2005-04-04

Walter Murch

«É completamente improvável que a montagem cinematográfica deva existir. [...] Quando paramos para pensar nisso, é espantoso, porque em toda a existência humana (e, provavelmente, já milhões de anos antes) nós e os nossos antepassados temos visto o mundo de forma contínua. Todas as manhãs abrimos os olhos e nas 16 horas seguintes - levantamo-nos, tomamos o pequeno-almoço, vestimo-nos, saímos - cada passo que damos, cada momento que vivemos é registado sem cortes: o que vemos é um único 'plano' de 16 horas. É como se retirássemos a tampa da objectiva e deixássemos a câmara a filmar 16 horas seguidas. Por conseguinte, não teria sido surpreendente se as primeiras experiências de montagem tivessem provocado alguma espécie de enjôo a quem quer que fosse submetido a elas. Isso teria sido perfeitamente razoável! Porque nada na nossa evolução alguma vez antecipou algo como uma transição instantânea de uma realidade visual em movimento para outra.

A solução, julgo eu, para compreender porque é que a montagem cinematográfica é não só possível como tremendamente eficaz está no cariz cinematográfico dos sonhos, mais do que na realidade acordada. As pessoas têm registado os seus sonhos já desde há muitos milhares de anos, muito antes da invenção do cinema, e todos eles têm em comum estas mudanças súbitas de perspectiva para perspectiva, de lugar para lugar e de tempo para tempo. Os sonhos não têm nenhuma da inércia da realidade física: 'eu estava no meio da selva e logo a seguir estava no topo de um icebergue' - isto pode ser um sonho, mas também pode ser cinema. E é cinema! Eu acredito que o mecanismo secreto que permite que o cinema funcione e tenha sobre nós o poder que tem, é o facto de termos passado, provavelmente desde há milhões de anos, oito horas por dia das nossas vidas num estado de sonho que é caracteristicamente cinematográfico e por isso estarmos completamente familiarizados com esta versão da realidade.»


(in Declan McGrath, Editing & Post-Production, Screencraft, Roto Vision, UK, 2001, pp. 37-40)

Os filhos de Sousa Mendes

Um dos factos mais fascinantes na vida de Aristides de Sousa Mendes é a fuga dos seus filhos para Portugal. O nosso cônsul em Bordéus foi, além do diplomata que salvou do Holocausto mais de 30.000 pessoas, o pai protector e exemplar de uma família numerosa: nada menos que oito filhos e quatro filhas, com idades entre os 8 e os 30 anos. Quando a guerra rebentou na Europa, como é que se poderia transportar toda esta família em segurança de Bordéus até Portugal? A solução estava num Ford familiar de 17 lugares, feito por encomenda e coloridamente baptizado de Expresso dos Montes Hermínios. Porém, aquela viagem de carro seria diferente de todas as outras: o Ministério dos Negócios Estrangeiros não a tinha autorizado e, se fossem descobertos pelas autoridades, o cônsul seria acusado de abandonar o posto. Mesmo assim, Sousa Mendes partiu com os filhos. Após a travessia da ponte internacional que ligava a cidade fronteiriça de Hendaye à sua congénere espanhola, Irún, encontraram um cenário desolador: a Espanha era um país destroçado por quase três anos de uma guerra civil fratricida e proliferavam carências de toda a espécie. Sousa Mendes queria parar tão poucas vezes quanto possível, mas um acidente perto de Salamanca obrigou-o a interromper a viagem: ao descer de uma colina, o Ford tombou de lado, resvalou na estrada e virou-se completamente. Felizmente, os ferimentos não eram graves. Seguiu-se uma série de encontros bizarros: primeiro, com uma limusina do corpo diplomático que lhes forneceu o estojo de primeiros socorros de que necessitavam; depois, com uma carrinha de freiras espanholas que perguntaram, ingenuamente, se estavam a reparar um pneu; e finalmente, com Doña Cármen Pólo y Martinez Valdés mais a sua jovem Carmencita, mulher e filha do Generalíssimo Franco! Após uma tarde de espera ao sol, veio ajuda e os filhos de Sousa Mendes chegaram sãos e salvos à aldeia de Cabanas de Viriato.

