e num tempo recorde. Veja isto. Isto é uma porra de uma fraude e parece 100 % verdade. É o meu melhor trabalho de sempre, porque é tão honesto. Pela primeira vez na minha vida, eu não vou ser intrujado. Eu quero o meu crédito!» Claro que Hoffman nunca chegará a obter o crédito e a cena seguinte conduz-nos de um salto às suas exéquias fúnebres. A morte do protagonista deverá ter sido tudo menos tranquila, mas, felizmente para nós, Mamet não quis sujar as mãos e a sua elipse final poupar-nos-á a esse espectáculo penoso.
Um exemplo famoso (e fumoso…) de elipse é a que encontramos na sequência de abertura de Vertigo (1958), de Alfred Hitchcock. Tudo começa, coerentemente, muito acima do chão. Um criminoso foge para um telhado que domina uma altura imensa. Dois polícias estão no seu encalço e um deles é James Stewart. Ouvem-se tiros. Quando Stewart escorrega e se agarra por um triz a uma calha, o colega tenta auxiliá-lo mas cai para a sua morte. Tudo indica que Stewart vai seguir o mesmo destino: a chapa metálica que o segura dá sinais de ceder, mas um corte súbito transporta-o logo de seguida para o conforto da casa de Midge. A elipse é das mais enigmáticas, porque nunca nos é mostrado como é que o protagonista se salvou da morte. De certo modo, ele é o primeiro a voltar «d’entre les morts» (título do livro de Boileau e Narcejac que inspirou o filme) e a sua sobrevivência pertence à ordem do onírico. Tudo se passa como num sonho, como no despertar daqueles pesadelos frequentes em que sonhamos que vamos a cair. No final do filme, Stewart voltará a estar suspenso sobre o abismo, sem sabermos se irá cair ou novamente mergulhar na loucura.
Uma das razões que fez de Cães Danados (1992), de Quentin Tarantino, um heist movie tão surpreendente é a grandiosa elipse que está ao centro desta história sobre lealdade e um assalto gorado. Em nenhum momento nos é mostrado o roubo dos diamantes, mas unicamente aquilo que se passa antes e depois: o recrutamento dos gatunos, a fuga para o armazém ou a dramática execução de Mister Orange. Tarantino explica porquê: «alguns realizadores gostam de mostrar tudo. Eles não querem que o público especule sobre o que quer que seja; está tudo lá. Eu não penso assim. Eu já vi tantos filmes que me dá um gozo enorme manipulá-los. Cerca de nove em cada dez filmes que vemos, dão logo a entender nos seus primeiros dez minutos que tipo de filme é que são e o público apercebe-se no seu subconsciente disso e começa a virar para a esquerda quando o filme ainda se está a preparar para virar à esquerda; eles prevêem aquilo que vai acontecer a seguir. E o que eu gosto de fazer é utilizar essa informação contra eles.»
O grande David Mamet sempre gostou de fazer filmes sobre filmes e em Manobras na Casa Branca (1997) escolheu falar sobre os produtores. Tradicionalmente, eles eram meros assalariados aos quais se atribuíam projectos, orçamentos, elencos e equipas técnicas, mas o moderno Dustin Hoffman destas Manobras é muito mais do que isso: uma mistura de empresário astuto, contabilista prudente, diplomata flexível e criador artístico visionário. Em suma, um filho da mãe esperto. No final, ele consegue salvar a candidatura do Presidente dos Estados Unidos, mas ainda não está satisfeito: «Acha que eu fiz isto tudo pelo dinheiro? Eu fiz isto pelo reconhecimento! […] Eu sou o produtor, se não fosse por mim não se teria conseguido nada. Eu é que fiz tudo e num tempo recorde. Veja isto. Isto é uma porra de uma fraude e parece 100 % verdade. É o meu melhor trabalho de sempre, porque é tão honesto. Pela primeira vez na minha vida, eu não vou ser intrujado. Eu quero o meu crédito!» Claro que Hoffman nunca chegará a obter o crédito e a cena seguinte conduz-nos de um salto às suas exéquias fúnebres. A morte do protagonista deverá ter sido tudo menos tranquila, mas, felizmente para nós, Mamet não quis sujar as mãos e a sua elipse final poupar-nos-á a esse espectáculo penoso.
2005-03-17
Um tiro no escuro
O realizador Leonel Vieira acaba de estrear Um tiro no escuro (2005), que conta com um elenco notável: Joaquim de Almeida, Vanessa Machado, Filipe Duarte, Miguel Borges, João Lagarto e, claro está, o grande Ivo Canelas. Que maravilha de actor, este Canelas! No nosso filme O Porteiro, o Ivo interpretou com todo o brilhantismo um protagonista indeciso e sentimental. Agora, a comprovar a sua versatilidade espantosa, ele é o Brocas, um ex-presidiário oleoso, charrado e movido ao som dos Mão Morta. Ah, e esperem só pela surpresa que ele vos reserva lá mais para o fim do filme!
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