2005-03-28

United Colors of Blogs

O que a blogosfera tem de melhor é a sua diversidade. Vejam bem este grupo de blogues, todos diferentes mas igualmente excelentes: a doce Ofeliazinha, o cinéfilo Matiné, o generalista Caso Bicudo e (mais uma vez nunca é demais!) a nossa querida Blue Shell.

Mister Pink


O meu Reservoir Dog preferido é o Mister Pink (Steve Buscemi), porque é o mais cool (no seu duplo sentido de porreiro e frio) de todos eles. À primeira vista não parece, mas é mesmo. Não só porque ele é o responsável por alguns dos momentos mais inspirados do filme, mas também porque possui um pragmatismo, esperteza e capacidade de sobrevivência dignos de um rato (aliás, se olharmos bem, há qualquer coisa de rato na fisionomia de Buscemi…). No meio da confusão que se segue ao roubo gorado, este Mr Pink é o único assaltante suficientemente sereno para esconder o saque em lugar seguro, acalmar os colegas mais exaltados e perceber que há um traidor entre eles. E quando ele se recusa a dar uma gorjeta à empregada do café, não o faz por mesquinhez ou forretice, mas sim em coerência com esse sentido prático da vida. Qualquer pessoa que tenha atravessado tempos de penúria, compreende bem o gesto de Mister Pink e a sua argumentação. O próprio Quentin Tarantino, que fez dele uma espécie de alter-ego, já defendeu publicamente a sua personagem: «esse foi o meu credo durante muito tempo, porque quando eu ganhava o ordenado mínimo, ninguém me dava gorjetas. Eu desempenhava uma profissão que a sociedade não considerava merecedora de gorjetas». A simpatia do argumentista para com Mister Pink é manifesta: ele não só será o único protagonista poupado à matança, como o seu profissionalismo acabará por ser generosamente recompensado com uma mala cheia de diamantes.

2005-03-22

Jornal de Letras

O excelente Jornal de Letras celebrou por estes dias vinte e cinco anos de dedicação à cultura, à inteligência e ao bom gosto. Ao director José Carlos de Vasconcelos e a todos os seus colaboradores, os nossos parabéns!

2005-03-21

Like a Virgin


Um dos momentos mais reverenciados de Cães Danados (1992) é aquele em que os oito gatunos estão à mesa do café e discutem as implicações filosóficas da canção Like a Virgin, da Madonna. De um lado, Mr Blonde (Michael Madsen), um romântico da velha escola, segue a interpretação mais ortodoxa e fala de uma jovem frágil que conhece um homem sensível e experimenta o amor pela primeira vez. Do outro, Mr Brown (Quentin Tarantino) sugere que a letra da canção é na realidade uma metáfora para pilas grandes:

«Let me tell ya what ‘Like a Virgin’’s about. It’s about some cooze who’s a regular fuck machine. I mean, all the time, morning, day, night, afternoon, dick, dick, dick, dick, dick, dick, dick, dick, dick, dick, dick. […] Then one day she meet a John Holmes motherfucker, and it’s like, whoa baby. This mother fucker’s like Charles Bronson in ‘The Great escape’. He’s diggin’ tunnels. Now she’s getting’ this serious dick action, she’s feelin’ something she ain’t felt since forever. Pain. […] It hurts. It hurts her. It shouldn’t hurt. Her pussy should be Bubble-Yum by now. But when this cat fucks her, it hurts. It hurts like the first time. The pain is reminding a fuck machine what it was like to be a virgin. Hence, ‘Like a Virgin’.»

Madonna é uma fã do filme e reagiu à provocação com todo o fair play e simpatia – o que não deixa de ser um pouco surpreendente, se considerarmos que ela é descrita como uma verdadeira «máquina de sexo». Quando todos os olhares do público se viraram para ela numa projecção do filme a que assistiu, Madonna limitou-se a sorrir e a encolher os ombros. Mais tarde, a diva conheceu Tarantino pessoalmente e contou-lhe qual era o verdadeiro sentido da sua canção: «ela fala-nos de uma miúda que atravessou dificuldades e encontra finalmente um homem que a ama». Os dois artistas ficaram amigos e quando a cantora ofereceu ao cineasta um exemplar do livro Erotica, escreveu a seguinte dedicatória: «Para o Quentin. Não é sobre pilas, é sobre o amor. Madonna.»

Chucky

O boneco Chucky está de volta e o seu novo filme fala-nos, ao que parece, das suas tentativas para gerar um filho através da inseminação artificial. O trailer já anda aí à solta e é uma pérola de descaramento. Só para anglófilos: «Get a load of Chucky!»

Elipses

A elipse é o processo narrativo que se caracteriza pela supressão de elementos da acção para realçar outros e tem no cinema, meio que se rege pela economia e necessidade de síntese, um campo de aplicação privilegiado. A montagem, dividindo o tempo e o espaço narrativos em diversas partes (planos), veio facilitar essa operação e quanto mais elíptico for um filme, mais longe estará de uma estética literária ou teatral. O cinema está repleto de exemplos memoráveis de elipses. O que há de tão apetecível e sedutor nelas é a sua implicação do espectador: as elipses são lacunas, espaços vazios, pequenas ilhotas de liberdade semiótica que solicitam uma pluralidade de leituras. O realizador já não afirma, apenas sugere; não mostra a totalidade das coisas, mas apenas a sua parte mais significativa; e, finalmente, cria espaços de indeterminação, ambiguidade e criatividade que o seu público poderá explorar.

Um exemplo famoso (e fumoso…) de elipse é a que encontramos na sequência de abertura de Vertigo (1958), de Alfred Hitchcock. Tudo começa, coerentemente, muito acima do chão. Um criminoso foge para um telhado que domina uma altura imensa. Dois polícias estão no seu encalço e um deles é James Stewart. Ouvem-se tiros. Quando Stewart escorrega e se agarra por um triz a uma calha, o colega tenta auxiliá-lo mas cai para a sua morte. Tudo indica que Stewart vai seguir o mesmo destino: a chapa metálica que o segura dá sinais de ceder, mas um corte súbito transporta-o logo de seguida para o conforto da casa de Midge. A elipse é das mais enigmáticas, porque nunca nos é mostrado como é que o protagonista se salvou da morte. De certo modo, ele é o primeiro a voltar «d’entre les morts» (título do livro de Boileau e Narcejac que inspirou o filme) e a sua sobrevivência pertence à ordem do onírico. Tudo se passa como num sonho, como no despertar daqueles pesadelos frequentes em que sonhamos que vamos a cair. No final do filme, Stewart voltará a estar suspenso sobre o abismo, sem sabermos se irá cair ou novamente mergulhar na loucura.

Uma das razões que fez de Cães Danados (1992), de Quentin Tarantino, um heist movie tão surpreendente é a grandiosa elipse que está ao centro desta história sobre lealdade e um assalto gorado. Em nenhum momento nos é mostrado o roubo dos diamantes, mas unicamente aquilo que se passa antes e depois: o recrutamento dos gatunos, a fuga para o armazém ou a dramática execução de Mister Orange. Tarantino explica porquê: «alguns realizadores gostam de mostrar tudo. Eles não querem que o público especule sobre o que quer que seja; está tudo lá. Eu não penso assim. Eu já vi tantos filmes que me dá um gozo enorme manipulá-los. Cerca de nove em cada dez filmes que vemos, dão logo a entender nos seus primeiros dez minutos que tipo de filme é que são e o público apercebe-se no seu subconsciente disso e começa a virar para a esquerda quando o filme ainda se está a preparar para virar à esquerda; eles prevêem aquilo que vai acontecer a seguir. E o que eu gosto de fazer é utilizar essa informação contra eles.»

O grande David Mamet sempre gostou de fazer filmes sobre filmes e em Manobras na Casa Branca (1997) escolheu falar sobre os produtores. Tradicionalmente, eles eram meros assalariados aos quais se atribuíam projectos, orçamentos, elencos e equipas técnicas, mas o moderno Dustin Hoffman destas Manobras é muito mais do que isso: uma mistura de empresário astuto, contabilista prudente, diplomata flexível e criador artístico visionário. Em suma, um filho da mãe esperto. No final, ele consegue salvar a candidatura do Presidente dos Estados Unidos, mas ainda não está satisfeito: «Acha que eu fiz isto tudo pelo dinheiro? Eu fiz isto pelo reconhecimento! […] Eu sou o produtor, se não fosse por mim não se teria conseguido nada. Eu é que fiz tudo e num tempo recorde. Veja isto. Isto é uma porra de uma fraude e parece 100 % verdade. É o meu melhor trabalho de sempre, porque é tão honesto. Pela primeira vez na minha vida, eu não vou ser intrujado. Eu quero o meu crédito!» Claro que Hoffman nunca chegará a obter o crédito e a cena seguinte conduz-nos de um salto às suas exéquias fúnebres. A morte do protagonista deverá ter sido tudo menos tranquila, mas, felizmente para nós, Mamet não quis sujar as mãos e a sua elipse final poupar-nos-á a esse espectáculo penoso.

2005-03-17

Um tiro no escuro

O realizador Leonel Vieira acaba de estrear Um tiro no escuro (2005), que conta com um elenco notável: Joaquim de Almeida, Vanessa Machado, Filipe Duarte, Miguel Borges, João Lagarto e, claro está, o grande Ivo Canelas. Que maravilha de actor, este Canelas! No nosso filme O Porteiro, o Ivo interpretou com todo o brilhantismo um protagonista indeciso e sentimental. Agora, a comprovar a sua versatilidade espantosa, ele é o Brocas, um ex-presidiário oleoso, charrado e movido ao som dos Mão Morta. Ah, e esperem só pela surpresa que ele vos reserva lá mais para o fim do filme!

Depressão

Para mim, ao contrário do que preconizavam os poetas românticos, um texto deve sair de uma assentada e na sua forma definitiva, porque só assim se escreve com verdade. Detesto fazer correcções ou aditamentos às minhas crónicas. As emendas são uma vergonha e representam uma capitulação miserável perante a minha falta de talento.

2005-03-16

Stephen King

Uma paragem obrigatória no roteiro da blogosfera: as Estações Diferentes, do português Stephen King.

2005-03-14

Os lisboetas

Um dos traços comportamentais mais marcantes dos lisboetas é a sua elegância no vestir. O verdadeiro alfacinha não esquece a sua camisola da Burberry's, a camisa Lacoste ou os sapatinhos italianos e seja em que circunstância for: no passeio de domingo, no hipermercado, no shopping. No café, eis-me aqui de calções e sapatilhas cambadas, como um macaco jogado no meio dos dandies da capital.

2005-03-11

Gonn 1000

O Gonçalo Sá gosta do Fight Club, mas a gente perdoa-lhe porque ele tem um excelente blogue de cinema: o Gonn 1000.

2005-03-08

Os críticos

Os críticos de cinema portugueses são francamente maus. Quase todos são seres pedantes, ignorantes da história do cinema e desconhecedores do que são os bastidores de um filme. Muitos escrevem sem brilho e objectividade. Outros ainda, menosprezam quase tudo o que seja produzido em Portugal, porque só é bom aquilo que é estrangêro. Claro que também há excepções, como os sempre excelentes e sabedores João Lopes, Lauro António e Bénard da Costa, além de vários blogues cinéfilos de enorme interesse, mas a maioria das coisas que lemos na imprensa dita tradicional estão muito abaixo do medíocre. Todos os que conhecem as redacções dos nossos jornais, sabem como é que as coisas se passam: «se não sabes fazer nada, vais para a crítica de cinema». É pena, pois a crítica não é uma figura menor e a sua influência junto do público está longe de ser despicienda.

Escrever uma crítica de cinema não é uma tarefa simples e as dificuldades começam com a complexidade do seu objecto: os filmes. Afinal, do que devemos falar quando falamos de um filme: o argumento? A montagem? Os actores? Mais: apesar de os puristas limitarem a crítica aos aspectos formais e a investigação académica às implicações culturais, o ponto ideal estará algures entre esses dois extremos. Tudo visto, teremos de concordar com Jean Cocteau quando afirmava que a musa do cinema «é excessivamente rica». O crítico deve começar por traçar uma estratégia de abordagem e seleccionar aquilo que lhe interessa de entre toda esta riqueza; aliás, o termo crítica deriva do verbo grego krinõ, que significa precisamente separar, distinguir, julgar. Depois, há que integrar com criatividade e sentido aquilo que se escolheu.

Outra particularidade está no carácter pragmático do cinema. Um filme é um empreendimento que resulta do encontro de forças muito diversas – produção, tecnologia e distribuição – e o crítico deve por isso munir-se de cuidados acrescidos. Nenhum filme é mau ou bom por causa das suas limitações de orçamento, mas é necessário ajustar expectativas: não é o mesmo julgar uma grande produção de Hollywood e um pequeno filme independente. No caso das produções africanas ou sul-americanas, o seu aspecto rudimentar poderá ser tanto um efeito secundário das dificuldades orçamentais quanto uma afirmação ideológica consciente e deliberada. O caso ainda recente do excelente filme angolano O Herói (2004), de Zé Zé Gamboa, foi expressivo: muitos críticos da nossa terra torpedearam a obra com toda a espécie de adjectivos desagradáveis, enquanto que lá fora, o filme acumulou prémios. Porque a versão exibida cá e lá foi rigorosamente a mesma, temos de concluir que os nossos críticos erraram e não conseguiram compreender a importância (que é coisa substancialmente diferente de gostar ou não gostar) desta primeira longa-metragem angolana.

Mas não basta compreender. Na sua obra-prima A Noite Americana (1973), Truffaut fala da distância abissal entre a idealização de um filme e a concretização dessa ideia; o mesmo se pode dizer da escrita sobre cinema, pois as boas ideias não são suficientes, é preciso saber expressá-las bem. Ora, a crítica é um texto caracteristicamente argumentativo que se dirige ao grande público consumidor de filmes; é isso que a distingue de outras formas de análise do cinema, como o ensaio crítico ou o ensaio teórico. O público privilegiado de uma crítica é por isso composto não por estudiosos, mas leigos que vêem os filmes por gosto. Insensíveis a esta evidência, os críticos que lemos minam os seus textos com um palavreado excessivamente técnico, muitas vezes sem qualquer rigor e de forma ininteligível para a generalidade dos leitores.

Rasputine


«É óbvio que sou um ladrão. Mas aquilo que roubo, gasto. Faço o dinheiro circular. Há montes de pessoas que vivem graças áquilo que eu gasto depois de um roubo.»

Marina Seminova


«Sim, dancei e bebi com os meus homens. De vez em quando, é preciso sabermos divertir-nos. Sobretudo se, depois, podemos rezar para obter o perdão do Senhor.»

2005-03-07

Victor Espadinha

A programação da Rádio Radar (97.8) está ainda melhor graças à presença assídua de Victor Espadinha, o nosso maior galanteador. Segundo Espadinha, para quem desejo é sinónimo de potência, os segredos para uma relação de sucesso são três: respeito mútuo, saber esconder o ciúme e não confessar as infidelidades.

Corto


«Eu desapareço sempre nas tempestades de neve. É mais forte que eu.»

All That Jazz

«Se eu fosse Deus – e às vezes penso que sou, depende daquilo que se está a fumar… Ok, se eu fosse Deus, toda a gente vivia eternamente. Enfim, podia haver uma ou duas excepções, como o meu agente, que me enfiou nesta espelunca. Sabem, a morte está na moda. Livros, artigos de revista, programas de televisão, o Ken e a Barbie com um pacto suicida. Há uma senhora que escreveu um livro, a Dra. Kübler-Ross, com hífen. Essa senhora, sem o benefício da própria morte, dividiu o processo da morte em cinco fases: ira, negação, negociação, depressão e aceitação. Parece uma firma de advogados judeus: ‘Bom dia, daqui fala Ira, Negação, Negociação, Depressão & Aceitação, em que lhe posso ser útil?’»

2005-03-02

Prazer Inculto

Um dos blogues mais inspirados de toda a Internet acaba de completar dois anos de idade: o Prazer Inculto, do nosso Possidónio Cachapa. Parabéns, Mestre!

2005-03-01

O Código Da Vinci na RTP1

A controvérsia em redor de O Código Da Vinci continua acesa e a RTP1 decidiu dedicar-lhe todo o serão de ontem, com um debate e um documentário sobre o tema. O documentário foi esclarecedor e uma boa síntese da questão de Jesus e Maria Madalena. Já o debate que se seguiu, com Carreira das Neves, Anselmo Borges, Helena Barbas e João César das Neves, foi menos objectivo. Todos os quatro participantes disseram o mesmo e falaram a uma só voz contra «os perigos» do romance de Dan Brown - excepção feita a uma nesga de controvérsia a respeito do estatuto da mulher no seio da Igreja Católica. Mesmo assim, sobreviveram algumas ideias importantes: Borges criticou a misoginia da Igreja e Helena Barbas falou doutamente sobre a erradicação sistemática do Feminino dos textos sagrados.

2005-02-28

Óscares 2005

Foi realmente uma noite maravilhosa para os Óscares e, em jeito de balanço, aqui ficam duas palavrinhas: uma, de satisfação pelo brilharete do nosso Jamie Foxx; e a outra, de irritação por mais uma derrota imerecida do grande Marty Scorcese.

Casablanca


«Here's looking at you, kid!»

Suchard Express

Hoje, gostaria de falar um pouco da célebre bebida achocolatada Suchard Express, à venda em qualquer bom supermercado. Não se trata de uma manobra publicitária mais esquiva ou envergonhada, até porque a empresa Suchard tem ao seu dispor meios bem mais eficazes de divulgar os seus produtos. Nem quero desconsiderar as outras marcas de achocolatados, igualmente excelentes (Nesquik, Ovomaltine ou Cola Cao, por exemplo). Faço-o apenas como forma de agradecimento pela ajuda que o Express me prestou naquelas semanas infernais em que a febre me acorrentou à cama e a amigdalite congestionava as minhas goelas: nada, a bem dizer nada, conseguia descer pela garganta a não ser essa formosa bebida.

Isto não surpreende se lermos a informação nutricional impressa no rótulo da embalagem do Suchard, pois logo verificamos que o seu valor alimentício é imenso. Entre outros nutrientes prestigiados, avultam a vitamina B1, essencial ao funcionamento da cabeça e do coração, a vitamina B6, que estimula a criação de anticorpos, e a vitamina B12, essa autêntica fonte de juventude que favorece a regeneração dos tecidos e o crescimento do corpo. A tudo isto, acresce que beber o Express é uma experiência prazenteira como poucas: o seu sabor é requintado e um digno embaixador do melhor chocolate suíço.

Devemos a criação desta bebida preciosa ao Senhor Pierre Suchard, cuja história é a de um típico self-made man. Tudo começou em 1825, com a inauguração de uma pequena confeitaria na Suiça. O sucesso foi imediato e não parou. Em 1883, a pequena loja de guloseimas já se tornou na maior empresa produtora de chocolate do seu país e uma marca de referência mundial. Nos anos 60, surge finalmente o nosso Suchard Express: uma bebida nutritiva, deliciosa e fácil de preparar. A publicidade descreve-a como «um achocolatado único, marcado pelo sabor inconfundível da tradição do chocolate» e tem toda a razão! Obrigado, Pierre Suchard!

2005-02-25

Acordar para a Vida

«Depressão, lutas, motins, homicídios. Todo este horror. Somos atraídos por esse estado quase orgíaco criado pela destruição e pela morte. Está em todos nós, deleitamo-nos com ele. Os media tentam entristecer estas coisas, pintando-as de tragédias humanas. Mas a função dos media nunca foi eliminar os males do mundo. Persuadem-nos, isso sim, a aceitar esses males e a viver com eles. Os poderes instituídos querem que sejamos observadores passivos. Tens um fósforo? E não nos deram outras opções, excepção feita ao episódico e puramente simbólico e participativo acto de votar. Queres o fantoche da direita ou o fantoche da esquerda? Sinto que chegou a hora de projectar as minhas imperfeições e frustrações em esquemas socipolíticos e científicos. Que se ouça a minha falta de voz.»

Sala de Pânico

O thriller Sala de Pânico (2002), do excelente David Fincher, pertence àquela categoria pouco abonatória de obras cinematográficas que François Truffaut baptizou como «grandes filmes doentes»: obras-primas abortadas, empresas ambiciosas que sofrem erros de percurso graves. No caso de Sala de Pânico, o mal esteve sobretudo no argumento de David Koepp, mas algumas medidas profiláticas muito simples poderiam ter evitado a dita doença ou, pelo menos, aliviado os seus sintomas. Uma primeira possibilidade, não explorada, seria levar ainda mais além a unidade de lugar: porque não situar os dois primeiros actos exclusivamente no interior da sala blindada? A opção é arrojada, mas resultaria em mais emoção, mais suspense e mais empatia com as duas heroínas aprisionadas. As aselhices do guionista prosseguiram com os três vilões ineptos e trapalhões, que dificilmente poderiam constituir uma ameaça credível. Finalmente, fundamentar o divórcio de Jodie Foster na infidelidade do marido (em vez da sempre pertinente violência doméstica) foi outro erro, pois fez da protagonista uma mulher neurótica e pueril e indigna de encabeçar um filme de Fincher.

2005-02-24

O Sentido da Vida


«Aqui está o sentido da vida. Não é nada de especial. Tentem ser bons. Evitem comer gorduras. Leiam um bom livro de vez em quando. Passeiem. Tentem viver em paz e harmonia com pessoas de todos os credos e nações. Finalmente, algumas imagens gratuitas de pénis para chatear a censura e esperançosamente espalhar controvérsia, que é o único modo de fazer ir ao cinema os saturados de vídeo. Entretenimento familiar? Tretas. Eles querem obscenidades. Pessoas a fazerem coisas umas às outras com serras eléctricas. Bábás esfaqueadas por candidatos presidenciais maricas com agulhas de tricotar. Vigilantes a estrangular galinhas. Críticos de teatro armados a exterminar cabras mutantes. Onde é que está o divertimento nos filmes?»

2005-02-22

Aristides de Sousa Mendes


Ainda há muitos portugueses que não sabem quem foi Aristides de Sousa Mendes. Porém, o nosso País deve-lhe imenso. As suas decisões enquanto cônsul de Portugal em Bordéus representaram, muito provavelmente, a maior acção de salvamento por um único indivíduo durante o Holocausto. Tudo começou em Maio de 1940, quando Sousa Mendes foi confrontado com um dilema doloroso: obedecer às ordens de Salazar e negar os vistos portugueses aos refugiados que chegavam a Bordéus, ou seguir o apelo da sua consciência e emitir os vistos que significavam a diferença entre a vida e a morte para muitas pessoas, sobretudo judeus. Sousa Mendes tinha tudo a perder: o apreço do regime de Lisboa, uma carreira diplomática de 30 anos e sobretudo a segurança dos 12 filhos que tinha a seu cargo. Mesmo assim, optou pelo mais difícil e, ao arrepio das advertências que chegavam do gabinete de Salazar, decidiu ajudar os fugitivos que se acumulavam à porta do seu consulado.

Quando Aristides de Sousa Mendes regressou a Portugal em 9 de Julho de 1940, aguardava-o uma ironia terrível: o diplomata, que havia auxiliado milhares de refugiados, tornava-se agora, também ele, num refugiado. Salazar, que nunca teve sequer a dignidade de conceder uma audiência ao cônsul, foi implacável e não lhe perdoou a audácia. Depois de um processo disciplinar miserável, veio o desemprego, a pobreza e o desespero. Nos momentos de maior angústia, Sousa Mendes foi forçado a recorrer à sopa dos pobres judaica para poder alimentar a família. Mais: finda a guerra, Salazar colheu com enorme hipocrisia os louros do auxílio a milhares de estrangeiros, um mérito que na realidade nunca pertenceu ao regime mas sim a Sousa Mendes e ao povo português. O cônsul morreu a 3 de Abril de 1954, arruinado mas de consciência tranquila, no Hospital da Ordem Terceira, uma clínica gratuita para os pobres dirigida pelos Franciscanos.

2005-02-20

A humildade

Há dias, uma telespectadora telefonou ao nosso Manuel Luís Goucha e disse que gostava do apresentador porque ele era «muito humilde». Nunca compreendi muito bem esta obsessão que os portugueses têm com a humildade. Na América, as vedetas posam radiosas para as câmaras em frente dos seus bólides e casarões em Beverly Hills. Em Portugal, pelo contrário, é uma vergonha ter vaidade naquilo que se faz.

Dar o Arroz

Se A Bomba tivesse uma secção de links, os primeiros da lista seriam os excelentes blogues do Arroz de Estragão: Muitas Coisas, Entreter e Muitas Coisas Plus.